O fascismo está de ronda. Em qual planeta
você vive?
quinta-feira, 02/09/10 - 11h04
por Marli Gonçalves
A vontade é de sair por aí, cutucando
todo mundo que encontro, chamando a atenção,
conversando com calma, expondo a situação,
mostrando imagens e notícias. Ei, você
já viu o que estão fazendo com as
liberdades? Ei, percebeu que não tem havido
garantias mínimas dos cidadãos,
em todo mundo? Caracolas, afinal, em que mundo
você vive?
O perigo das massas não diz respeito só
a engordar. O sujeito histérico de bigodinho
rente, cara de maluco e mãozinha esticada.
Milhões de outros esticando a mãozinha
também. O discurso do todo mundo igual,
treinado, vindo do homem de cara feia, fardado,
que de Duce não tinha nada. Qual a diferença
do sujeito atarracado - o ditador da Coréia
do Norte, Kim Jong-il? E do outro baixinho, o
presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad?
São todos assassinos, mandantes, bárbaros,
alucinados imbuídos de poderes e com domínio
impressionante da comunicação e
marketing.
Como são tão - ou mais - escrotos,
midiáticos e sanguinários do que
os outros, bem, esses dois últimos são
visíveis, digamos assim. E Hitler e Mussolini
já eram; só que foram, mas deixaram
suas ideias de jerico e liderados aficionados.
Nós cantávamos e contávamos
favas. Dizíamos-nos contentes, batendo
no peito, celebrando que o horror jamais voltaria;
que aqueles fatos horrorosos, como o Holocausto,
Hiroshima, Nagasaki, jamais se repetiriam, porque
o mundo estaria eternamente alerta. Era o fim
das ditaduras, as da região "dos bananas"
latino- americanos e outros, tribais, como as
guerras africanas. Seria o fim da perseguição
religiosa, racial, contra minorias.
Acho que desligaram esse alarme. Na última
semana, mais de 300 ciganos foram deportados na
França, como animais enxotados pelo elegante
presidente Nicolas Sarkozy e sua linda primeira-dama,
Carla Bruni. Depois de conseguir o apoio de Itália,
a França ainda vai tentar convencer outros
países da Europa a expulsar os ciganos,
num congresso sobre imigração organizado
para 6 de Setembro. Qual será o próximo?
Há alguns dias soubemos da chacina, fuzilamento,
aniquilamento, assassinato cruel de 72 pessoas
na fronteira do México com os EUA. Não
é muito diferente do número de pessoas
esperando por punições no Irã,
por qualquer coisa que tenham dito que fizeram.
Nem podem escolher entre apedrejamento, fuzilamento,
forca, mutilação. Esqueceram das
ocupações violentas do Haiti, das
mortes nas fronteiras daqui de cima.
Vou chegando mais perto. Qual poder reveste os
traficantes e donos dos morros e favelas cariocas
a ponto de a própria polícia e autoridades
mostrarem-se sem forças, e os governantes
considerarem suas áreas como ocupações
fortificadas? Um novo cangaço?
Favelas de São Paulo têm virado
tochas, em um movimento claro de ocupação
não só imobiliária de áreas
nobres, como também de demonstração
de força, da lei do quem-manda-aqui. O
terror. São Paulo, uma das maiores metrópoles
do mundo já parou, sob a ameaça
do PCC naqueles terríveis e inesquecíveis
dias de maio. Isso foi esquecido? Todas aquelas
mortes? Ônibus tostando? Fuzilamentos à
luz do dia?
Esse clima de X versus Y, Copa do Mundo, Brasil
ame-o ou deixe-o, inclusão, inserção
digital e outras tem nos deixado a cada dia mais
individualistas, e isso não é nada
bom para quem pretende um, pelo menos, algum,
Futuro. Não podemos ligar a maquininha
do "foderaiser", em sua forma mais aportuguesada,
por menos que tenhamos relações
com alguns fatos. Lembre sempre: a próxima
vítima posso ser eu, você, nós
todos.
Ao nosso lado, uma dirigente tenta fechar jornais;
o ditador volta à vida; o general aparece
cheio de comendas, arrotando nacionalismo, enfrentando
potências, jogando povos contra povos.
Estamos com nossos dados particulares expostos
como bundas na janela, de dados fiscais a pessoais.
Andam querendo fazer leis até para dentro
de nossas casas. A propaganda, direta e a subliminar,
vem sendo inoculada nas veias, como um veneno
letal, absorvido principalmente pelos mais jovens,
que não viram, não sabem, não
sentiram. E não estão nem querendo
saber.
O caminho do perigo é conhecido. Não
precisa ter bigodinho, nem levantar o bracinho
nas multidões. Hoje a cara do fascismo
é outra, mais palatável, repaginada,
ares de modernidade. A estampa da caveira permanece,
e não só nos paninhos do estilista
metido a besta. Não são caveiras
de bandeira pirata. Hoje, os piratas voltaram
só a roubar, e nem bandeira têm.
Marli Gonçalves é
jornalista. Preocupa-se muito quando minorias
acham que estão fortes, que está
tudo dominado; quando os miseráveis acreditam
no sucesso... dos outros; quando a violência
contra o próximo é ignorada, porque
está no vizinho.