Nem um dia sequer...
quinta-feira, 02/09/10 - 16h20
Meu pai enrolava entre os dedos um cigarro
de palha caprichoso. Moviam-se ali tantos segredos daquele
fumo sempre bem cheiroso. Meu pai me oferecia um pedacinho
do fumo preto para que eu cheirasse. “Faz espirrar!”
– dizia com carinho, esperando que em seguida eu
espirrasse. E num espirro, a saudade bate. Meu coração
mais uma vez se abate e nas lembranças, triste,
me retiro. Ó pai querido, não me queres
triste. Posso senti-lo, desde que partiste, quero espirrar...
e só suspiro!..
Se o céu desabar, não
haverá como sair de baixo. Feliz de quem construiu
seu próprio refúgio dentro do coração.
É coisa espiritual, que não se compra com
dinheiro do mundo. Não é coisa física,
tipo uma construção segura, senhores. Ah,
morte, serás invocada em desespero e não
virás!
Ele lembra que dançamos três
músicas seguidas. Eu me lembro que gostava de dançar,
de valsar, de viver muitas vidas. Aos 15 anos, pode ser
diferente?
Os homens gostam de fazer a corte às
mulheres. Clarice eternizou a abordagem masculina num
texto onde ela conta do homem da fronteira, que a convidou
para um “passeíto”. Hummm... A escritora,
como sempre, espertíssima. Clarice romantizou o
evento numa crônica soberba e respondeu: “Eu,
hein?”.
Ofereço-te meu ombro, meu assombro
e minha amizade. Fica por conta dos velhos tempos e da
saudade.
Vá lá. Ainda estou nocauteada
de sonho. Mas também indignada. As coisas dão
uma volta muito longa para chegar onde desejam. Dona Vida
é cheia de nove horas, reparou? Ela se adianta,
se atrasa, chega no meio da festa e, às vezes,
sai de fininho. Ninguém pode abrir a boca. Resta
um caixão tristíssimo, flores de um perfume
ruim, uma cova na terra, a conta maior que tiveste em
vida.
É de bom tamanho, nem largo nem
fundo. É a parte que te cabe neste latifúndio.
Durante a confissão, num momento
inspirado, em que os santos nos altares pararam para ouvi-lo,
o frei disse: “Minha filha, Deus conhece o barro
de que fomos feitos”.
As coisas da Terra são sempre
muito sombrias. Devem ser mais belas e mais alegres as
do Céu. Buscai as coisas do Alto. É para
as alturas que dirijo meu olhar solene, à espera
de solenidades.
Vai, vai mesmo. Eu não quero
você mais, nunca mais. Tenha santa paciência,
ponha a mão na consciência e vê se
me deixa em paz. Aí neste samba tem uma mistura
pronominal. Que não tira a beleza da obra, no entanto.
Os sambinhas de antigamente eram todos assim, inocentes.
Você mulher, que já viveu, que já
sofreu, não minta. Um triste adeus, nos olhos seus,
a gente vê, mulher de trinta.
Roberto, por gentileza, faz uma música
para as acima dos 50?
Na vertigem da vida, quero a voragem
do que não acontece. Do sonho não realizado.
Da sorte que nunca tivemos. Do concurso que não
ganhamos. Do encontro jamais tido. Do beijo não
dado. Dá para entender? Melhor o mistério
eterno, que a revelação absoluta, escandalosa
e cruel. Essas deixam marcas e a gente tem um medo colossal
delas. Ou não?
Declaração de amor em
tempos de violência explícita: PARE COM ISSO
OU EU CHAMO A POLÍCIA.
Ah, aqui no campo, quando a usina de
cana apita!... Desperta-me o senso das andorinhas. Alisa-me
a rosa dos ventos. Acordo do sono dos séculos.
Abraça-me a força de que todos precisamos
para ir em frente.
Dou um comando cerebral e o corpo obedece.
Ele responde as minhas ordens. Não preciso mais
que isso. Ordenar que tudo funcione conforme o Criador
nos fez. Engrenagem perfeita. Mais ali na frente, naquela
curva, haverá uma rosa orvalhada. Será que
chego lá?
Tem hora em que a gente quer desabafar
com o leitor um assunto especial, e escrever umas coisas
proibidas. Sabe aquela parte - a melhor, sempre - que
fica nas entrelinhas?... Então. Aquilo que se pensa
e não se diz?
Sabe quando a visita já acabou,
nos despedimos, e paramos um pouco no portão da
rua? Aquele restinho de conversa ali não é
sempre o melhor? Melhor e mais profundo do que tudo o
que foi dito lá na sala?
Minha irmã mais velha é
sábia e repete sempre este ditado: “Você
é escravo da sua palavra e rei do seu silêncio”.
Quero ser a rainha de mim mesma, enquanto viver. A não
ser que caia em desgraça. Ninguém tá
livre, fala sério.
Ocê caiu nos braços de Morfeia
e eu,
que não sou besta nem nada,
de Morfeu.
Meu!
Eita deus dos bão!
Ele vem alisano a gente, fazeno uns cafuné,
começa lá pelos pé.
Né?
Aí, vai subino, subino
e quando a gente vê,
a gente tá durmino!...
Olho as frutas verdes e a floração
de algumas coisas imperecíveis à minha volta.
Maturação, parto, sonho. Adivinho um perigoso
fragor de astros caindo. O rumor do canavial ao vento,
o coração da Terra pulsando. O Sol se move
entre as palavras. Perdida de amor, pergunto: Deus, por
que fizestes tudo isso, assim, sem ao menos nos avisar?
Uma vez, quando a manhã se abria,
me fechei. Foi a pior coisa que fiz na minha vida. O coração
não pode se fechar. Nunca. Nem um dia sequer. Não
é verdade, meu anjo?
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