quinta-feira, 03/12/09 - 16h58
Segundo o princípio 7º
da Declaração Universal dos Direitos
Humanos, "a criança deve ter plena
oportunidade para brincar e para se dedicar a
atividades recreativas". Os artigos 4 e 16
do Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) reafirmam esse direito, legitimado ainda
pelo artigo 227 da Constituição
Federal de 1988. Mas, na prática, a brincadeira
está longe de ser uma prioridade para muitas
crianças brasileiras.
Apontado por especialistas como uma ferramenta
fundamental no desenvolvimento da criança,
o lazer tem sido negligenciado por pais, educadores
e pelo próprio poder público. É
o que afirma a assistente social e presidente
da Associação Brasileira pelo Direito
de Brincar (IPA Brasil), Marilena Flores. "As
pessoas desconhecem a importância da chamada
ludo-pedagogia. A brincadeira não é
apenas distração, mas uma possibilidade
de aprendizado", diz.
Há doze anos, a associação
organiza eventos, projetos e campanhas de conscientização
para garantir a meninos e meninas o acesso a atividades
lúdicas e culturais. A assistente social
acredita que a falta de espaços apropriados
para as crianças se divertirem é
um reflexo do descaso com que o assunto é
tratado. "Precisamos de mais praças,
parques e outros locais públicos que apresentem
boas condições físicas e
de segurança", completa.
Esconde-esconde, cabra-cega, amarelinha e outras
brincadeiras de rua estão sendo praticamente
extintas com o tempo. A violência crescente
e a movimentação do trânsito
são fatores que restringem as crianças
a procurar diversão dentro de casa, geralmente
recorrendo à televisão e aos jogos
eletrônicos.
Matricular os pequenos em diversas aulas complementares
- como as de inglês, esporte e música
- é uma solução encontrada
por muitos pais atualmente. Mas, para a diretora
da seção Brasília da Associação
Brasileira de Psicopedagogia, Marli Campos, o
brincar não deve ser deixado para segundo
plano. "O excesso de atividades pode sobrecarregar
a criança, gerando situações
de angústia e estresse. A brincadeira é
o momento que ela tem para relaxar e extravasar
suas emoções", lembra.
A criança que não tem muitas oportunidades
para brincar livremente e que não compartilha
com os pais esses momentos de descontração
pode apresentar problemas comportamentais no futuro.
Dificuldades de expressão e de socialização
são alguns deles. Quando brinca, ela desenvolve
o pensamento criativo, a coordenação
motora, aprende regras de convivência e
cooperação, além de exprimir
seus medos, desejos e expectativas. Em outras
palavras, garante um crescimento saudável
e possibilita a formação de um adulto
autônomo e equilibrado.
A questão esbarra ainda em indicadores
sociais que demonstram que muitas crianças
brasileiras não têm a chance de ser
apenas crianças. A Pesquisa Nacional por
Amostras de Domicílios (Pnad) realizada
anualmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) mostra que hoje 2,1
milhões de jovens entre 5 e 17 anos trabalham,
principalmente na agricultura e em afazeres domésticos.
Responsáveis por grande parte da renda
familiar, esses jovens são precocemente
retirados do mundo de jogos, brincadeiras e aprendizagem
a que deveriam ter acesso, comprometendo, assim,
seu desenvolvimento afetivo e intelectual.
Para o coordenador da Rede Nacional Primeira
Infância, Vital Didonet, é preciso
ficar atento ao problema. "Infelizmente nem
a sociedade nem o governo dão prioridade
aos direitos da infância. E não tendo
prioridade política, eles acabam não
dispondo de muitos recursos financeiros",
afirma. A solução, segundo ele,
estaria na articulação entre diferentes
setores sociais. "A integração
das organizações é um processo
difícil e lento, mas que deve ser buscada
como forma de avançar no atendimento às
necessidades da criança", enfatiza.
Segundo a coordenadora geral de Cultura e Cidadania
do Ministério da Cultura (MinC), Elaine
Tozzi, existem ações governamentais
que têm procurado facilitar o acesso de
crianças e adolescentes aos benefícios
da atividade lúdica. O programa Pontinhos
de Cultura/Espaço de Brincar foi implantado
em 2008, com o objetivo de mapear as melhores
iniciativas em todo o país que relacionam
infância e cultura. Na última edição,
215 projetos foram premiados com uma quantia de
R$18.000,00 e contam com o apoio necessário
para continuar realizando esse trabalho.
Pelo direito de brincar - O Plano Nacional para
a Primeira Infância pretende conscientizar
a sociedade sobre a importância de garantir
às crianças o direito à brincadeira.
Para isso, foram traçadas estratégias
que orientem a formulação de políticas
públicas voltadas a meninos e meninas de
até seis anos. Temas como saúde
e mortalidade infantil, violência, registro
civil, crianças indígenas e quilombolas,
educação, assistência social,
situação de rua e meio ambiente
também foram incluídos no projeto.
O documento, elaborado pela Rede Nacional Primeira
Infância, tem a proposta de estabelecer
um plano a longo prazo que seja formulado democraticamente,
com a participação de diversos setores
sociais. As metas têm o prazo de catorze
anos para serem cumpridas. Se aprovadas pelo Poder
Legislativo, darão origem a uma política
de Estado, que deve ser realizada independente
da sucessão de governos.
Segundo o coordenador Vital Didonet, essa é
uma característica importante para o sucesso
do projeto. "A descontinuidade dos planos
governamentais é uma característica
histórica, responsável pelo lento
avanço nas políticas públicas.
Se cada governo tiver a obrigação
de assumir a responsabilidade pelas metas, essa
cultura pode ser mudada", afirma.
Durante o processo de formulação
do Plano, ouvir a opinião das crianças
foi uma das etapas imprescindíveis para
entender melhor suas necessidades. Em janeiro
deste ano, a Associação Ato Cidadão,
em parceria com o Instituto C&A, realizou
uma pesquisa em nove capitais brasileiras. Ao
todo, 94 crianças participaram de atividades
como teatro, jogos e desenhos e, dessa forma,
foram estimuladas a falar sobre o que consideram
prioridade para elas.
Fonte: Maxpress