terça-feira, 01/12/09
- 18h35
por Glauce Monteiro
Caminhando entre casarões
dos bairros da Campina, da Cidade Velha ou do
Comércio, é possível vislumbrar
o período áureo dos palacetes em
Belém. A beleza dos azulejos que enfeitavam
as fachadas dos prédios históricos
poderia encantar os olhares modernos se não
fosse o desaparecimento progressivo desses objetos.
Mas o que pode ser feito para preservar esse patrimônio
histórico?
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| Foto: Wagner Meier |
Pesquisadores do Instituto de Tecnologia (ITEC)
e do Instituto de Geociências (IG) da Universidade
Federal do Pará acreditam que, “além
dos dados históricos, precisamos estudar
e propor opções para preservar,
restaurar e ajudar as fachadas a continuarem enfeitando
a história e a vida arquitetônica
de Belém. Para isso, é preciso conhecê-los
mais profundamente, saber do que são constituídos”,
argumenta Thais Sanjad, professora da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo do Instituto de Tecnologia
da UFPA.
“Fizemos a caracterização
dos azulejos visando, no futuro, produzir réplicas.
Tomamos amostras de peças portuguesas,
francesas e alemãs e fizemos a caracterização
física, mineralógica e química
do material para saber qual a matéria-prima
e os processos de produção dos azulejos
históricos de Belém”, resume
Marcondes Lima da Costa, professor da Faculdade
de Geologia do Instituto de Geociências
da UFPA.
Juntos, os pesquisadores analisaram 19 amostras
de azulejos do acervo da Coleção
da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPA.
“Conhecendo isso, temos capacidade de fazer
novos azulejos para recompor lacunas nas fachadas,
propor técnicas de restauro mais apropriadas
às características do material e,
ainda, divulgar a história dos azulejos
por meio de peças artesanais”, garante
o professor Marcondes Costa. O projeto contou
com a participação de pesquisadores
e bolsistas de Iniciação Científica
do ITEC e do IG, além da colaboração
do professor Mário Mendonça, da
Universidade Federal da Bahia. Os resultados da
pesquisa estão no livro Azulejaria Histórica
em Belém do Pará: contribuição
tecnológica para réplicas e restauro.
Clima tropical, custo e descaso prejudicam manutenção
No final da década de 70, uma pesquisa
nacional revelou que Belém era a cidade
brasileira com o maior número de padrões
diferentes de azulejos em fachadas. Anos depois,
pesquisadores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismos
da UFPA estão reavaliando este patrimônio.
Não bastasse o descaso dos proprietários
e do poder público, as peças, tidas
como verdadeiras obras de arte, também
sofrem com a ação do tempo, da umidade
e do calor, processo natural, irreversível,
mas que poderia ser retardado.
Thais Sanjad revela que Belém ainda possui
fachadas azulejadas nos bairros Cidade Velha,
Campina, Reduto, Nazaré, Batista Campos,
Jurunas, Umarizal e São Brás. Ao
constatar a perda de mais de 60% do material ao
longo dos últimos 40 anos, os pesquisadores
também encontraram agradáveis surpresas.
“Localizamos fachadas em bom estado de conservação
em edificações localizadas fora
do centro histórico, como em São
Brás, e também identificamos azulejos
que pensávamos que já tinham desaparecido
das fachadas. Descobrimos que alguns deles foram
‘transportados’ para novas edificações
durante a década de 80”, lembra a
professora.
Entre os desafios para a preservação
dos azulejos, a pesquisadora destaca a ação
do clima, o descaso e os custos para a substituição
do material. Ela conta que Belém possui
azulejos com mais de cem anos, muitos estão
degradados, outros, em estado de conservação
superior ao de modelos mais atuais. Daí,
a importância de conhecer os materiais e
descobrir técnicas de restauração
que sejam mais duráveis e acessíveis.
“Em 2004, a fachada do Palacete Pinho teve
seus azulejos restaurados. Dois anos depois, a
restauração estava degradada. Precisamos
de uma tecnologia de restauração
e de um material que sejam adequados ao clima
da cidade. Por isso fizemos a identificação
do material para sabermos do que é feito
e como podemos interferir em sua composição.
Os proprietários sempre argumentam que
não há azulejos em Belém
que possam preencher as lacunas e que a mão
de obra para restaurar é inacessível,
sendo esse um dos aspectos que encarecem a preservação
das fachadas azulejadas. Os projetos de pesquisa
desenvolvidos na UFPA preveem o aproveitamento
da indústria cerâmica local para
a produção das peças e a
formação de mão de obra especializada
nesse tipo de restauração como uma
das formas de tornar acessível esta tecnologia”,
assegura a pesquisadora.
Projetos preveem formação de mão
de obra especializada
Os projetos desenvolvidos para a preservação
de azulejos em Belém fazem parte das investigações
científicas do Grupo de Pesquisa de Mineralogia
e Geoquímica Aplicada da Universidade e
envolvem professores das Faculdades de Arquitetura
e Urbanismo, Geologia e Engenharia Química.
O principal objetivo das pesquisas é a
revalorização das fachadas na capital
paraense e cada um dos projetos volta-se para
uma finalidade específica como identificação
dos azulejos existentes, possibilidades de fabricação
de réplicas em Belém e desenvolvimento
de técnicas e materiais de restauro apropriados
ao nosso clima.
Uma das propostas estudadas é a criação
de uma nova atividade produtiva para os ceramistas
do Distrito de Icoaraci, em Belém. “Pesquisadores
estão avaliando a argila utilizada pelos
artesãos de Icoaraci e os processos de
produção de cerâmica empregados
a fim de desenvolver uma tecnologia de produção
de cerâmica vidrada, de forma que possam
ser aproveitados o material, o processo de produção
e o conhecimento dos ceramistas belenenses. Isso
deve gerar uma nova atividade econômica
para esses trabalhadores e possibilitar uma restauração
de qualidade e com custo mais acessível”,
acredita Thais Sanjad. Além disso, o novo
material poderia ser direcionado ao mercado de
turismo com a produção de suvenir
de azulejos históricos belenenses.
De acordo com Thais Sanjad, o desconhecimento
é uma das principais barreiras para a propagação
da necessidade da preservação histórica,
“pretendemos revalorizar as fachadas azulejadas.
Muitos não sabem a origem e a história
dessas peças, que vieram dos melhores centros
de produção cerâmica do mundo,
como Inglaterra, França, Alemanha, Holanda
e Portugal. Como os azulejos estão degradados,
é fácil somar a eles o conceito
de feio, ultrapassado e velho. Vamos divulgar
o inventário, propor formas de baratear
os custos com a restauração e, se
possível, capacitar e formar restauradores
especializados em azulejaria em Belém”.
O professor Marcondes Costa completa: “quem
contempla a beleza e sabe um pouco mais sobre
os azulejos torna-se mais sensível para
a necessidade de preservação. O
tempo não é contornável,
mas a investigação científica
pode propor opções para preservar
o que ainda temos e recuperar o que se está
perdendo”.