quarta-feira, 02/12/09 - 09h05
por Brena Freire
Modernos edifícios, localização
privilegiada e uma das regiões mais valorizadas
da cidade. Assim, é caracterizado, atualmente,
o bairro do Reduto, em Belém, onde está
situada a Avenida Doca de Souza Franco, com seus
atrativos imobiliários, comerciais e de
entretenimento. Contudo, pouco se conhece sobre
a história do bairro e sua importância
econômica para a cidade no período
compreendido entre os séculos XIX e XX.
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Foto: Wagner Meier
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O Reduto, que já foi habitado, predominantemente,
por pessoas de baixo poder aquisitivo, exerceu
importante papel no desenvolvimento comercial
da cidade de Belém. A proximidade do bairro
com a Baía do Guajará era um aspecto
favorável. Comerciantes de várias
nacionalidades, principalmente sírio-libaneses,
se estabeleceram na região pela facilidade
em descarregar suas mercadorias vindas de outras
cidades.
No início do século XX, a maior
parte das fábricas que se instalaram em
Belém estavam situadas no Reduto. Foram
estabelecimentos que, no período de 1920
a 1940, se mantiveram firmes em sua produção.
Por essas características, o lugar recebeu
identificações como “bairro
mercado” e “bairro operário".
A dissertação “Reduto de
São José: história e memória
de um bairro operário (1920-1940)”,
defendida pela professora Rosana Padilha no Programa
de Pós-Graduação em História
Social da Amazônia, da Universidade Federal
do Pará, buscou discutir a representação
criada sobre o Reduto como uma região de
moradia essencialmente operária.
Trata-se de uma tentativa de recomposição
da memória do bairro, em que são
discutidas as representações atribuídas
a ele ao longo do tempo. “Quem eram, realmente,
as pessoas que moravam no bairro? Documentos revelam
que o bairro recebeu a representação
de ‘bairro operário’ por conta
de seu grande número de fábricas
e não, exatamente, por ter, em seu contingente
populacional, uma maioria operária”,
explica Rosana Padilha, professora de História
na Escola de Aplicação da UFPA.
Fábrica da Phebo é a única
em funcionamento
A pesquisadora obteve as informações
nas consultas de registros de imóveis,
nos relatórios administrativos, nos periódicos,
em outros documentos datados do início
do século XX até a década
de 1940 e em fontes orais – moradores antigos
que contribuíram com suas lembranças
do cotidiano dessa época. Obviamente, foi
indispensável um passeio histórico
pelas ruas e pelos estilos arquitetônicos,
além de um significativo levantamento sobre
o perfil dos moradores durante o período
de intensa produção nas fábricas
instaladas no bairro.
Para a orientadora do trabalho, a professora
Maria de Nazaré Sarges, trata-se de uma
pesquisa sem precedentes, por recorrer a novas
possibilidades de fontes. “Pouco se estudou
o bairro do Reduto, e esse trabalho coloca em
evidência um espaço que, hoje, é
disputado por vários grupos sociais”,
acrescenta a pesquisadora, autora do livro Belém:
riquezas produzindo a Belle-Époque (1870-1912).
A principal característica da indústria
em Belém, no início do século
XX, era o seu franco desenvolvimento apesar das
dificuldades decorrentes da “crise da borracha”.
As fábricas que surgiam nesse período
operavam com baixa tecnologia, mas atendiam ao
mercado local, no caso das indústrias de
bens de consumo e indústrias de matéria-prima
semimanufaturadas, voltadas para a exportação.
“Não eram grandes fábricas,
mas correspondiam à demanda da cidade e
isso era importante para uma economia que se sustentava
independente do mercado externo”, ressalta
a professora Rosana Padilha
Entre as fábricas de maior destaque no
bairro do Reduto, está a fábrica
Perseverança, localizada no quarteirão
entre as ruas Quintino Bocaiúva, Gaspar
Viana, Rui Barbosa e Municipalidade. Tratava-se
de um estabelecimento de grande porte, que chegou
a dominar o mercado de cabos, barbantes, cordas
e linhas para pesca. O prédio abriga, atualmente,
um estabelecimento de ensino e alguns escritórios.
A fábrica Phebo, fundada em 1924, ficou
famosa pela produção e comercialização
dos sabonetes Phebo, de cheiro e cor inconfundíveis.
Era uma das fábricas que mais investia
em propagandas de seus produtos. É a única
em funcionamento até hoje na Travessa Quintino
Bocaiúva.
Nos anos de 1950, a construção
da rodovia Belém-Brasília facilitou
a entrada e a comercialização de
produtos do Sudeste do País, o que prejudicou
a produção e o comércio locais.
Assim, o fechamento de muitas fábricas
foi inevitável. Apesar das mudanças
urbanísticas sofridas pelo bairro, ainda
é possível encontrar antigos galpões
de fábricas, transformados em outros estabelecimentos,
e casas que preservam o mesmo estilo arquitetônico.
As vilas operárias foram construídas
para ordenar a cidade
Durante a Belle-Époque, a política
sanitarista de Antônio Lemos instituiu que
as classes industriais e operárias deveriam
possuir acomodações próprias,
buscando uma ordenação, sobretudo
estética, na cidade de Belém. A
construção de vilas operárias
foi apresentada como a melhor solução
para o “problema” das habitações
operárias, consideradas anti-higiênicas.
Foram construídas muitas vilas no bairro
do Reduto, algumas com moradias simples, habitadas
por pessoas mais pobres, mas poucos operários
das indústrias do bairro. As melhores casas
se tornaram um grande negócio para os empresários,
que as construíam e cobravam altos preços
pelos aluguéis. Dessa forma, tornou-se
economicamente inviável para os operários
habitarem esses locais.
“Na realidade, as vilas foram construídas
para os empregados com cargos de maior importância
nas fábricas, como os gerentes e os operários
especializados que tinham condições
de pagar. Por meio de documentos, observa-se que
a maioria dos operários habitava a periferia
de Belém e era procedente de áreas
vizinhas, como Pedreira, Umarizal e Jurunas. Os
diversos relatos de antigos moradores também
deixam claro que o bairro do Reduto era um local
de trabalho para os operários e não
de moradia”, explica Rosana.
Hoje, ainda é possível encontrar
cerca de vinte dessas vilas no Reduto. Em geral,
apresentam características populares, com
construções geminadas. A Vila Áurea,
construída em 1920, na Rua Aristides Lobo
com a Travessa Benjamim Constant, é uma
delas, embora não seja reconhecida por
seus atuais moradores como vila operária.