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Pedro César Batista

pcbatis@gmail.com

 

Beleza impura

terça-feira, 14/10/08 - 11h40

Uma bela cidade, arborizada, florida e com muita gente bonita. Centro do poder político e localizada no planalto central. Brasília daqui dois anos completará meio século. Apesar do pouco tempo de fundação traz comportamentos medievais e detestáveis.

Para ser construída milhares de trabalhadores para cá vieram. Enfrentaram todas as dificuldades. Muitos morreram por não aceitarem a violência e opressão dos governantes. Estes foram completamente esquecidos. JK conseguiu o que queria. A nova capital nasceu cheia de vigor e esperança.

Planejada por Niemayer e Lúcio Costa para ser uma cidade humanizada, tornou-se mais fria do que uma noite no deserto. Muitos de seus filhos, apesar de um discurso moderno e pretensamente humanista, apenas vêem seus umbigos.

Os operários que construíram a cidade são os candangos. Os funcionários públicos, comerciantes e militares os pioneiros. Para os primeiros nada foi reservado. Nem mesmo o devido lugar na história. Vivem com salários bem inferiores que os segundos. Estes usufruem todas as benesses disponíveis pelo mundo moderno.

A cidade tem a mais alta renda per capta, a segunda maior concentração de renda – perde apenas para o Piauí -, possui a maior diferença entre o menor e o maior salário recebido e o maior índice de desemprego do Brasil. A cada dia novas áreas de seu território são ocupadas. Os trabalhadores de baixa renda são deslocados para a periferia da periferia. Os novos ricos da cidade, servidores públicos, com altos salários e funções estratégicas nos governos distrital e federal, formam seus condomínios de luxo. São mundos completamente antagônicos.

Brasília, cercada de cachoeiras, com água pura, permite que dentro de seu seio, gente com comportamento impuro, voltado apenas para alcançar o poder, status e riquezas, brote em borbotão. O belo pôr-do-sol da cidade é para todos, assim como lua que debruça sempre mais encantadora. A Terra não existe apenas para os que se sentem melhores que os outros usufruirem as riquezas produzidas pelo trabalho. Se assim fosse, os que trabalham deveriam ser privilegiados, não os filhos da elite cega e bruta, que pensa ser culta, mas é lixo puro.


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