Haiti escancara o lado
obscuro do ser que não quer ser
sexta-feira, 15/01/10 – 10h49
Procurar sobreviventes debaixo dos escombros
eles procuram. Mas enterrar ou dar aos cadáveres
abandonados pelas ruas, um fim digno, que é bom,
isto eles não fazem. Que espécie de gente
é essa? Pode-se dizer que eles são bons,
porque ficam revirando os destroços dos prédios
praticamente com as unhas, na tentativa de salvar mais
uma vida. Que bondade é esta que tenta salvar alguém
que pode estar morto, mas passa indiferente ao lado de
um corpo já em estado avançado de putrefação
estendido em plena praça pública, ao lado
de outras pessoas sentadas, conversando e comendo em grupos
agindo como se estivessem em jardins exalando o perfume
das rosas.
Que governante é esse que se deixa
entrevistar no meio da miséria humana dos seus
conterrâneos? Desfia uma lista infindável
de lamúrias em nome do seu povo que ele afirma
e reafirma que está sofrendo tanto quanto ele,
pois teve a infelicidade de perder o seu palácio
presidencial, e por este motivo tornou-se um desamparado
que está dormindo no chão.
Apoiado pela força da imagem que
inevitavelmente seria mostrada para o mundo, o Presidente
do Haiti aproveitou as câmeras e os microfones que
apontariam e ecoariam a miséria do seu país
destroçado sem a menor piedade, para quem quisesse
ver e ouvir. E ele com o peito cheio de ar e o rosto recoberto
de choradeira pediu tudo o que tinha e o que não
tinha direito. E recebeu milhares de toneladas de ajudas
humanitárias, infinitamente superior ao que ele
esperava, e milhões e milhões de dólares,
quantia nunca antes sonhada por ele. E que ele pelo jeito
está pensando que é tudo dele. Nada, nem
um pouquinho de comida foi distribuído para o povo,
ele se quiser comer que revire o lixo e pratique o saque
entre as casas e os poucos comércios que sobraram
de pé.
A bondade ruim do povo merece o governante
que tem. O Haiti pode não ser bem reconstruído,
mas o peso das suas ruínas deixará os ocupantes
da cúpula, milionários. Não pretendo
futurar, a índole dos que moram do lado de lá
aponta o que eles são no presente e o que serão
no futuro.
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