A Borboleta Preta do Machado de Assis
terça-feira, 02/12/08 - 13h12
A excelência de um livro apresenta-se
da mesma forma como foi escrito: aos poucos.
Vejamos um pouco de MEMÓRIAS
PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS.
CAP. XXXI — A BORBOLETA PRETA
No dia seguinte, como eu estivesse a
preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta,
tão negra como a outra, e muito maior do que ela.
Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo
a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que
tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar.
A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno
de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na
vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu
dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai.
Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez
posta, começou a mover as asas, tinha certo ar
escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, sai
do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a
ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos,
lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
Não caiu morta; ainda torcia
o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me;
tomei-a na palma da mão e fui depô-la no
peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro
de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.
— Também por que diabo não
era ela azul? Disse comigo.
E esta reflexão, — uma das
mais profundas que se tem feito, desde a invenção
das borboletas, — me consolou do malefício,
e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar
o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei
que ela sairá do mato, almoçada e feliz.
A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e
negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta
cúpula de um céu azul, que é sempre
azul, para todas as asas.
assa pela minha Janela entra e dá
comigo. Suponho que nunca teria visto um ho¬mem; não
sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas
voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que
tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma
estatura colossal. Então disse consigo: "Este
é provavelmente o inventor das borboletas."
A idéia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que
é também sugestivo, insi¬nuou-lhe que
o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo
na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim,
foi pou¬sar na vidraça, viu dali o retrato
de meu pai, e não é impossível que
descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai
do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.
Pois um golpe de toalha rematou a aventura.
Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria
das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma
toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como
é bom ser superior às borboletas! Porque,
é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor
de laranja, não teria mais segura a vida; não
era impossível que eu a atravessasse com um alfinete,
para recreio dos olhos. Não era. Esta última
idéia restituiu-me a consolação;
uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o
cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham
já as próvidas formigas.... Não,
volto à primeira idéia; creio que para ela
era melhor ter nascido azul.
A Essência do texto acaricia a
alma do leitor que admira a arte da escrita, a beleza
do entendimento e a grandeza do autor
Muito já foi dito a respeito
da obra do Machado de Assis; e todos os que se propuseram
a dizer alguma coisa precisaram — uns por brilhantismo
e outros por vaidade — recorrer lá no fundo
dos seus conhecimentos. Escarafunchando as mais difíceis
das expressões e a quase intermináveis pesquisas
através do tempo na ânsia de declarar para
o mundo quais os autores preferidos e escolhidos como
modelos pelo romancista que escreveu com a alma, o que
ele pôde tirar dela sem dilacerá-la.
E logo ele que carregava dentro dele
a humildade em forma de descrença quando disse
com a voz do Brás Cubas “(...) o que não
admira se este livro não tiver dez leitores. Dez?
Talvez cinco.” A preocupação que o
gênio vivenciava não era o sucesso e sim
o número de capítulos que ele precisava
entregar para a revista no dia certo que ela seria mandada
para as oficinas. E por causa desta necessidade imediata
de cada exemplar da “Revista Brasileira” ele
desdobrou-se brilhantemente no papel do morto enterrado
e já comido pelos vermes, mas não um cadavérico
qualquer! Esmerou-se para apresentar um cadáver
carcomido, cheio de consideração com o devorador
de defunto — habitante alojado arbitrariamente dentro
da sua última morada — que o corroeu antes
que outro esfomeado o fizesse em sua frente.
Diante de uma genialidade incontestável
fica fácil afirmar a beleza singela de A BORBOLETA
PRETA! Sim! É disto que eu vou falar e não
da obra como um todo! Não vou pesar e muito menos
considerar o que já se fartaram de alardearem no
círculo literário e fora dele: o pessimismo
machadiano não se curva diante de nenhuma justificativa
racional.
É mais importante mostrar a magnitude
do texto escrito de forma esplendorosa — mesmo com
prazo para terminar — criando a expectativa e o
interesse nos leitores que não eram dele, mas que
de repente poderiam transformar-se em seus. Com a mesma
importância dos que no presente já o leram,
conseqüentemente os que ainda não e os que
voltarão a ler porque na primeira leitura não
entenderam! Ele teve a dedicação extravagante
na forma de escrever, transformando cada um dos seus capítulos
em praticamente uma história completa era como
se ele visualizasse a necessidade de deixar o leitor farto,
satisfeito com o que lera e sem o sentimento da exigência
de ler o próximo número da revista para
poder entender! Não isso não! Ele não
queria o leitor atrelado ao seu texto com a percepção
da obrigação de continuar lendo por falta
de compreensão do que já havia lido. Esta
visão dele foi mostrada o tempo todo e no capítulo
V ele fez questão de apontar o dedo para o detalhe:
conta como se deu a doença e o dia que ele morreu
sexta-feira, um dia de mau agouro. E fez questão
de reafirmar o que ele apontava revelou as primeiras informações
de quem conservara até ali no anonimato: disse
que a anônima tinha 54 anos e que no passado foram
apaixonados. De propósito encerrou com uma frase
inadequada para o final que vinha contando: “vejo-a
assomar à porta da alcova...” E propositalmente
iniciou o capítulo VI, agora sim! Com a frase adequada
para iniciar o que contaria com a aparência de uma
nova história, porém, não passava
da continuação da velha história
bem contada: “vejo-a assomar à porta da alcova
(...).” E deu de bandeja o desvelamento do segredo
mantido em um compartimento do esquecimento do defunto
e do leitor “O que por agora importa saber é
que Virgília — chamava-se Virgília
— entrou na alcova (...).”
A morte da BORBOLETA PRETA foi utilizada
como afirmação da crueldade do herói
machadiano impregnado da fedentina do sepulcro, Brás
Cubas. Mas para Machado o significado não foi este!
Ele quis mostrar com sutileza — embora não
padecesse de segregacionismo — a existência
do racismo na cabeça dos brancos que se achavam
superiores donos de ar divino e de estatura colossal.
Ele só matou a BORBOLETA PRETA, ela “era
negra como a noite” porque não era azul e
com a zombaria dos mestres não feridos o personagem
deixa exposto no bojo do ato criminoso comparações
visíveis como na vida real. O assassino cruel sentiu
por alguns momentos remorso por seus instintos perversos
acompanhados pelo repelão dos seus nervos. E levado
pela comichão dos dedos e pelo preconceito diante
da cor da BORBOLETA, ele perdeu o controle e despachou
o cadáver para a grama do jardim utilizando um
desrespeitoso piparote. Logo em seguida a inquietação
pelo crime cometido foi apagada da intenção
do racista; e ele preferiu assumir a sua idéia
de antes: “creio que para ela era melhor ter nascido
azul”. No final desta página Machado de Assis,
brilhantemente dá por encerrada a sua claríssima
intenção de protesto com uma frase que não
foi dita, mas ficou implícita. O final da BORBOLETA
PRETA originariamente deveria ter atravessado o tempo
escrita assim: creio que para ela era melhor ter nascido
azul, pois qualquer coisa relacionada com preto me repugna!
O Machado que não cortava, mas
escrevia com brilhantismo brincou com a compreensibilidade
das elites escravocratas oitocentistas, no passado lá
atrás quando escreveu no capítulo XXXII
“desço, ainda que algum leitor circunspecto
me detenha para perguntar se o capítulo passado
é apenas uma sensaboria ou se chega à empulhação...”.
Ele se referiu a BORBOLETA PRETA foi como se tivesse dito:
eles não perceberão o meu desgosto embutido,
no máximo enxergarão tapeação!
E aproveitou para devolver a eles “a gente frívola
não achará nele o seu romance usual”
o piparote aplicado na BORBOLETA PRETA “se te não
agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.
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