A Democracia molda sem
o calor do forno
quarta-feira, 19/03/08– 17h30
Em um dia qualquer, não lembro
exatamente de que dia estou falando. Sei com precisão,
que eu praticava a minha caminhada matinal, não,
não se tratava de um exercício praticado
por livre e espontânea vontade. Fui praticá-lo
depois de trinta minutos de briga com o sono e a cama,
os dois insistentemente me puxavam para que eu não
saísse do quarto. Quase me arrisco a dizer que
não dei tapa nos dois, porque tinha certeza que
me encontraria com eles novamente no final do dia; e eu
não queria que o próximo encontro sofresse
nenhuma perturbação: brigar com eles na
hora de levantar era ótimo, excelente, mas em má
hora, nem pensar! Coloquei os pés para caminhar
na marra, deixei que eles ouvissem a minha consciência
que os repreendia aos berros “Necessariamente vocês
precisam criar resistência nas solas, flexibilidade
em suas articulações para carregarem esse
gordo para cima e para baixo, se não fizerem esse
esforço, ele morrerá e os arrastará
com ele para a tumba!” Para os meus pés,
a repreensão foi um santo remédio, o passeio
fluiu que foi uma beleza. Quando passei em frente de certa
universidade observei que milhares de pessoas aguardavam
o horário determinado para entrarem e prestarem
exame para um concurso público. Enxerguei um pouco
afastada da multidão, uma folha de papel que planava
ao léu. Ela estava limpa e escrita com letras garrafais
que diziam:
Um ensaio “Eu reconheço
a culpa por minha própria culpa!”
O que presenciamos hoje no solo deste
país maravilhoso é a constatação
de uma democracia que se fosse comparada com a força,
ela seria a força das forças; com o poder:
seria o poder dos poderes. Nada se iguala aos toques de
magias que ela executa nas vidas de homens e mulheres,
com pouca cultura, sem especialização em
coisa alguma e formados em nada. Ah, antes que caia no
esquecimento: eles e elas se tornaram especialistas em
campanhas políticas. Tão afinados com o
mentir, discursar, prometer o imponderável, que
acabaram se elegendo. Tomaram posse na prefeitura, no
governo, na câmara, no senado e até na presidência.
Aqueles e aquelas, que antes não tinham emprego
por falta de competência, se transformaram depois
de eleitos e empossados em cargos incompatíveis
com a inteligência de cada um deles ou delas, protegidos
debaixo das asas da democracia, se revelaram aptos para
executarem qualquer função que lhes fossem
obsequiadas por prerrogativas e que caíssem em
seus colos via pára-quedas. É uma coisa
de louco: aqueles que não sabiam nada, de repente
ficaram sabendo de tudo. Alguns entre eles, que jamais
escreveram um bilhete para elogiar ou criticar, apareceram
como relator ou secretário. Outros que nunca entenderam
a leitura da conta de luz da casa deles foram guinados
ao ministério que cuida da energia, artifício
para fazerem com que os suplentes assumissem sem as devidas
autorizações do povo, as cadeiras deixadas
vazias. E algumas entre elas, que nunca distinguiram de
perto ao menos um bosque bem afeiçoado ganham forças
na pasta do meio ambiente, não importa se são
frágeis parecidas com varas verdes, que em um passado
recente só tenham mandado nos limites de suas casas,
passam a mandar na maior floresta do mundo! Que contra-senso!
Só mesmo a força das forças, o poder
dos poderes executa tamanho milagre. Ela pode e provoca
esperança e mudanças radicais. Transformou
em Presidente da República, um torneiro mecânico
que esperou por mais de vinte anos. Ah, mas esta transformação
valeu! Ele fez o que dezenas de presidentes antes dele
jamais fizeram. Pagou para o FMI bilhões de dólares
por uma dívida pública que parecia nunca
ter fim. Matou a fome de milhões de pessoas que
antes padeciam de inanição. Aprendeu a decorar
discurso, lidar com política exterior, comercial,
de rendas, econômica, fiscal e monetária.
Os olhos do mundo olharam para ele e viram um estadista.
E ele virou sem querer virar, a voz que fala mais alto
sobre bilhões de reais disponíveis para
investir aqui, ali e acolá. Democracia, coração
de mãe que ninguém ausculta; e é
por isso que ela protege os bons e os maus. Porém,
nada de nefasto paira sobre o presidente incomparável,
quer dizer, existe uma coisa ruim: ele não poderá
candidatar-se para o terceiro mandato. Caramba! Mas fazer
o quê? É a lei! Ele bem que poderia cumprir
mais uns dois mandatos ou até mesmo ser chamado
de Rei dos Esquecidos! Claro que poderia! Fomos nós
que votamos nele! E se levarmos em consideração,
que o Falcão foi chamado de Rei de Roma sem ter
feito um por cento do que o nosso Presidente fez! Então
a sugestão deixa de ser esdrúxula, ainda
que pareça. Um Rei — em um país feito
de mistura de raças — com o nome de um molusco
cefalópode, corpo alongado, provido de dez tentáculos
com ventosas, um dos quais é mais curto e entroncado.
Causaria um impacto inimaginável no resto do mundo
e um convencimento imaginável para os pernambucanos
porque transformaria Pernambuco em berço da nobreza.
Ah, democracia! Tu me pareces faca com
dois gumes! É assim que vejo a minha pretensão
de ser um homem honesto e crítico. Por favor, pretensiosa
intenção deixa-me de lado, esquece-me! Não
sabes que faço parte dos olvidados! Como é
que é democracia! Tu me perguntas se eu não
tenho medo de perder o meu emprego? Não! Eu não
tenho nem um pouco de temor! Eu sou um sujeito intocável,
ninguém mexe comigo! Ah, não sabias! Então
ficas sabendo: participo da estrondosa estatística
dos milhões de desempregados! Sim, eu já
trabalhei antes. Desisti do cargo para o qual fui nomeado,
porque me recusei fazer parte de falcatruas. Amigos! Não,
eu não tenho amigos, eles sumiram coincidentemente
na mesma época em que perdi o meu trabalho. Não
tive a sorte e não concordo com o que o Vinícius
de Moraes disse “Tenho amigos que não sabem
o quanto são meus amigos. Não percebem o
amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho
deles.” Vinícius certamente nunca enfrentou
dificuldades financeiras. Se amigos fossem coisas que
prestassem, eles perduravam na riqueza e na pobreza; na
saúde e na doença. Amigos e esposas interesseiras
se alimentam do mesmo manjar: situação financeira.
E no meu caso, a percepção deles foi tão
aguçada, que perceberam antes de mim, que eu estava
quebrado. Aí está democracia, não
tenho esposa e nem amigos. Não, não é
nada disso, minha bendita e louvável democracia,
pelo contrário, tens ajudado milhares de pessoas
que voltaram a trabalhar, a comer, a conseguir novos amigos
e novas esposas; a comprarem suas casas, seus terrenos,
a reformarem seus lares; aposentados e funcionários
públicos puderam adquirir empréstimos! A
tua força é incalculável, o efeito
dela não me alcançou, mas eu não
perco a esperança. Amanhã mesmo prestarei
mais um concurso e vou acreditando que ele seja tão
sério quanto o homem simples que transformaste
em Estadista. Admiro tua maleabilidade democrática,
mas não consigo te chamar de amiga! |