Ilusão do nada: a nota da Fome é
DEZ, ela jamais chegou a Zero
terça-feira, 17/10/06 – 12h41
Cinco corações batem dentro
de um barraco tétrico, fedorento, medindo três
metros por três metros, os tapumes feitos de tábuas
velhas, plásticos fedidos, tudo recolhido no lixão.
Para os pais e os três filhos os moradores do barraco,
a residência deles não tem cheiro e nem catinga,
é totalmente inodora, o que o barraco tem muito,
é gente passando fome e a mesma quantidade de estômagos
vazios. Só o casal levantou-se do chão de
terra batida; onde dormiam cobertos por um lençol
velho de retalho sem cores definidas, estava preto de
sujo; a agonia dos dois era rotina e sem que soubessem
pensavam a mesma coisa, já é meia-noite,
precisamos nos apressar, hoje, como ontem, não
temos nada para comer; não tivemos sorte e nem
força para lutarmos no meio da multidão
nos momentos das disputas quando os caminhões dos
supermercados chegaram no lixão e jogaram fora
os restos de comida vencida, não sobraram para
nós, só para os de muita sorte. Sorte! Como
pode alguém de sorte catando comida no lixão?
Claro que pode! A miséria em que vivemos consegue
ver o fator sorte para aqueles que levam comida para casa.
Eu e minha mulher, mais do que ninguém! Sabemos
que é preciso sorte e muita força para lutar
por um pedaço de qualquer coisa estragada. Mas
hoje nós vamos conseguir o que comer, no meio daquelas
sobras vencidas jogadas no lixão. Estamos indo
com mais força e mais esperança, só
não podemos levar conosco... este choro... dos
nossos olhos... e dos nossos corações. O
barraco miserável e a família mais ainda,
se multiplicam aos milhares nas proximidades do lixão.
Estas famílias não conseguem
trabalho de espécie alguma. Não conseguem
produzir sequer um real por dia, elas foram banidas da
sociedade, condenadas a viverem em companhia dos urubus
e desprovidas dos cuidados higiênicos; do receio
de contrair uma doença ao comer comida estragada.
Estas coisas para eles são bobagens, costumam dizer
“Higiene e doença, isto é luxo de
gente rica que tem trabalho, e comida para comer! Nós
do lixão lutamos para ficar vivo, a morte é
descanso, quem tem medo de descansar?” e quando
dizem, reveste-se de uma convicção tamanha,
que parece falta de amor pela vida, mas não é
isto, muito pelo contrário, eles estão afirmando:
que para ficar vivo, estão dispostos a morrer.
A fome dos que estão no lixão
é dez, e ela só é dez, porque eles estão
agüentando-a, no limite deles mesmos, não dá
para agüentar a fome um pouquinho mais, quando ela chega
na nota máxima, eles então, comem qualquer coisa:
estragada ou por estragar. Fome zero é mercadoria de exportação,
coisa feita para inglês ver. Fome zero é fonte de
elogios internacionais para os que lidam com o dinheiro dos famintos
— se alguém em sã consciência preferir
chamá-lo dinheiro público, então chame-o
—, eu estou me referindo ao dinheiro desviado das ações
sociais, das corrupções que assolam o país,
das falcatruas financeiras que recheiam cuecas de deputados. O
resultado disto tudo, é que o dinheiro não chega
às classes pobres miseráveis. Os valores irrisórios
distribuídos para as famílias do programa Fome Zero
é piada de humor negro, a platéia tem que se segurar,
não dá para sorrir, com muito esforço dá
para chorar. Cada família recebe por dia a insignificância
de Dois Reais e Trinta Centavos, aproximadamente. E para receber,
precisa ser, além de miserável, dona de muita sorte,
é o equivalente a ganhar na loteria. Como pode um montão
de família de miseráveis que se encontram agrupados
morando no mesmo buraco de infortúnio, uma família
recebe e os quatro, cinco vizinhos não recebem! Por quê?
Não deu sorte? Não mereceu? O instrumento que mede
a fome apontou acima de Zero! Não é para menos!
O dinheiro distribuído não alimenta uma família,
só se fizer milagre. Não, não, não,
não o lixão nem sempre é a solução,
um dos grandes supermercados da cidade, quando manda toneladas
de alimentos vencidos para o lixão, o proprietário
manda batizar com creolina. O avarento não aceita a idéia,
a possibilidade de que alguém possa comer ou usufruir lucros
sobre uma mercadoria que ele não teve tempo de vender e
colocar os lucros no bolso. Ele não quer saber se os miseráveis
do lixão fazem banquete com alimento vencido, ele só
come do bom e do melhor, não conhece fome, precisa fazer
regime porque come demais, vende caro demais, é ruim demais,
é burro demais, não descobriu o prazer e a satisfação
em promover a felicidade do próximo. Um homem que derrama
creolina em toneladas e mais toneladas de pescada, filhote, frango,
peru, pernil, charque, lingüiça, mortadela, queijo,
iogurte, biscoitos etc, etc. Para impedir que sejam consumidos
pelos famintos! Este homem é mais miserável do que
os miseráveis do lixão, que esperam dia e noite
a comida vencida, para disputá-la no supetão. Com
este refinamento de maldade, este homem deve ser daqueles que
até os comerciais da empresa dele, ele faz sem gritos,
não faz uso do alarde para nada nem mesmo para a caridade.
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