Brasília, 50 anos: cidade shopping
center
quarta-feira, 10/03/10 - 16h05
Brasília, marco da arquitetura
moderna, capital pensada por José Bonifácio,
chega aos cinqüenta anos transpirando amor e ódio,
cheia de contradições e com fortes características
de um grande shopping center. A cidade que, segundo alguns,
será salva das catástrofes naturais, com
os escolhidos, usuários de seus encantos e belezas,
em suas alamedas floridas, arborizadas e o Lago Paranoá,
com suas belas margens servindo aos mesmos que serão
salvos, mantêm à margem os que não
podem comprar os produtos e serviços oferecidos.
Resultado do trabalho dos candangos e
da ousadia de um governante, que conseguiu no meio do
nada levantou uma cidade, tornou-se símbolo de
ostentação. A cidade planejada, depois de
50 anos de sua fundação, superou em muito
seu projeto inicial. Pensada para ser uma cidade com fortes
relações humanas, onde a vizinhança
tivesse a oportunidade de se (re) encontrar no comércio
da quadra, nos clubes das quadras, nos locais de trabalho
e lazer, em seus inúmeros parques. A solidão
dos grandes centros, nesse mundo contemporâneo,
transborda nas avenidas da capital federal.
Seis meses após sua inauguração
Sartre e Simone de Beauvoir passaram alguns dias na cidade
que nascia. Simone registrou: “Guardo a impressão
de ter visto nascer um monstro, cujo coração
e pulmão funcionam artificialmente, graças
a processos de um custo mirabolante.” Cresce a indefinição
do que seja de fato essa bela cidade, cosmopolita e interiorana,
com coronéis de todas as partes, misturando cores
e lados.
Seus moradores cada vez mais se portam
como consumidores, tendo como Deus o vil metal. Até
as bandas internacionais de pop stars descobriram a mina
para vender shows. As largas avenidas são ampliadas
e recebe complexos viários como presente de aniversário.
O criador desse novo canteiro de obras aproveitou para
cobrar propinas e terminou na cadeia. O vice-governador,
especulador imobiliário, teve que renunciar para
não acabar fazendo companhia ao principal chefe
da roubalheira.
Os habitantes da cidade shopping center
têm acesso aos bens de consumo da melhor espécie,
uma qualidade de vida que todos os humanos merecem. Essas
características possibilitam fazer esse paralelo,
quem mora em Brasília, ou seja, no Plano Piloto,
possuindo bons empregos, tem acesso à arte, a cultura,
a educação, a viagens, planejamento familiar,
crescimento intelectual e excelente qualidade de vida.
Quem não pode se sacode, não tem transporte
coletivo, não tem saúde, trabalha em subempregos
e recebe educação de péssima qualidade.
Como um shopping center Brasília
existe, muitas luzes, bons produtos, segurança,
cultura e vida. O aeroporto possui um enorme fluxo, diferenciando-se
da rodoviária central, onde milhares de trabalhadores
lembram um formigueiro entrando nos ônibus sujos,
velhos, lotados e caros. Quem tem poder econômico
usufrui de seus serviços e produtos, quem não
tem poder aquisitivo é serviçal, força
subalterna dos habitantes da capital federal. O sonho
de seu pensador virou a força do consumo e do capital,
resultando em representantes corruptos e cínicos.
Em sua nova etapa a cidade precisa servir
a todos os seus habitantes, permitir que suas alamedas,
suas casas de espetáculos e shows, sua qualidade
de vida, seu belo horizonte, suas flores, atendam e sirvam
ao conjunto da população. A cidade não
merece ser o shopping center da minoria que ostenta poder
e privilégios. A vida oferecida pela cidade tem
que ser justa, solidária e coletiva, incluindo
os filhos e filhas dos candangos que construíram
a cidade. A sede do poder brasileiro precisa ser exemplo
ético e de dignidade humana.
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