São Luis do Maranhão
faceira de outrora
sexta-feira, 26/02/10 - 13h40
Folguedos que povoam a lembrança
de um adolescente que se viu crescendo feliz, ao mesmo
tempo em que vivenciava a evolução lenta
da sua querida cidade de São Luis, que em um ponto
congelado pela saudade na memória do garoto, evoluía
com a mesma capacidade que demonstrava que podia permanecer
esmorecida na preguiça e no progresso estagnado,
sem que ninguém reclamasse dela ou dos seus políticos.
Muito menos eu, me atrevi a reclamar, pois eu adolescia
e nada via que me fizesse lamentar!
A cidade certamente em um determinado
ponto da existência dela começou a crescer,
mas eu não assisti. No entanto as alegrias em que
ela gentilmente se fez palco, para que eu vivenciasse
cada momento de felicidade de um dos períodos mais
importantes da minha vida, isto eu nunca deixei que caísse
no esquecimento.
Duas situações distintas
me puxaram suavemente para o prazer da leitura e da escrita,
foi primeiramente minha mãe através dos
seus conselhos sábios, pacientes e objetivos. E
em segundo lugar as horas a fio, que em companhia dos
meus amigos eu me quedei sentado no meio-fio da calçada
da praça admirando os acadêmicos que entravam
ou saíam da Academia Maranhense de Letras. Foi
lá, em frente olhando para o prédio majestoso
(na época me pareceu imenso do tamanho da quadra
que ele ocupava), que eu prometi que seria escritor. O
nome da praça eu esqueci, mas a academia e a promessa
que eu me fiz, jamais saíram da minha mente. Aparentemente
tudo é tão recente, mas já se passaram
mais de quarenta anos. Retornei a São Luis por
diversas vezes, mas me recusei a substituir as doces lembranças
de outrora, pelo novo feitio da academia que conheci,
ainda que provavelmente seja mais bonita e mais moderna,
preferi continuar como antes: sem conhecê-la por
dentro e acreditando que a conheço por fora.
Os meus amigos de uma reminiscência
longínqua José Alberto, Bahia, Cutrim, Joaquim
eu e nossas respectivas namoradas estudávamos no
Colégio São Luis, distante uma quadra da
Praça Gonçalves Dias, o nosso santuário
de namoro de todos os dias, onde raramente não
nos sentávamos aos pés do monumento do incomparável
poeta Maranhense que permanecia mudo de voz, mas nos inspirava
da forma correta nos momentos dos galanteios adocicados
para que pudéssemos colher nos lábios das
namoradas os beijos pueris quase inocentes.
Mantínhamos um acordo entre nós,
que em determinados dias da semana engabelávamos
o pequenino diretor do colégio com as mais desvairadas
desculpas ou por meio de subterfúgios inacreditáveis:
corrompíamos o porteiro, pulávamos o muro,
nos infiltrávamos no meio de outras turmas que
eram dispensadas por motivos variados ou brigávamos
entre nós para sermos mandados para casa mais cedo.
Fora do Colégio a cidade era nossa.
O ponto de encontro, o de sempre, o meio-fio da quadra
em frente da Academia. Tudo o que carecíamos estava
ao nosso alcance nas proximidades dos arredores da Academia,
não precisávamos ir longe, e éramos
conhecidos no setor, o que facilitava e priorizava os
nossos divertimentos. Lá recolhíamos abiu
que caíam dos frondosos abieiros, e os comíamos
para nos distrairmos enquanto discutíamos o que
faríamos naquela tarde.
As opções de diversões
se abriam feito um leque. Poderíamos alugar bicicletas
para passearmos com nossas garotas sentadas nos quadros,
enquanto nos deliciávamos com o perfume e as caricias
dos cabelos delas que o vento esvoaçava sobre os
nossos rostos. Driblar o trocador do bonde, também
era divertido, principalmente se nossas pequenas se esbaldavam
em gargalhadas diante das nossas fugas perigosas em que
descíamos e subíamos do bonde fugindo para
não pagar passagem. Divertíamo-nos a valer
quando alugávamos o carro de um taxista que ficou
nosso amigo, ele nos ensinava a dirigir em um conjunto
habitacional praticamente desocupado, recém-concluído
no bairro do João Paulo.
E do outro lado da rua, de frente para
a mesma praça, ao lado do colégio Santa
Rosa, em uma das duas casas em que os alunos costumavam
merendar, nos enfurnávamos no interior da residência,
longe dos olhares indiscretos e desfrutávamos o
privilégio de escondidos podermos fumar e beber
cerveja acompanhada de tira-gosto, como se fôssemos
gente grande.
Esta era aquela São Luis do Maranhão,
que nas épocas dos carnavais proliferavam nas bancas
dos camelôs os fatídicos lança-perfumes
que eram vendidos livremente sem que representassem ameaças
para crianças ou adultos.
O tempo passou, e o cloreto de etila
perfumado mantido sob pressão (lança-perfume)
foi proibido, e a cidade de São Luis do Maranhão
ficou livre dos políticos retrógados, progrediu
e permanece progredindo linda e maravilhosa! A diversão
dos que passeiam pela adolescência já não
é a mesma, e tudo nela é idêntico
ao rio que passa debaixo da ponte: ele continua lá,
mas não permanece o mesmo. São Luis, tão
somente consegue manter o encanto de se fixar na mente
dos seus filhos, estejam onde estiverem, e eles por sua
vez, não conseguem esquecê-la um instante
sequer!
|