quinta-feira, 02/09/10 - 17h17
Belém é uma das raras cidades brasileiras
que têm uma feira de livros. E já contamos
quase 15 anos dessa boa iniciativa. Precisamente,
vivemos esta semana a 14ª edição
da Feira Pan-Amazônica do Livro, que acontece
até o próximo domingo, no Hangar.
Segundo os organizadores, a feira paraense é
a terceira no ranking nacional, agregando a cada
ano um número maior de visitantes e consumidores.
Ideia mais remota de mercado, feiras existem desde
a Antiguidade. Nasceram da prática do escambo,
como pontos de encontro da produção
agropecuária. Espaço democrático,
onde era possível trocar o excedente por
outro bem escasso. Precedem à prática
de cunhar moedas e de taxar o comércio. Representam
a liberdade do espírito humano. Liberdade
de criar e de vender, de partilhar e aceitar o trabalho
de outrem.
A feira é a nossa lição mais
remota de superação do etnocentrimo.
É a quebra de conceitos prévios. Nela,
a mais-valia de um povo ou de uma raça queda-se
perante à construção de seus
próprios vizinhos. Materializa a noção
de interdependência. Desempenha, assim, um
excelente trabalho de humanização,
sendo um lugar onde nossas necessidades são
atendidas à medida que alguém se põe
na condição de servir. De servir e
ser servido.
Como espaço democrático, as feiras
populares recebem pessoas de todas as classes. É
onde se misturam os cheiros e os sabores, as formas
e as cores. Não há um pedaço
do mundo onde nossos sentidos sejam mais testados.
Olhar, tocar e sentir fazem toda a diferença.
Para quem compra e para quem vende. Ou somente ao
que passeia à margem das barracas, estandes
ou mesas. Há uma satisfação
de pisar a terra comum, de ver gente andando, subindo
e descendo, muitas vezes à procura certa
do desconhecido.
Não há lugar melhor para discutir
preço. Na feira, ele é sazonal e horário.
Pode subir acima do limite suportável, mas
também despencar sem mandar aviso prévio.
O que manda mesmo é a hora, a oportunidade,
a simpatia e o papo. Um sorriso pode mudar tudo.
Um relato de necessidade, da falta de uma moedinha,
e o negócio está fechado. Ali é
proibido guardar argumentos. Pode perguntar tudo
sem medo.
Agora, imagine toda essa riqueza cultural de uma
feira quando o seu produto são livros. Quando
suas mercadorias são pensamentos e sentimentos
impressos em papel legível.Quando, num só
lugar, é possível reunir milhares
de ideias, escritores e textos. É como se
o mundo inteiro montasse acampamento em nossa cidade.
Sábado fui à Feira do Livro, e foi
isto que eu vi: centenas de pessoas caminhando à
procura de informação e conhecimento.
Crianças, jovens e adultos, nivelados pelo
mesmo piso e pelo mesmo interesse no saber. Estandes
lotados de gente perguntando e respondendo, comparando
preços, barganhando descontos.
A produção é variada. Ciência,
religião, filosofia e arte se misturam, lado
a lado, nessa verdadeira democracia. Há espaços
para todos. A praticantes, curiosos ou profissionais
do assunto. Comprei uma Bíblia para minha
filha Adriane. Pesquisei com minha esposa um livro
de francês. Encomendei uma obra.
Agora já não praticamos o escambo,
pelo menos o escambo direto. Há muito, o
dinheiro tornou-se intermediário de nossas
necessidades. E os cartões bancários
surgiram para disfarçar ainda mais nossa
carência do próximo. Parece que tudo
depende da gente, do saldo suficiente, da senha
exigida correta. Se “o sistema” falhar,
podemos ficar sem graça e de mãos
vazias. E não tem mais conversa que resolva.
É a feira moderna.
Na verdade, as feiras são exposições
de trabalho. E com o livro não é diferente.
Para chegar novinho e cheiroso às mãos
do leitor, venceu várias etapas. Precisou
ser gerado, gestado e trazido à luz. Primeiro,
nasce na alma de quem o escreve. Depois, nas mãos
de quem o edita. Viaja no transporte de quem o distribui.
E é vendido por alguém que geralmente
adora o que faz. Por fim, viverá em mentes
e mãos desconhecidas. Isso não pode
ser chamado de compra. No mínimo, é
uma adoção.
Com o advento da internet, alguns apregoaram o
fim do livro. Mas o augúrio falhou. O computador
mostrou o livro e a cara de quem o escreve. As vendas
tornaram-se domésticas e a pesquisa de preço
varia a cada tecla. Vende quem oferece mais, em
melhores condições e preço.
Mas nada substitui a feira, o calor humano, o
folhear as páginas de um livro. A Feira Pan-Amazônica
é uma grande oportunidade de viver essa instituição
do espírito humano. O espaço das ideias.
De provar que continuamos interdependentes.
Hoje, dia 2, voltarei ao estande dos Escritores
Paraenses, para prestigiar o lançamento do
livro Antologia Cidade, Volume 5, organizado pelo
mestre Abílio Pacheco. Ainda há autógrafos
de Chico Barão, Brenda Pena, Maria do Carmo
de Souza, Cláudio Cardoso e Rosela Souza.
Vale a pena Ver-o-livro!