“Não precisamos de você”
sábado, 26/12/09 - 13h50
Leopoldo caminha pela orla da praia de
Maceió. A brisa vinda mar o envolve. Ele se deixa
levar pelo sonho que há muito tempo alimenta sua
caminhada. Cada passo deixado no tempo tem a semelhança
de um tijolo colocado sobre outro. Para ele é como
uma construção invisível. Sua mente
divaga por aquilo que ele acredita ser uma obra que ficou
para trás, continua crescendo em sua imaginação
e se fortalece em seus sonhos. Acredita que um dia as
mãos se unirão para juntas secarem lágrimas
que encharcam o tempo de dor e tristeza. Ele sonha, ainda
sonha, com a construção de uma sociedade
mai justa, com pessoas mais fraternas e, fica imaginando,
mais humanas. Uma sociedade humana mais humana, que redundância
absurda, pensa. Sonha com a sociedade tornando-se efetivamente
humana. Um vento quente envolve sua alma, mexe com seu
corpo e seu espírito, acredita estar mais forte
para enfrentar sua lida diária cheia de necessidades.
Assim mesmo, não descuida de sua ação
cotidiana defendendo aquilo que acredita. O mundo com
homens e mulheres que no lugar de semear sonhos e esperanças,
propagam a avareza e o desrespeito, tornando o tempo cheio
de desencanto e armadilhas a cada novo dia. Tudo ao seu
redor mostra-lhe o caminho para o desanimo e a desilusão.
Tudo é estranho e inusitado. Mesmo não sendo
nova, antigas práticas, velhas conhecidas da história
da civilização, antes combatidas se tornaram
contumaz para alguns que antes se diziam diferentes. Caminha,
enquanto sente o cheiro do mar penetrar em suas narinas
e inflar seu pulmão. Um vento suave se opõe
em seu caminho. Junto com a maresia começa sentir
o cheiro da noite. Neste momento vem a recordação
das palavras ditas pelo seu novo chefe quando se apresentou
ao novo trabalho naquela manhã. A noite desponta
com uma lua crescente aparecendo a leste, visível
sobre o verde brilhante das águas do mar.
Alagoas é um estado cheio de contradições.
Contradições visíveis, como em todo
o Brasil. Uma terra repleta de belezas e riquezas naturais.
Lagoas, praias margeadas e repletas de coqueirais que
se deixam balançar pela suave brisa do fim da tarde.
Seu povo tem uma rica história em experiências
humanistas e libertárias. Uma terra com uma cultura
plural e riquíssima. Poucos lugares no território
nacional possuem tantas histórias de lutas pela
liberdade, apesar de seu pequeno território. Em
Serra da Barriga aconteceu o exemplo de resistência
mais marcante e heróico. Ali fundaram uma nação
de homens e mulheres livres. Índios, brancos e
negros não se sujeitaram ao sistema da escravidão.
O Quilombo de Palmares formou uma nação
de almas libertas, reuniu dezenas de milhares de combatentes
pelo sonho de um novo tempo. Passaram-se séculos,
mas os ideais que uniram essas almas ainda pairam nos
sonhos de crianças, seus pais e mães. A
escravidão oficial findou, conquistou-se a alforria,
mesmo sem direitos e garantias, deixando a dor e o sofrimento
para os homens, mulheres e crianças descendentes
dos guerreiros palmarinos. Os marechais e seus herdeiros
não olharam aos movimentos dos filhos de Palmares.
Os republicanos derrotaram a monarquia e esse estado permaneceu
na lista daqueles com os mais altos índices de
mortalidade infantil, concentração de renda
e miséria. O tempo passou e um novo tempo não
começou nessas terras. As práticas inovadoras
palmarinas não se oficializaram. Foram mantidas
as tradições dos coronéis proprietários
das casas-grandes e canaviais. O tempo de liberdade de
Palmares não ultrapassou as margens da Serra da
Barriga e o seu tempo de vida. Ecoa apenas o canto desse
povo livre.
Leopoldo desce a calçada em direção
a praia. Tira os sapatos em um ato de reverência
para pisar no solo e sentir a mãe terra. Seus pés
pousam sobre a maciez da areia branca, ainda quente pelo
sol que está começando a se despedir. Não
são flocos de algodão, mas a semelhança
é enorme, apesar do branco amarelado e áspero.
A distância até o mar é curta. Seus
passos são lentos, parece flutuar como Jesus sobre
as águas da Galiléia. O solo firme se torna
leve e macio, diante da fluidez de seus passos. Parece
uma eternidade até chegar n’água,
diante da lentidão de seu caminhar sentido dentro
da alma. Poucas pessoas caminham na areia essa hora. A
maioria dos caminhantes faz seus trajetos no calçadão
de concreto. Alguns estão sentados nas mesas dos
bares que começam no asfalto e terminam na areia.
Uma música alegre sai da aparelhagem eletrônica
em alto volume. O som se confunde com o barulho das leves
ondas que se debruçam melancolicamente sobre a
areia. Há uma simbiose inexplicável entre
o canto do mar e aquele que sai dos auto-falantes. Parece
a mesma canção. Duas partes. Uma, mecânica.
Outra, natural. Em nada disso nosso personagem se concentra.
Permanece aturdido com a recepção que teve
naquela manhã. As palavras ouvidas ficam-lhe remoendo
na memória: “não precisamos de Você”,
“não precisamos de Você”, “não
precisamos de Você”.
Em sua frente o mar parece lhe chamar.
Esse agora é seu destino. Segue sua caminhada.
Tira a camisa e a bermuda. Fica somente com roupa de banho.
Coloca tudo sobre sua surrada sandália de couro
cru e pede a um casal sentado na areia sob um coqueiro
para que cuide. A mulher lhe responde afirmativamente
com a cabeça. Dirige-se ao mar. Entra calmamente
nas águas verdes do mar em Pajuçara. A praia
é rasa, permitindo-lhe continuar sua caminhada
para adentrar nas águas mornas que o recepcionam
como uma dama apaixonada que se entrega languidamente
ao seu homem. As ondas o recepcionam com suas espumas
salgadas, dão-lhe as carícias necessárias.
Caminha nas águas até poder mergulhar. Por
um instante fica submerso, em seguida flutua inerte, deixando-se
levar. A água morna e anestesiante é como
um bálsamo. Sente-se líquido como a água
que o recebe. Um relaxante natural para aquela alma ferida.
“Não precisamos de Você”. Seus
olhos brilham, apesar de tudo, esperançosos pelos
novos dias que ainda virão.
Combates, sangue derramado, enterros
de companheiros, amigos e familiares, dores e tristezas
ficaram no tempo. Sem medo do passado, confiante na vida
e naquelas águas, assim sente-se Leopoldo. “Não
precisamos de você”, faz parte daqueles que
se encantaram com os templos de poder e consumo. Quem
lhe falou isso não tem história, nem futuro,
busca somente espaço e migalhas ao lado dos que
perseguiram e massacraram Palmares. O mar lhe assegura
de sua pureza e que seu tempo segue. Os que afirmam “não
precisamos de você” servem ao esgoto da história,
são apenas o adubo para a resistência e a
determinação em sua caminhada. O mar, como
uma mãe, cuidando de seu filho, embala em seu colo
Leopoldo que se anima mais com suas convicções
e sonhos. “Não precisamos de você”
com toda certeza. Quem isso lhe falou não serve
às crianças sem teto, sem família
e famintas que são enganadas por quem no passado
disse que as tirariam das ruas. “Não precisamos
de você” com certeza não serve aos
idosos abandonados sob viadutos, recolhendo restos nos
lixos dos restaurantes frequentados por quem dizia buscar
um mundo melhor. “Não precisamos de você”,
pensa Leopoldo, que busca cargos em governos e parlamentos,
que usa tribunas para fazer discursos demagógicos
apenas preocupados com a vitória na próxima
eleição. “Não precisamos de
você” que tenta esmagar a vida e destruir
o sonho da construção de relações
mais justas e humanas. “Não precisamos de
você” com toda certeza, pensa Leopoldo enquanto
flutua nas águas verdes e quentes de Pajuçara.
A lua crescente brilha observando e apontando o início
de um novo tempo, a noite começará logo
mais, assegurando que uma nova manhã virá
no dia seguinte. |