20 anos sem João Batista, mártir
da luta pela reforma agrária
sexta-feira, 05/12/08 - 17h50
Amanhã, dia 6, completam-se 20
anos do assassinato de João Carlos Batista. Ele
foi assassinado na frente de seus filhos e da esposa ao
chegar em sua residência, no centro de Belém,
capital paraense, logo após fazer seu último
discurso na Assembléia Legislativa Paraense, onde
exercia o mandato de deputado estadual constituinte.
Na tarde desse dia, há 20 anos,
Batista, mais uma vez denunciou da Assembléia Legislativa
paraense que havia sido ameaçado de morte. Denunciou
dois oficiais da PM paraense que, publicamente falaram
que ele merecia bala, durante um ato público na
cidade de Paragominas, interior do Estado. Nessa tarde
discutia-se a elaboração do Regimento Interno
da Assembléia Constituinte do Estado. Alguns colegas
deputados, Mario Chermont e Mariuadir Santos, no lugar
de tomarem as providências necessárias como
presidente e secretário, respectivamente, da Casa
Legislativa, fizeram galhofa da fala do parlamentar e
advogado ligado às lutas do povo. Algumas horas
depois ocorria o assassinato.
Batista, como era conhecido, nasceu em
Votuporanga, interior de São Paulo, e, aos 13 anos,
em 1965, transferiu-se com a família para a cidade
de Paragominas (PA). Influenciados pela propaganda do
governo militar foram para a região amazônica
em busca de terras para trabalhar. Camponeses pobres ao
chegarem no Pará encontraram muitas dificuldades.
Ali presenciaram todas as formas de violência praticada
pelos poderosos, que formavam grandes latifúndios,
contra os mais pobres que também acreditavam que
ali poderiam conquistar uma vida melhor. O que predominava
era a impunidade de latifundiários que perseguiam
as populações nativas e os colonos que chegavam
em busca de terras. A família de João Batista
permaneceu em Paragominas até 1975, quando se transferiram
para a capital, Belém. O filho mais velho tinha
21 anos, quando retomou os seus estudos.
Após concluir o supletivo ingressou
no curso de Direito. Passou a participar do movimento
estudantil. Dirigiu a primeira greve estudantil no estado,
após 68, quando os estudantes do antigo CESEP pararam,
em 1978, as atividades em luta contra as mensalidades
abusivas. Integrou a Comissão Nacional pró-UNE,
que organizou o Congresso de Reconstrução
da entidade, em Salvador (BA), em 1979.
Formado passou inicialmente a advogar
para trabalhadores urbanos. Vinculou-se a vários
sindicatos, lutando contra a pelegada e reorganizando
as lutas dessas categorias. Logo em seguida voltou-se
inteiramente para a luta componesa, orientando posseiros
e colonos nas lutas contra os latifundiários e
organizando trabalhadores rurais sem terra em ocupações
nos municípios de Paragominas, São Domingos
do Capim, Irituia, Dom Elizeu, Rondo do Pará, Viseu,
Ourém e em outras regiões do Estado. Sua
inteligência, dedidicação pessoal,
financeira e física foi totalmente destinada a
luta pela Reforma Agrária. Devido sua atuação
sofreu três atentados mortais. No primeiro, seu
pai, Nestor Antônio Batista, recebeu uma carga de
chumbo de uma cartucheira calibre 20; no segundo, ficou
três dias na UTI, entre a vida e a morte e, no terceiro,
após um intenso tiroteio, no meio de uma manifestação
com mais de 5 mil trabalhadores presentes, celebrando
o primeiro de maio de 1987, em Paragominas, ficaram vários
feridos e um pistoleiro linchado. Tentaram matar o advogado
no meio da multidão, mas o povo não recuou
e fez justiça na hora e com as próprias
mãos. Sempre os meios de comunicação
no Pará manipulavam a informação,
passando a imagem que aqueles que eram as agredidos por
balas de pistoleiros e policiais é que eram os
violentos. Depois de seu assassinato sua memória
foi colocada no ostracismo. Apenas manifestações
isoladas recordam a mémoria desse mártir
da luta do povo brasileiro.
A atuação política
de João Batista durou pouco mais de 10 anos. Nesse
curto período perdeu muitos companheiros: Mauro
Carneiro, Chico Balela, Gabriel Pimenta, Salvador Alves
dos Santos, Reginaldo Alves, José Marcião
e Ariston. Todos covardemente assassinados por pistoleiros
a mando de latifundiários.
Com o seu assassinato assumiu a Secretaria
de Segurança Pública do Estado, Mario Malato.
Delegado do DEOPS/PA, este policial comandava a perseguição
a posseiros, colonos e sem terras, atuando de forma parcial
e violenta apoiando os latifundiários e em companhia
de pistoleiros. João Batista o chamava de "cão
de guarda" de latifundiários e pistoleiros.
Após a morte de Batista foram presos dois pistoleiros,
sendo um degolado na prisão e o outro condenado
a cumprir pena de 30 anos em regime fechado. Nenhum mandante
foi citado, apesar do envolvimento e denúncias
de muitos nomes de figuras importantes no estado estarem
envolvidas. Como sempre os poderosos mantiveram-se unidos
e preservaram-se, uns defendendo os outros.
A luta pela terra tem sido regada a muito
sangue ao longo da história brasileira. É
preciso resgatar a esperança na construção
de uma sociedade, onde todos tenham assegurado as possibilidades
e oportunidades de viver com dignidade. E a terra é
a mãe da vida, assegurar a sua democratização,
a produção de alimentos e uma justa distribuição
são o caminho para uma vida melhor. Esse foi o
sonho de muitos que tombaram: João Batista, Chico
Mendes, Irmã Doroty, Canuto, Expedito, Quintino
e tantos que foram às últimas conseqüências
na defesa dos direitos do povo pobre.
Resgatar a memória de João
Carlos Batista e daqueles que defenderam justiça
social é apontar para referencias que sinalizem
a importância da luta, da organização
dos trabalhadores e da necessidade de se conquistar a
reforma agrária para a construção
de um mundo mais justo e fraterno. Esse é o caminho
para a construção do socialismo.
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