Idioma Guarani
segunda-feira, 21/12/09 - 18h18
O inglês é o idioma que se adota convencionalmente
e instrumentaliza a possibilidade de comunicação
entre povos distintos em qualquer rincão do
mundo. Sua hegemonia também se expressa na
informática, cuja linguagem é majoritariamente
inglesa. O chinês e o japonês são
dois idiomas em ascensão. Noutros tempos, o
alemão e o francês eram a primeira escolha
no Brasil depois da obrigatoriedade do português.
Hoje o espanhol ganha espaço. Nenhum destes
idiomas, porém, é genuinamente americano.
A língua é um instrumento de expressão,
poder e resistência. Através dela e sobretudo
nos países da América Latina, chegaram-nos
ameaças, idéias, religiões, valores
e a busca insaciável de comércio. Héctor
Lacognata, um parlamentar paraguaio, propôs
que o guarani se convertesse numa das línguas
oficiais e de trabalho do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL),
cujo projeto de integração a maioria
dos cidadãos pertencentes ao bloco ainda não
sabe o que é nem para que serve.
O ponto de partida de meu argumento é que
o guarani é falado por pouco mais de dez milhões
de pessoas de regiões do Paraguai, Argentina,
Bolívia e Brasil. O guarani e o espanhol são
as duas línguas oficiais do Paraguai, enquanto
a primeira o é desde 1992. O guarani é
falado por mais de 90% dos paraguaios, 27% deles só
falam este idioma, e é oficial também
na província argentina de Corrientes. Em algumas
regiões paraguaias, o guarani é mais
relevante que o espanhol.
Além de rebater as críticas que se
fazem às assimetrias do MERCOSUL ou à
pequenez do Paraguai diante da gigantez econômica
do Brasil, a oficialização do guarani
no bloco atenderia a parte das reivindicações
indígenas da dívida histórica
que se tem com estes povos. O guarani é um
idioma de origem ameríndia e considerado o
primeiro da categoria a conquistar a posição
de oficial na América. Em caso de não
ter este reconhecimento, é maior o risco de
extinção de um idioma.
Por ser uma língua de existência prévia
à vinda de Colombo à América
e em respeito às raízes indígenas
como uma das vertentes de nossa formação,
reconheceu-se finalmente o guarani como um dos idiomas
oficiais do MERCOSUL. Este avanço teve lugar
na 37ª cúpula de presidentes do bloco
em Assunção, Paraguai, nos dias 23 e
24 de julho de 2009. Vitória não só
dos indígenas da região, mas também
daqueles que lutam pela preservação
das nossas identidades.
É preferível aprender um idioma nosso,
que fosse autenticamente latino-americano, a intercambiar
expressões e idéias com roupagem alheia.
A União Européia contém dezenas
de idiomas oficiais até de regiões cuja
população não passa de um milhão
de habitantes. Por que aqui não se dá
a atenção devida ao guarani, já
que os outros idiomas nativos foram caducando? A América
Latina tem a oportunidade de dar exemplos ao mundo.
Esta atenção concedida ao idioma guarani
não significa um incentivo ao abandono gradual
do português e do espanhol nos países
do MERCOSUL senão uma maneira de dar voz a
uma de nossas raízes, que é a indígena,
e valorizar o que é daqui sem qualquer sentimento
de atraso e culpa. Os países ditos “desenvolvidos”,
ao contrário do que lega a história,
terão que aprender o guarani e respeitar o
espaço cultural latino-americano.