JB e uma contradição na convergência
das mídias
quinta-feira, 02/09/10 - 10h44
por Fabio Arruda Mortara
Ao contrário do que se difunde no chamado
inconsciente coletivo, o período de maior
crescimento do número de títulos
de jornais no Brasil é simultâneo
ao boom da internet. Em 2001, eram 1.980 periódicos
em circulação. Em 2009, o total
alcançou 4.148. Estes dados da ANJ (Associação
Nacional de Jornais), que revelam expansão
de 109,5% em oito anos, evidenciam que a Web e
as novas tecnologias complementam e, ao mesmo
tempo, constituem uma base para a ascensão
da mídia impressa.
Outro indicador relativo à credibilidade
e solidez dos jornais refere-se à evolução
dos investimentos em propaganda nesses veículos,
que saltaram de R$ 1,97 bilhão, em 2001,
para R$ 3,13 bilhões, em 2009, conforme
também é possível constatar
nas estatísticas daquela entidade. O aumento
foi de 58,7%. No ano passado, os periódicos
responderam por 14,97% do aporte de recursos em
publicidade no País, perdendo apenas para
a televisão. A Internet ficou com 4,27%
do total.
Outra boa notícia refere-se ao crescimento
da circulação média dos jornais
no Brasil no acumulado de janeiro a abril de 2010,
que foi de 1,5% em comparação com
o mesmo período do ano passado e de 1,7%
em relação ao primeiro quadrimestre
de 2008. Esta informação do IVC
(Instituto Verificador de Circulação)
corrobora estimativa de estudo da Pricewaterhouse
Coopers: a circulação dos jornais
impressos crescerá na América Latina
nos próximos cinco anos, mesmo que a crise
econômica ainda não tenha sido completamente
superada. A maior expansão dar-se-á
no Brasil (2,2%), seguido por Argentina (1,4%).
A exceção, por motivos óbvios,
fica por conta da Venezuela, onde se prevê
queda de 0,2%.
É claro que o advento da Web apresenta
impacto no mercado dos jornais. Tanto assim, que
todos eles já têm sua edição
digital, a maioria protegida, reservada apenas
aos assinantes da impressa. Paulatinamente, os
fatos do dia, em sua versão mais imediata
e urgente, vão-se caracterizando como noticiário
dos sites informativos, cabendo aos jornais impressos
a publicação de informações
com mais detalhes, infográficos, opiniões
mais diversificadas sobre o tema e maior esforço
de apuração. Ademais, seu texto
já incorpora críticas, correções
de equívocos e sugestões possibilitadas
pela interatividade da internet. É, portanto,
mais aprimorado na forma e no conteúdo.
No ambiente contemporâneo da comunicação,
nota-se sinergia e complementaridade entre as
mídias. Todas ajustam-se ao cenário
da convergência, que se consolida como um
eficiente modelo. Os jornais do Interior, por
exemplo, ganham crescente significado e ampliam
sua circulação à medida que
focam de modo prioritário as questões
locais e regionais. Os anunciantes há tempos
perceberam o seu potencial econômico, expresso
no perfil de seu público, que é
formador de opinião e tem poder aquisitivo.
Os grandes diários, de peso e distribuição
nacionais, ajustam suas tiragens e circulação
à nova realidade, mas continuam se constituindo
em mídias decisivas para informar e influenciar
de modo expressivo a vida do País.
Considerado todo esse contexto, a extinção
da edição impressa do Jornal do
Brasil, um dos mais importantes e influentes veículos
de comunicação que o País
já teve, vai na contramão das tendências
de convergência das mídias. Aos 119
anos, o periódico protagonizou momentos
memoráveis. Tinha caráter e personalidade.
Resistiu, como muitos jornais, a graves ataques
dos regimes de força que por aqui se implantaram,
e lamento a sua extinção como mídia
gráfica. Assim como a Gazeta Mercantil,
que sucumbiu em 2009, o grande diário carioca
deixa irreparável lacuna no jornalismo
brasileiro e no cenário urbano. As bancas
nunca mais serão as mesmas... e, por favor,
não culpem a internet!
Fabio Arruda Mortara, M.A.,
MSc., empresário, é presidente da
Associação Brasileira da Indústria
Gráfica (Abigraf Regional São Paulo),
do Sindigraf-SP e vice-presidente da Associação
Latino-Americana de Artigos para Livraria e Papelaría
(ALALP).