Vitória invoca misericórdia...
quinta-feira, 28/08/08 - 09h05
por Jorge Calderaro
Francisca Miraildes buscando atendimento de emergência
à sua filha menor, Vitória, no final do mês
de dezembro do ano de 2005, a qual se encontrava internada
na Santa Casa de Misericórdia, sob responsabilidade
do médico César Augusto Bastos e Silva, submeteu-se
a uma cirurgia para implantação de uma válvula
face ao diagnóstico de Hidrocefalia.
Realizada a cirurgia Vitória ficou internada em estado
grave, inclusive, mesmo tendo alta, continuou realizando tratamento
com o referido médico, o qual, afirmou que a válvula
implantada não teria resultado positivo e seria necessária
a colocação de um aparelho “T”,
mas, face ao risco que tal implantação oferecia,
recomendou a não realização da dita implantação,
recomendando à mãe de Vitória que aguardasse
por mais um tempo, pois a criança, por certo, apresentaria
melhoras.
Após alguns meses o citado médico foi transferido
da Santa Casa para outra instituição obrigando
a menor em continuar o tratamento com outro médico,
também profissional daquela instituição
de saúde. Esse profissional, logo, no momento da primeira
consulta, surpreendeu-se com o fato da criança encontrar-se
com o implante da válvula, afirmando que a menor, não
era portadora de Hidrocefalia e sim de Síndrome de
Pfeiffer, afirmando inclusive o que era para ser feito, não
teria sido feito, e que a menor não necessitava de
válvula, onde desde então Vitória passou
a ser atendida por outros médicos que afirmaram categoricamente
que ela não era portadora de Hidrocefalia.
Vitória também foi atendida também
no Hospital “Ofir Loyola” por outros médicos,
tendo sido submetida a uma junta médica, onde outro
médico, afirmou e conclui juntamente com seus colegas,
que o caso da menor Vitória era de alta complexidade
em decorrência da implantação de válvula,
e que, tal situação estava provocando a recusa
dos médicos em dar continuidade ao tratamento que necessitava.
Em 12 de Fevereiro do ano passado, já no Hospital
Ofir Loyola, Vitória foi submetida a novo exame de
‘tomografia’, desta feita, ‘Tomografia de
Crânio’, que diagnosticou ‘Síndrome
de Crouzon’. Desde então, após o exame
que diagnosticou a Síndrome de Crouzon, Francisca Miraildes
tentou assistência médica em favor de sua filha
em todos os Hospitais Públicos e Particulares de Belém,
recebendo sempre a recusa de atendimento, face a complicadíssima
situação da menor de ter recebido o implante
da válvula.
Quase dois anos após a implantação da
válvula e sabendo que não iria mais obter êxito
em busca da saúde de sua filha buscou amparo na justiça
onde ajuizou uma ação cautelar, e no dia 2 de
maio do ano passado, o juiz de direito em exercício
da 15ª Vara Cível, Dr. Lúcio Barreto Guerreiro
em decisão impar deferiu a liminar cujo teor segue...
”Assim, na forma do que preceitua o art. 196 da CR/88
c/c art. 7º do ECA DEFIRO A LIMINAR, para ORDENAR à
Santa Casa de Misericórdia do Estado, sob as penas
da lei, que ofereça à criança Vitória
todo o tratamento ADEQUADO para o seu diagnóstico,
oferecendo todos os recursos disponíveis atualmente
na área médica, mesmo que para isto seja necessário
o tratamento com o auxílio de outras instituições,
deferindo desde logo o cumprimento da liminar por meio de
plantão”.
Entretanto, durante esse longo tempo os pais de Vitória
vêm travando uma verdadeira batalha para conseguir atendimento
mesmo estando o caso sub-judice, pois a Santa Casa de Misericórdia
insiste em descumprir ordens judiciais. Vejamos o mais recente
episódio; Vitória esteve no final do mês
de junho em Bauru, retornando à Belém sem que
fosse efetuado algum procedimento, pois a falta do exame solicitado
pelo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais
– USP, uma tomografia computadorizada denominada “CT
Axial + frontal crânio c/ rec 3D”, deixou de ser
efetuada.
Como foi adiada a cirurgia, a menor seguiu para Bauru novamente
no dia 27 de julho levando as chapas e o resultado do exame
realizado por determinação judicial, em despacho
do juiz do feito, Dr. Marco Antonio Lobo Castelo Branco. No
entanto, ao chegar para avaliação os médicos
do HRAC se surpreenderam, pois o exame realizado estava incompleto
e não atendia o solicitado, eis que Vitória
retorna à Belém, sem nenhum procedimento cirúrgico.
Segundo o advogado do caso, Dr. Walmick Melo, essas despesas
são na realidade um desperdício do erário
público que estão ‘indo para o espaço’,
pois além das passagens aéreas que são
fornecidas pela TFD (Prefeitura Municipal de Belém/SUS),
a Santa Casa ainda tem que dispor de numerários suficientes
para a estada de Vitória e de sua mãe na cidade
paulista. E segue, vemos ai, nada mais, nada menos que um
descaso, e por que não dizer uma total desobediência
por parte da Santa Casa à ordem judicial. E vale a
pena ressaltar que o ‘Caso Vitória’, foi
o primeiro caso no Brasil, onde a justiça determinou
todo o cumprimento para a solução do problema
de saúde.
E finaliza, Vitória está em Belém, mas
sem data marcada para outro atendimento naquela cidade, onde
estão os maiores especialistas nessa área da
saúde, crânio facial.
Será Vitória mais uma vítima da Santa
Casa de Misericórdia, pois ao não atender de
pronto a ordem judicial fica caracterizado uma fraude contra
a decisão judicial, pois ao não realizarem o
exame por completo, conforme solicitado pelo hospital de Bauru
e determinado por juízo, configura-se numa fraude contra
a ordem judicial. Ou será que ‘os competentes
médicos da SANTA CASA’, não sabiam disso?
Ou são profissionalmente incapazes? Ou resolveram se
livrar da decisão judicial, enviando-o incompleto?
Deus nos livre de tamanha aberração! Aberração
que prejudicou Vitória, que feriu a Justiça
e que causou despesas com passagem, alimentação,
hospedagem, prejuízos ao erário público,
diz o advogado da menor.
O fato é que Vitória retornou sem o atendimento
cirúrgico, necessário e indispensável
à sua sobrevida, o que configura ludibriar a Justiça.
O pior, Vitória não perdeu só a Cirurgia
pela irresponsabilidade da não realização
do exame completo, mas também ganhou duas circunstâncias
letais. Presentes de Gregos! Primeira Circunstância:
face a impossibilidade da cirurgia Vitória voltará
à fila de atendimento, o que representa data incerta
e não sabida, diminuindo sua chance de sobrevivência!
Segunda Circunstância: Seu médico em Baurú
no HRAC-USP, Dr. Aristides Palhares, especialista em reparação
crânio-facial, que já conhece o quadro clínico
de Vitória, e ali atendia, pela última semana,
pois está de mudança para outro hospital!
Ontem, dia 27 de agosto, o advogado da família da
menor Vitória peticionou ao juiz do feito, pedindo
providências urgentes. Enquanto peticionava recebeu
um telefonema do Hospital de Reabilitação Crânio
Facial de Bauru – USP, o qual informava que a equipe
médica da instituição estaria enviando
toda a documentação relativa ao atendimento
de Vitória naquela cidade, Bauru, ao Núcleo
de Plástica Avançada da Face, na cidade de São
Paulo, o qual exige toda a documentação dos
procedimentos a que Vitória foi submetida, pois estão
enviando o diagnóstico da menor.
Será mais uma viagem em vão que terá
quer fazer? Ou será que os profissionais da saúde
da RÉ, Fundação Santa Casa de Misericórdia
do Estado do Pará não deverá cumprir
as ordem determinadas em sede da liminar. Pois, segundo o
advogado da família pediu além das multas diárias
a prisão de toda a diretoria da Fundação
Santa Casa de Misericórida, haja vista não terem
sido cumpridas as ordens judiciais.
E como sabemos este é o primeiro caso no país,
a ser determinado em juízo para que tudo seja cumprido
pela Requerida (RÉ), pois se acentua cada vez mais
o iminente erro médico no tratamento da menor Vitória,
enfatiza o advogado, e diz ainda, possuímos documentos
que comprovam e oportunamente serão juntados aos autos.
No entendimento do advogado todo o ocorrido é tudo
muito lamentável para que a Santa Casa pelo menos não
sofra punição por parte do judiciário
paraense, finaliza o advogado da família.
Processo nº. 2007.1.027585-8
Tribunal de Justiça do Estado do Pará