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Pedro César Batista

pcbatis@gmail.com

 

“Não precisamos de você”

sábado, 26/12/09 - 13h50

Leopoldo caminha pela orla da praia de Maceió. A brisa vinda mar o envolve. Ele se deixa levar pelo sonho que há muito tempo alimenta sua caminhada. Cada passo deixado no tempo tem a semelhança de um tijolo colocado sobre outro. Para ele é como uma construção invisível. Sua mente divaga por aquilo que ele acredita ser uma obra que ficou para trás, continua crescendo em sua imaginação e se fortalece em seus sonhos. Acredita que um dia as mãos se unirão para juntas secarem lágrimas que encharcam o tempo de dor e tristeza. Ele sonha, ainda sonha, com a construção de uma sociedade mai justa, com pessoas mais fraternas e, fica imaginando, mais humanas. Uma sociedade humana mais humana, que redundância absurda, pensa. Sonha com a sociedade tornando-se efetivamente humana. Um vento quente envolve sua alma, mexe com seu corpo e seu espírito, acredita estar mais forte para enfrentar sua lida diária cheia de necessidades. Assim mesmo, não descuida de sua ação cotidiana defendendo aquilo que acredita. O mundo com homens e mulheres que no lugar de semear sonhos e esperanças, propagam a avareza e o desrespeito, tornando o tempo cheio de desencanto e armadilhas a cada novo dia. Tudo ao seu redor mostra-lhe o caminho para o desanimo e a desilusão. Tudo é estranho e inusitado. Mesmo não sendo nova, antigas práticas, velhas conhecidas da história da civilização, antes combatidas se tornaram contumaz para alguns que antes se diziam diferentes. Caminha, enquanto sente o cheiro do mar penetrar em suas narinas e inflar seu pulmão. Um vento suave se opõe em seu caminho. Junto com a maresia começa sentir o cheiro da noite. Neste momento vem a recordação das palavras ditas pelo seu novo chefe quando se apresentou ao novo trabalho naquela manhã. A noite desponta com uma lua crescente aparecendo a leste, visível sobre o verde brilhante das águas do mar.

Alagoas é um estado cheio de contradições. Contradições visíveis, como em todo o Brasil. Uma terra repleta de belezas e riquezas naturais. Lagoas, praias margeadas e repletas de coqueirais que se deixam balançar pela suave brisa do fim da tarde. Seu povo tem uma rica história em experiências humanistas e libertárias. Uma terra com uma cultura plural e riquíssima. Poucos lugares no território nacional possuem tantas histórias de lutas pela liberdade, apesar de seu pequeno território. Em Serra da Barriga aconteceu o exemplo de resistência mais marcante e heróico. Ali fundaram uma nação de homens e mulheres livres. Índios, brancos e negros não se sujeitaram ao sistema da escravidão. O Quilombo de Palmares formou uma nação de almas libertas, reuniu dezenas de milhares de combatentes pelo sonho de um novo tempo. Passaram-se séculos, mas os ideais que uniram essas almas ainda pairam nos sonhos de crianças, seus pais e mães. A escravidão oficial findou, conquistou-se a alforria, mesmo sem direitos e garantias, deixando a dor e o sofrimento para os homens, mulheres e crianças descendentes dos guerreiros palmarinos. Os marechais e seus herdeiros não olharam aos movimentos dos filhos de Palmares. Os republicanos derrotaram a monarquia e esse estado permaneceu na lista daqueles com os mais altos índices de mortalidade infantil, concentração de renda e miséria. O tempo passou e um novo tempo não começou nessas terras. As práticas inovadoras palmarinas não se oficializaram. Foram mantidas as tradições dos coronéis proprietários das casas-grandes e canaviais. O tempo de liberdade de Palmares não ultrapassou as margens da Serra da Barriga e o seu tempo de vida. Ecoa apenas o canto desse povo livre.

Leopoldo desce a calçada em direção a praia. Tira os sapatos em um ato de reverência para pisar no solo e sentir a mãe terra. Seus pés pousam sobre a maciez da areia branca, ainda quente pelo sol que está começando a se despedir. Não são flocos de algodão, mas a semelhança é enorme, apesar do branco amarelado e áspero. A distância até o mar é curta. Seus passos são lentos, parece flutuar como Jesus sobre as águas da Galiléia. O solo firme se torna leve e macio, diante da fluidez de seus passos. Parece uma eternidade até chegar n’água, diante da lentidão de seu caminhar sentido dentro da alma. Poucas pessoas caminham na areia essa hora. A maioria dos caminhantes faz seus trajetos no calçadão de concreto. Alguns estão sentados nas mesas dos bares que começam no asfalto e terminam na areia. Uma música alegre sai da aparelhagem eletrônica em alto volume. O som se confunde com o barulho das leves ondas que se debruçam melancolicamente sobre a areia. Há uma simbiose inexplicável entre o canto do mar e aquele que sai dos auto-falantes. Parece a mesma canção. Duas partes. Uma, mecânica. Outra, natural. Em nada disso nosso personagem se concentra. Permanece aturdido com a recepção que teve naquela manhã. As palavras ouvidas ficam-lhe remoendo na memória: “não precisamos de Você”, “não precisamos de Você”, “não precisamos de Você”.

Em sua frente o mar parece lhe chamar. Esse agora é seu destino. Segue sua caminhada. Tira a camisa e a bermuda. Fica somente com roupa de banho. Coloca tudo sobre sua surrada sandália de couro cru e pede a um casal sentado na areia sob um coqueiro para que cuide. A mulher lhe responde afirmativamente com a cabeça. Dirige-se ao mar. Entra calmamente nas águas verdes do mar em Pajuçara. A praia é rasa, permitindo-lhe continuar sua caminhada para adentrar nas águas mornas que o recepcionam como uma dama apaixonada que se entrega languidamente ao seu homem. As ondas o recepcionam com suas espumas salgadas, dão-lhe as carícias necessárias. Caminha nas águas até poder mergulhar. Por um instante fica submerso, em seguida flutua inerte, deixando-se levar. A água morna e anestesiante é como um bálsamo. Sente-se líquido como a água que o recebe. Um relaxante natural para aquela alma ferida. “Não precisamos de Você”. Seus olhos brilham, apesar de tudo, esperançosos pelos novos dias que ainda virão.

Combates, sangue derramado, enterros de companheiros, amigos e familiares, dores e tristezas ficaram no tempo. Sem medo do passado, confiante na vida e naquelas águas, assim sente-se Leopoldo. “Não precisamos de você”, faz parte daqueles que se encantaram com os templos de poder e consumo. Quem lhe falou isso não tem história, nem futuro, busca somente espaço e migalhas ao lado dos que perseguiram e massacraram Palmares. O mar lhe assegura de sua pureza e que seu tempo segue. Os que afirmam “não precisamos de você” servem ao esgoto da história, são apenas o adubo para a resistência e a determinação em sua caminhada. O mar, como uma mãe, cuidando de seu filho, embala em seu colo Leopoldo que se anima mais com suas convicções e sonhos. “Não precisamos de você” com toda certeza. Quem isso lhe falou não serve às crianças sem teto, sem família e famintas que são enganadas por quem no passado disse que as tirariam das ruas. “Não precisamos de você” com certeza não serve aos idosos abandonados sob viadutos, recolhendo restos nos lixos dos restaurantes frequentados por quem dizia buscar um mundo melhor. “Não precisamos de você”, pensa Leopoldo, que busca cargos em governos e parlamentos, que usa tribunas para fazer discursos demagógicos apenas preocupados com a vitória na próxima eleição. “Não precisamos de você” que tenta esmagar a vida e destruir o sonho da construção de relações mais justas e humanas. “Não precisamos de você” com toda certeza, pensa Leopoldo enquanto flutua nas águas verdes e quentes de Pajuçara. A lua crescente brilha observando e apontando o início de um novo tempo, a noite começará logo mais, assegurando que uma nova manhã virá no dia seguinte.

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