Dez Conselhos para os/as militantes
de esquerda
quinta-feira, 14/05/09 - 14h50
1. Mantenha viva a indignação.
Verifique periodicamente se você
é mesmo de esquerda. Adote o critério de
Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social
tão natural quanto a diferença entre o dia
e a noite. A esquerda encara-a como uma aberração
a ser erradicada.
Cuidado: você pode estar contaminado
pelo vírus social-democrata, cujos principais sintomas
são usar métodos de direita para obter conquistas
de esquerda e, em caso de conflito, desagradar aos pequenos
para não ficar mal com os grandes.
2. A cabeça pensa onde os pés
pisam.
Não dá para ser de esquerda
sem "sujar" os sapatos lá onde o povo
vive, luta, sofre, alegra-se e celebra suas crenças
e vitórias. Teoria sem prática é
fazer o jogo da direita.
3. Não se envergonhe de acreditar
no socialismo.
O escândalo da Inquisição
não faz os cristãos abandonarem os valores
e as propostas do Evangelho. Do mesmo modo, o fracasso
do socialismo no Leste europeu não deve induzi-lo
a descartar o socialismo do horizonte da história
humana.
O capitalismo, vigente há 200
anos, fracassou para a maioria da população
mundial. Hoje, somos 6 bilhões de habitantes. Segundo
o Banco Mundial, 2,8 bilhões sobrevivem com menos
de US$ 2 por dia. E 1,2 bilhão, com menos de US$
1 por dia. A globalização da miséria
só não é maior graças ao socialismo
chinês que, malgrado seus erros, assegura alimentação,
saúde e educação a 1,2 bilhão
de pessoas.
4. Seja crítico sem perder a autocrítica.
Muitos militantes de esquerda mudam
de lado quando começam a catar piolho em cabeça
de alfinete. Preteridos do poder, tornam-se amargos e
acusam os seus companheiros(as) de erros e vacilações.
Como diz Jesus, vêem o cisco do olho do outro, mas
não o camelo no próprio olho. Nem se engajam
para melhorar as coisas. Ficam como meros espectadores
e juízes e, aos poucos, são cooptados pelo
sistema.
Autocrítica não é
só admitir os próprios erros. É admitir
ser criticado pelos(as) companheiros(as).
5. Saiba a diferença entre militante
e "militonto".
"Militonto" é aquele
que se gaba de estar em tudo, participar de todos os eventos
e movimentos, atuar em todas as frentes. Sua linguagem
é repleta de chavões e os efeitos de sua
ação são superficiais.
O militante aprofunda seus vínculos
com o povo, estuda, reflete, medita; qualifica-se numa
determinada forma e área de atuação
ou atividade, valoriza os vínculos orgânicos
e os projetos comunitários.
6. Seja rigoroso na ética da militância.
A esquerda age por princípios.
A direita, por interesses. Um militante de esquerda pode
perder tudo - a liberdade, o emprego, a vida. Menos a
moral. Ao desmoralizar-se, desmoraliza a causa que defende
e encarna. Presta um inestimável serviço
à direita.
Há pelegos disfarçados
de militante de esquerda. É o sujeito que se engaja
visando, em primeiro lugar, sua ascensão ao poder.
Em nome de uma causa coletiva, busca primeiro seu interesse
pessoal.
O verdadeiro militante - como Jesus,
Gandhi, Che Guevara - é um servidor, disposto a
dar a própria vida para que outros tenham vida.
Não se sente humilhado por não estar no
poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde
com a função que ocupa.
7. Alimente-se na tradição
da esquerda.
É preciso oração
para cultivar a fé, carinho para nutrir o amor
do casal, "voltar às fontes" para manter
acesa a mística da militância. Conheça
a história da esquerda, leia (auto)biografias,
como o "Diário do Che na Bolívia",
e romances como "A Mãe", de Gorki, ou
"As Vinhas de Ira", de Steinbeck.
8. Prefira o risco de errar com os pobres
a ter a pretensão de acertar sem eles.
Conviver com os pobres não é
fácil. Primeiro, há a tendência de
idealizá-los. Depois, descobre-se que entre eles
há os mesmos vícios encontrados nas demais
classes sociais. Eles não são melhores nem
piores que os demais seres humanos. A diferença
é que são pobres, ou seja, pessoas privadas
injusta e involuntariamente dos bens essenciais à
vida digna. Por isso, estamos ao lado deles. Por uma questão
de justiça.
Um militante de esquerda jamais negocia
os direitos dos pobres e sabe aprender com eles.
9. Defenda sempre o oprimido, ainda que
aparentemente ele não tenha razão.
São tantos os sofrimentos dos
pobres do mundo que não se pode esperar deles atitudes
que nem sempre aparecem na vida daqueles que tiveram uma
educação refinada.
Em todos os setores da sociedade há
corruptos e bandidos. A diferença é que,
na elite, a corrupção se faz com a proteção
da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos
econômicos sofisticados, que permitem que um especulador
leve uma nação inteira à penúria.
A vida é o dom maior de Deus. A existência
da pobreza clama aos céus. Não espere jamais
ser compreendido por quem favorece a opressão dos
pobres.
10. Faça da oração
um antídoto contra a alienação.
Orar é deixar-se questionar pelo
Espírito de Deus. Muitas vezes deixamos de rezar
para não ouvir o apelo divino que exige a nossa
conversão, isto é, a mudança de rumo
na vida. Falamos como militantes e vivemos como burgueses,
acomodados ou na cômoda posição de
juízes de quem luta.
Orar é permitir que Deus subverta
a nossa existência, ensinando-nos a amar assim como
Jesus amava, libertadoramente.
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