Beleza impura
terça-feira, 14/10/08 - 11h40
Uma bela cidade, arborizada, florida
e com muita gente bonita. Centro do poder político
e localizada no planalto central. Brasília daqui
dois anos completará meio século. Apesar
do pouco tempo de fundação traz comportamentos
medievais e detestáveis.
Para ser construída milhares de
trabalhadores para cá vieram. Enfrentaram todas
as dificuldades. Muitos morreram por não aceitarem
a violência e opressão dos governantes. Estes
foram completamente esquecidos. JK conseguiu o que queria.
A nova capital nasceu cheia de vigor e esperança.
Planejada por Niemayer e Lúcio
Costa para ser uma cidade humanizada, tornou-se mais fria
do que uma noite no deserto. Muitos de seus filhos, apesar
de um discurso moderno e pretensamente humanista, apenas
vêem seus umbigos.
Os operários que construíram
a cidade são os candangos. Os funcionários
públicos, comerciantes e militares os pioneiros.
Para os primeiros nada foi reservado. Nem mesmo o devido
lugar na história. Vivem com salários bem
inferiores que os segundos. Estes usufruem todas as benesses
disponíveis pelo mundo moderno.
A cidade tem a mais alta renda per capta,
a segunda maior concentração de renda –
perde apenas para o Piauí -, possui a maior diferença
entre o menor e o maior salário recebido e o maior
índice de desemprego do Brasil. A cada dia novas
áreas de seu território são ocupadas.
Os trabalhadores de baixa renda são deslocados
para a periferia da periferia. Os novos ricos da cidade,
servidores públicos, com altos salários
e funções estratégicas nos governos
distrital e federal, formam seus condomínios de
luxo. São mundos completamente antagônicos.
Brasília, cercada de cachoeiras,
com água pura, permite que dentro de seu seio,
gente com comportamento impuro, voltado apenas para alcançar
o poder, status e riquezas, brote em borbotão.
O belo pôr-do-sol da cidade é para todos,
assim como lua que debruça sempre mais encantadora.
A Terra não existe apenas para os que se sentem
melhores que os outros usufruirem as riquezas produzidas
pelo trabalho. Se assim fosse, os que trabalham deveriam
ser privilegiados, não os filhos da elite cega
e bruta, que pensa ser culta, mas é lixo puro.
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