A reforma agrária
segunda-feira, 01/02/10 - 14h48
Reforma agrária é uma
dessas questões que se reservam aos super-heróis
das políticas públicas.
Ainda que dentro do desejável,
possível e necessário para uma sociedade
mais justa, as propostas de divisão de terras no
Brasil incidem em interesses conflitantes: de um lado,
os insatisfeitos com o pouco de que dispõem; de
outro, os cães que rosnam com o osso na boca.
A concentração de propriedade
é abusiva neste país, portanto é
necessário implantar um novo modelo de apropriação
agrícola e resgatar os erros do passado.
É verdade que não basta
ter acesso à terra. Uma dificuldade que surge posteriormente
à aquisição de propriedade rural
é a de falta de treinamento dos novos proprietários
e infra-estrutura para aproveitamento agrícola,
como capital, irrigação, semente e vias
de transporte. Toma-se em conta que a maior parte do terreno
no país não é usada em cultivo ou
outra atividade de fins econômicos.
Desde esta linha argumentativa, muitos
sustentam que o problema seria então o de excesso
de terras ociosas e a falta de investimento em produtividade
com técnicas modernas na agricultura, planejamento
do plantio e da colheita.
A população tupinica, segundo
vozes reprovadoras da reforma agrária e longe de
corresponder à minha, é majoritariamente
urbana e, por isso, não faz sentido repartir terras
rurais, que estão muito bem nas mãos de
poucos.
Oras, como o Brasil poderá investir
em tecnologia na produtividade agrícola se ainda
não superou a etapa de repartição
das terras? O país está atrasado em reforma
agrária. Do ponto de vista de grandes proprietários
rurais, é natural que se demonizem movimentos sociais
e protestos que objetivam a distribuição
de terras, porém falta uma consciência coletiva.
O uso da palavra “invasão”
em vez de “ocupação” contribui
para a tendência dessas pesquisas inúteis
que reiteram a visão de latifundiários.
A “imagem do MST”, que foi solicitada pela
Confederação da Agricultura e Pecuária
do Brasil (CNA) indica que a maioria dos tupinicas reprova
a ocupação de propriedades. Quem é
que daria uma resposta favorável a que um estranho
entrasse em sua casa sem pedir licença?
Desvia-se, todavia, o foco da luta pela
justiça social ao desrespeito de direitos de propriedade
privada.
A defesa da reforma agrária esbarra
na torcida agressiva do outro time. O caminho da repartição
de terras no Brasil é fundamental para promover
a redução de desigualdades. Concordo com
que não basta dar terras se não houver uma
continuidade da inserção no sistema produtivo
das famílias beneficiadas com a reforma. Enquanto
não se supera uma etapa, no entanto, não
é possível impulsionar a outra.
O Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (INCRA) elabora avaliações
e políticas de acesso à terra, fiscalização
de imóveis rurais para averiguar se cumprem a função
social, combate à grilagem (que significa a posse
indevida de terras mediante expulsão de seus proprietários
e apresentação de documentos falsos), e
repasse de recursos a entidades de apoio à reforma
agrária. A instituição fiscaliza
de 6 a 7 milhões de hectares por ano.
O INCRA dispõe de R$4,6 bilhões
de orçamento para 2010. O recurso destinado à
reforma agrária é cada vez maior.
Este tema exige uma postura radical dos
governantes e ativistas sob o risco de sucumbir às
mentiras e travas lançadas pelos opositores. Uma
delas é a de desmerecer movimentos sociais que
lutam pelos oprimidos ou a de advogar que, em vez de repartir,
a tecnologia na agricultura de latifúndios por
si só geraria retorno benéfico à
sociedade.
As discussões e divulgações
sobre a reforma agrária têm sido monopolizadas
pelos que se opõem a ela. Falta a representatividade
de opiniões divergentes.
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