A Amazônia amarga
a sua decepção
quarta-feira, 25/06/08 - 13h45
Amazônia melhore o seu semblante,
não guarde tanto ressentimento, eu estou me esforçando
para entender os seus queixumes. Não seja tão
dura e tão drástica. O homem é um
Estadista de verdade, completo, já suplantou alguns
dos presidentes que o antecederam, não vou relacioná-los,
pois você sabe de quais presidentes eu estou falando,
ele não carrega mácula, mas leva em sua
companhia para cima e para baixo, a certeza que os eleitores
dele acreditam em tudo o que ele fala. É por este
motivo que ele nunca sabe de nada; e está sempre
prometendo alguma coisa para os que o elegeram. O companheiro
sabe o que faz, não é à toa que ele
sobe e permanece no palanque com a companheira, articulando
com maestria para que ela sente na cadeira dele na virada
do mandato. Como assim Amazônia? Eu não entendi!
Ah! Isto é bobagem! A atuação de
um excelentíssimo jamais deverá ser medida
calcada em detalhes! Um dedo a mais um dedo a menos, com
diploma ou sem diploma, não faz a menor diferença.
Todos os corruptos que foram demitidos do governo contavam
os dez dedos das mãos; e muitos dos que se deixaram
arraigar pela mania de política e que estão
dentro ou fora do elenco governamental possuem todas as
unhas das mãos e diplomas de diversas especialidades,
mas mesmo assim nunca ocuparam e jamais ocuparão
o cargo mais importante da nação. Eles se
vangloriam de suas mãos perfeitas, porém,
goza de maior influência e competência quem
domina a perseverança — e na arte de persistir
o camarada sempre foi autoridade formou-se sem precisar
de diploma — mais de vinte anos perseguindo a presidência!
Ah, não Amazônia, sinceramente eu não
posso lhe repassar essa informação, para
mim era indiferente se ele trabalhava ou se prestava serviço
para alguém. Não! Nunca conheci um especialista
que fosse esclarecido sobre este assunto. Ah, sim, isto
sim! Durante os anos em que ele se manteve firme ocupando
o cargo de candidato de chefe da nação,
sempre se apresentou bem alimentado e elegantemente vestido
e provavelmente com um bom salário no bolso. Mas
vamos deixar este tema de lado, não interessa.
Calma, fique tranqüila. Amazônia por que você
faz questão de falar para uma civilização
que não é a sua? Não precisa se preocupar,
eu traduzo os seus palpites, assim como estou fazendo.
Ah, não serve! Você está insatisfeita!
Faz questão de falar! Tudo bem! Fala então!
— Eu estou decepcionada porque
presenciei pela televisão o momento em que o grande
estadista disse para o mundo que o meu dono é o
povo. E pelo o que eu conheço tudo o que pertenceu
ao povo já não pertence mais. O petróleo
era do povo, agora é da Petrobras. A titularidade
foi perdida, arrancada das mãos do povo sem explicação
e sem pagamento. Ele só foi declarado dono do petróleo
na época em que a Petrobras se viu ameaçada
de se tornar 100% estrangeira. O país inteiro ficou
repleto de outdoor que apelavam “O PETRÓLEO
É DO POVO”. E hoje ele é da Petrobras
e de investidores milionários do mundo inteiro!
O minério era do povo, agora ele é da bem
sucedida vale. O antigo dono não recebeu nada pela
transferência de propriedade. O ouro da serra que
não tinha cabelo era do povo, agora ninguém
se arrisca dizer por onde ele anda. A praça era
do povo, atualmente ela é dos pervertidos, dos
travestis e dos mendigos. Gostaria que você me defendesse.
Mas eu já fiz a sua defesa com
a valentia que eu me permiti em uma das minhas crônicas
“Amazônia! Bela dona! Sem dono para cantar
de galo!” aqui mesmo neste espaço. Lamentavelmente
o Companheiro não entendeu por inteira —
a essência — da mensagem que eu mandei para
ele, quando eu disse “Aparentemente a Amazônia
não tem dono, e é por ela não ter
dono que o resto do mundo se acha seu dono. É inadmissível
que todos os países se achem no direito de falar
com convicção que a Amazônia é
da humanidade, é um bem público global.
O cacete que é! A Amazônia tem dono! Infelizmente
o dono está temporariamente com a vista embaçada,
ele não consegue ver que a maior fonte de renda
que o país possui, é a Amazônia!”
— Sim! É verdade, eu vi
a sua defesa! E uma semana depois do que você escreveu.
O estadista bradou com bravura “A AMAZÔNIA
TEM DONO, ELA É DO POVO!” ah! Como eu fiquei
triste quando ele disse que eu sou propriedade do povo!
Eu não quero pertencer a um dono que não
defende os seus pertences! Como é que eu sou do
povo se na casa dos que são considerados povo,
eu não me faço presente! São casebres
povoados de gente que senta no chão, dorme no chão,
guarda as roupas em caixas de papelão e comem com
os pratos de plásticos — comprados por R$
1,99 (UM REAL E NOVENTA E NOVE CENTAVOS) — sobre
as pernas para não colocá-los no chão!
Eles nunca tiveram e certamente jamais terão dinheiro
para comprarem ao menos uma cama de madeira, para dormirem
como dormem as pessoas decentes! Pelo amor de Deus! Como
é que um proprietário deste perfil vai me
defender? Ele está-se lixando, se estão
cortando ou queimando madeira! Não interessa! Eles
vivem preocupados procurando um meio de arranjar comida!
A minha preocupação tem elementos para que
possa ser levada em consideração?
A sua inquietação tem
mais motivação do que você possa imaginar,
ela é fundamentada nos aperreios que você
passa quando sente na própria pele que estão
lhe desmatando e queimando sem que ninguém a proteja
de verdade. E as grandes potências financeiras lhe
enxergam desprotegida, isto eu mostrei na mesma crônica
citada quando disse “(...) Exatamente a Amazônia
que todos os olhos estão voltados para ela e todos
os dedos apontam na direção do dono acusando-o
de não saber administrá-la, por permitir
a destruição da mata por meio da extração
ilegal da madeira. E estes mesmos dedos que apontam acusando,
apontam mostrando números, e eles mostraram que
o maior desmatamento da história da bela Amazônia
deu-se (...)”. E esta acusação chega
a ser uma coisa escandalosa que até mesmo o vice-presidente
dos EUA reagiu como se tivesse reagido ao que foi dito
com clareza e determinação, no trecho acima
citado da crônica. Ele proferiu “A Amazônia
é do mundo, não pode ser só do Brasil”.
Depois que esta besteira foi falada, o presidente foi
ríspido e disse para todos os que viessem a ouvi-lo,
que você minha amiga, tem dono sim!
— Mas o dono que ele me deu eu
não quero! Sinceramente eu estou torcendo para
que ele fale novamente com rispidez que o meu dono é
a União! Eu preciso veementemente contar com a
certeza de que as forças armadas me defenderão
de tudo e de todos! Existe alguma parcela de chance para
que a declaração prestada antes possa ser
refeita?
Eu também concordo com você
que ele deveria ter nomeado a União o seu proprietário
exclusivo, mas eu acho difícil que ele volte a
falar para emendar o que enunciou. Ele não emendará
porque a ação da recusa dele deixará
implícito um sentimento que talvez você não
conheça lá no meio da sua floresta. O poder
que ele controla nas mãos, na caneta e na voz faz
com que ele arrogue para si o direito de determinar para
você, o dono que ele achar apropriado sem que seja
contrariado na decisão tomada por ele.
— Você por acaso está
falando de arrogância? Mas este comportamento eu
presencio quase todos os dias na minha mata! As minhas
árvores centenárias altíssimas, frondosas
de tronco grosso. Elas não abrem luz para as outras
árvores que se desenvolveram ao redor delas, pois
acreditam que são fortes poderosas e inalcançáveis.
No entanto no dia em que os homens malignos munidos de
motosserras as cortam praticamente rente com o solo, desaba
junto com elas a soberbia de décadas e descobrem
que o poder que imaginavam usufruir, era ilusório.
E vêem a insignificância delas perante as
que lhes pareciam fracas. Estamos falando da mesma matéria
que discutíamos?
Sim! É exatamente sobre isso
que eu me esmerei em lhe esclarecer!
— Tudo bem! Eu tenho convivido
com muitas árvores insolentes! Mas eu me recuso
a servir de ludíbrio de mandatários, não
deixarei que eles me joguem para um lado e para outro.
O que eu preciso é de um oxoce que faça
o seu papel de macho e mate a fome dos que estão
me comendo!
Quem está lhe comendo? Confesso
que eu não entendi!
— As minhas vísceras —
as árvores que já se foram e as que ainda
estão de pé — são tombadas,
arrastadas, cortadas em toras, em tábuas e depois
serradas nas bitolas das importadoras. Tudo é feito
com a maior das crueldades e com o intuito de matar fome
em uma cadeia crescente! O primeiro que derruba tem fome
constante, ele nunca armazena nada para o mês seguinte,
vende a produção dele por uma miséria
para o atravessador que vende para o madeireiro por uma
ninharia para que ele possa matar a fome dele, dos seus
funcionários e dos fiscais do IBAMA. Da serraria
em diante a madeira passa a matar a fome dos dois maiores
culpados da minha devastação: o banco oficial
do meu país, que libera financiamento de carta
de crédito dos importadores para os madeireiros
— se não fossem financiados eles não
conseguiriam me derrubar — que precisam ganhar muito
por causa das propinas para liberação dos
empréstimos. Em segundo lugar estão os países
importadores — os cínicos que mais reclamam
do meu desmatamento — são eles que fomentam
o desflorestamento.
Você é uma bela dona corajosa!
Escancarou para o mundo o que fazem com os seus intestinos
e de que forma os culpados se alimentam deles! Parabéns
grande guerreira!
— O que estamos fazendo é
condenável? Será que tem a mesma gravidade
de uma determinada revolta que eu já presenciei
por várias vezes?
Depende! Com que tipo de rebelião
você está comparando a sua recusa em aceitar
o proprietário que lhe apontaram?
— As bestas do cangalheiro quando
empacam escoiceiam-no esquecidas que ele é o que
manda. O legítimo representante do dono! Sempre
achei que os coices aplicados pelos animais de cargas,
simbolizavam adequadamente o ápice da ingratidão!
A minha reivindicação está com cara
de mal-agradecida diante do representante maior da União,
o meu dono?
Esqueça os seus receios, não
estamos fazendo nada reprovável. E o homem que
na política merece o título de doutor honoris
causa, não nos condenará, pois é
versado principalmente nos interesses dele e do país!
O que acabamos de fazer foi: eu concluí e você
participou de um apólogo! Nada mais!
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