A UNILA e vizinhos desconhecidos
segunda-feira, 25/01/10 - 11h23
No dia 12 de janeiro, Luiz Inácio
Lula da Silva sancionou o projeto de lei de sua própria
autoria em prol da construção da Universidade
Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).
A cerimônia ocorreu no Centro Cultural Banco do
Brasil em Brasília, Distrito Federal.
O presidente assinou o documento em dezembro
de 2007, mas este só foi aprovado dois anos depois
pelo Congresso Nacional.
A universidade funcionará provisoriamente
em espaço cedido pela usina hidrelétrica
de Itaipu em Foz do Iguaçu, cuja cidade fica no
estado do Paraná e faz fronteira com Argentina
e Paraguai. Zona turística e emblemática
do encontro entre países vizinhos. Embora as instalações
iniciais sejam temporárias, a Itaipu Binacional
doou uma área de quase 40 hectares para a construção
da universidade.
A concretização da idéia
caminha muito mais rápido que o tempo que levou
sua aprovação, uma vez que a previsão
de início de turmas é para o segundo semestre
de 2010. A previsão é de incorporar dez
mil estudantes em cinco anos cuja formação
se enquadre dentro de um projeto de integração
latino-americana.
Algumas das ofertas de cursos de graduação
serão: Sociedade, Estado e Política na América
Latina; Relações Internacionais e Integração
Regional; Comunicação, Poder e Mídias
Digitais; Tecnologia e Engenharia das Energias Renováveis;
Gestão Integrada de Recursos Hídricos; Interculturalidade
e Integração. Estas propostas interdisciplinares
respondem a um contexto de integração e,
pela seleção dos temas, é improvável
que sejam alvos da modalidade de ensino a distância,
que inibe a proximidade e o debate numa sala de aula.
A criação desta instituição
de ensino superior é produto de um fôlego
secular. O murmúrio da integração
não se pode ouvir até que alguém
levante o tom da voz.
O cenário é curioso: um
livro importado da península Ibérica pode
custar mais barato que um similar de país vizinho;
há dezenas de canais de televisão por cabo
de conteúdo estadunidense nos pacotes ofertados
no Brasil, alguns sem dublagem ou legenda, porém
nenhum da Argentina, Paraguai ou Venezuela. A proposta
de Lula justifica que, nalguns setores do desenvolvimento,
a integração aproxima os povos da América
Latina.
A UNILA é uma novidade na categoria
porque, apesar do financiamento federal brasileiro e da
localização do prédio no lado de
cá, as aulas serão em espanhol e português,
50% dos professores serão brasileiros e a outra
metade provirá dos países da região,
250 professores serão efetivos e outros 250, visitantes.
O reconhecimento das diferenças
expande a nossa capacidade de auto-conhecimento e consciência
de lugar no mundo. Algum dia a ficha dos nossos governantes
teria que cair. Uma ficha que não tivesse inscrito
cents, dollars ou euros. Destas já estamos fartos.
O presidente brasileiro atingiu, ao
longo das duas gestões, um recorde nacional com
a criação de treze universidades federais,
o que ultrapassa a cifra anterior alcançada por
Juscelino Kubitschek de dez instituições.
A educação tem sido tema de destaque nas
discussões nacionais.
Lula ainda propôs, para esquentar
o tema da integração, um parlamento comum
e uma moeda única entre os países da região
do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). O cenário de
crise econômica mundial, desvalorização
do dólar e intervenção impudente
dos Estados Unidos na América Latina (acordo de
uso de bases militares na Colômbia, apoio tácito
ao golpe militar em Honduras e envio de tropas militares
abundantes em vez de médicos ao Haiti) favorecem
estas propostas.
As conquistas no âmbito da educação
e da integração são visíveis,
embora o Brasil derrube lágrimas do outro olho
quando limpa a que caiu do primeiro. Uma conquista costuma
encobrir uma mazela na proporção de um para
um. O mérito maior do episódio é
o de aliar avanços na expansão de universidades
públicas a projetos de integração
regional. Somos vizinhos que mal nos conhecemos.
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