João Batista, mártir
do PSB e da luta pela reforma agrária
segunda-feira - 20/04/09 - 08h25
“Até quando companheiros
serão mortos, assassinados, despejados? Até
quando a impunidade encobrirá os atos covardes
de uma minoria detentora do poder? Sofri todo tipo de
atentado na minha vida. Mas fui eleito honesta e legitimamente.
Sempre estive na linha de frente da oposição
e do Movimento Popular. Não será através
de um parlamentar que ocorrerão transformações
na sociedade brasileira, mas através da organização
dessa mesma sociedade”.
Dia 6 de dezembro de 1988 – Três
horas depois de revelar na Assembléia Legislativa
paraense as constantes ameaças recebidas por denunciar
a violência praticada contra os trabalhadores e
defender a reforma agrária e o socialismo, João
Carlos Batista foi assassinado, em pleno exercício
do mandato como deputado estadual constituinte pelo Partido
Socialista Brasileiro, diante de seus filhos e esposa,
no centro da capital do Estado.
*João Batista, como era conhecido,
é um mártir do PSB e da luta pela reforma
agrária. Nasceu no interior de São Paulo,
mas ainda adolescente foi viver com a sua família
no interior do Pará. Sua família era formada
por camponeses sem terra, que foram para o Norte em busca
de terras. Na cidade de Paragominas (PA), ainda jovem,
integrou-se à luta por melhores condições
de vida para o povo da região.
Com
muitas dificuldades, formou-se em Direito pela Universidade
Federal do Pará. Foi dirigente estudantil e da
época em que se formou – em 1980 –
até o final de sua vida, dedicou-se inteiramente
as causas dos trabalhadores, tanto urbanas quanto rurais,
sendo que priorizou a luta dos trabalhadores sem terra
e posseiros ameaçados de expulsão por grileiros
e latifundiários. Assumiu a coordenação
da defensoria pública do Pará e voltou ao
trabalho para apoiar a luta em defesa da reforma agrária.
Em 1986 elegeu-se deputado estadual.
Sua curta passagem na Assembléia Legislativa foi
marcada por intensas mobilizações. João
Batista era um parlamentar militante. Sua escola para
a militância política foram as lutas travadas
contra a ditadura, as injustiças que presenciou
em sua juventude e o movimento de resistência dos
estudantes. Esteve presente nas manifestações
em defesa a anistia ampla, geral e irrestrita, e pela
reconstrução do estado democrático
de direito, que começou a vingar depois de mais
de duas décadas de resistências ao regime
ditatorial. A promulgação da “Constituição
cidadã”, em 1988, reavivou as esperanças
para a construção de uma sociedade verdadeiramente
democrática e justa.
Na defesa pelos direitos a terra para
trabalhar e contra a violência no campo, João
Carlos Batista sofreu três atentados e perdeu vários
amigos assassinados.
Vinte anos depois da morte do socialista, ainda persistem
no Brasil inúmeras injustiças sociais. A
concentração fundiária, a violência
e a impunidade no campo continuam. De acordo com o seu
irmão, o jornalista investigativo Pedro César
Batista, de 1964 a 2007 foram assassinados 2.187 trabalhadores
rurais, advogados e religiosos. Desses não ocorreram
nem 20 julgamentos. Também não estão
presos nem cinco mandantes ou assassinos.
“João Batista é um
mártir porque foi às últimas consequências
na defesa da luta da terra e na luta pelo socialismo.
Ele preferiu estar ao lado do povo, organizando-o e mobilizando-o,
defendendo as bandeiras que interessam a maioria da população
e foi assassinado covardemente com a complacência
dos governantes”, avaliou Pedro Batista. “Tudo
indica que tiverem oficiais da polícia militar,
juízes, detentores de mandato tanto no executivo
quanto no legislativo envolvidos no assassinato dele.
Ele é um mártir porque simboliza a resistência
da luta do povo. O Batista foi a maior liderança
camponesa dos anos 80 no Brasil”, completou.
Na época do assassinato do socialista,
dois oficiais da Política Militar paraense falaram,
publicamente que João Batista “merecia bala”.
Ao denunciar na Assembléia Legislativa, os deputados
Mario Chermont e Mariuadir Santos – presidente e
secretário, respectivamente, da Casa Legislativa,
no lugar de tomarem as providências necessárias
, fizeram galhofa da fala do parlamentar. “Algumas
horas depois balas assassinas e impunes do latifúndio
deixaram mais um cadáver, órfãos
e dores incuráveis”, desabafou seu irmão
caçula, Pedro Batista.
De acordo com o jornalista, após
o fim da ditadura em 1985 e até hoje João
Batista foi o único deputado estadual e mesmo federal
assassinado no Brasil.
“Política é um instrumento de ação
coletiva, comunitária, na busca de um mundo melhor,
e militantes socialistas morreram e provaram isso diferentemente
de muitos que estão vivos e usam a política
como balcão de negócios”, defendeu.
A luta de João Carlos Batista,
o seu assassinato, as injustiças sociais vividas
por socialistas e pelos filhos da classe trabalhadora
na Amazônia naquele período e até
hoje estão registradas no livro “João
Batista – mártir da luta pela reforma agrária
– Violência e impunidade no Pará”.
O livro do autor Pedro César Batista
é uma homenagem ao irmão e um apanhado da
luta pela reforma agrária brasileira, com enfoque
na realidade amazônica, situado no contexto histórico
recente da luta de classes na América do Sul.
O livro também retrata o descaso
e a morosidade de setores da sociedade em relação
a mortes como de João Batista, o massacre em Eldorado
e tantos outros socialistas. Além disso, Pedro
analisa a história da concentração
fundiária no Brasil, denuncia as milícias
privadas, resgata a fundação e o funcionamento
da União Democrática Ruralista (UDR) e a
conivência dos agentes públicos que colocaram
a estrutura pública a serviço dos latifundiários.
Mostra dados sobre a propriedade rural e a produção
agrícola no país e fala da destruição
ambiental causada pelas transnacionais.
Em entrevista para o Portal PSB, o autor
explica que a violência se dá no campo e
na cidade: “No ano passado foram assassinadas quase
900 pessoas em ‘confrontos com a polícia’,
no Rio de janeiro e a grande maioria não teve nenhum
tipo de registro policial. No campo os assassinatos continuam
tanto no Norte como no Sul do Brasil”.
Pedro Batista analisa, no entanto, que
o governo mesmo sendo democrático e comprometido
com a população destina, em sua maioria,
R$ 72 bilhões para o agronegócio –
“que produz para a exportação, utiliza
trabalho escravo e destrói o meio ambiente”
- e em contrapartida para a agricultura familiar –
“que produz 70% dos alimentos que consumimos”
– o recurso é de apenas R$ 12 bilhões.
“A agricultura familiar gera mais
emprego, preserva o meio ambiente e produz mais alimentos.
E para contrapor a isso, a reforma agrária não
caminha. É preciso que o Brasil use sua força
para definir um novo limite de propriedade e critérios
de produtividade no campo, pois os que se utiliza hoje
são dos anos 60. O fazendeiro tem uma área
enorme põe umas vaquinhas e diz que a área
é produtiva, sendo que a questão do ser
ou não produtiva, não é principal.
É preciso reduzir essa pressão social”,
criticou Pedro Batista.
Um outro dado interessante, segundo o
jornalista, é que na Europa considera-se zona rural
concentrações com menos de dois mil habitantes.
Aqui no Brasil, país continental, área rural
são cidades com menos de 20 mil habitantes. “Por
exemplo, a cidade que eu nasci do interior de São
Paulo, Álvares Florence, tem cinco mil habitantes
e é toda voltada para a agricultura, mas segundo
o IBGE é uma área urbana. Então essas
contradições provocam a violência.
A concentração fundiária precisa
acabar. O governo deve investir na agricultura familiar
realizando efetivamente a reforma agrária”,
observa.
O jornalista disse, também, que
no Brasil existem dois motivos para violência no
campo: o primeiro é a não realização
da reforma agrária e o segundo, a impunidade de
assassinos e mandantes. Para Pedro, o poder judiciário
deve cumprir o seu papel e colocar nos bancos dos réus
as centenas de assassinos e mandantes que estão
impunes. “Muitos, inclusive hoje, detentores de
mandatos. Realização da reforma agrária
e fim da impunidade são os caminhos para reduzir
a violência tanto urbana quanto rural, pois aumentaria
a produção de alimento, fixaria o homem
no campo e reduziria o desemprego”.
Pedro Batista conclui dizendo que o socialismo
está intimamente ligado a busca da satisfação
das necessidades das camadas carentes, exploradas e oprimidas.
“Essa luta passa pela organização
e mobilização. João Batista, se fosse
vivo, continuaria socialista como eu continuo, porque
é o único caminho para se contrapor à
barbárie em que nós vivemos. Acredito que
o PSB cumpre um importante papel ao longo da história,
pois é um dos partidos que mais perdeu pessoas
no campo”.
João Carlos Batista *19/11/1952
+6/12/1988
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