Não era o que
parecia ser
quarta-feira, 18/10/06 – 12h38
O defeito da Mula estava na cara. O
do jornal estava na primeira página. Conta-se que
certo caboclo tinhoso, vendeu uma mula de grande porte
— musculosa; pêlo macio, brilhoso, escovado;
ferradura nova; os dentes não lhe faltavam um;
as clinas, rigorosamente aparadas e escovadas —,
por preço astronômico. Ele garantiu ao comprador
lisura no negócio e recomendou-lhe que examinasse
a mula à vontade, pois o defeito estava na cara.
O defeito não foi detectado, a mula era cega. O
defeito do jornal também não, ele ostentava
com muita arte e cor, um slogan “Você lê.
Você acredita” é um senhor jornal,
competente e de qualidade invejável, mas o slogan,
era fraco, não transmitia o que o jornal queria
dizer com o seu vozeirão. Apelava para a crença,
se o leitor não estivesse ungido da fé do
carvoeiro “(...) você acredita” era
aconselhável que ele não lesse o jornal
ou então o leitor deveria de ser obtuso, sem vontade,
sem raciocínio, de fácil indução
“Você lê. Você acredita”,
sem chance de contestação ou uma análise
mais profunda, para separar o que é aceitável
e o que não é.
Também! Pudera! Não sobrou
consenso, sequer um pequeno espaço para as considerações
das circunstâncias, nem mesmo para ligeira conclusão
do que estava certo e o que estava errado. Desde quando,
jornal publica a verdade?
Thomas Jefferson, disse em 1807 “É
uma triste verdade que a supressão da imprensa
não poderia privar mais completamente a nação
de seus benefícios do que se se prostituíssem
os jornais, entregando-se à publicação
de mentiras. Não se pode agora acreditar no que
se vê num jornal. A própria verdade torna-se
suspeita se é colocada nesse veículo poluído.
A verdadeira extensão deste estado de falsas informações
é somente conhecida daqueles que estão em
posição de confrontar os fatos que conhecem
com as mentiras do dia. Encaro realmente com comiseração
o grande grupo de meus concidadãos que, lendo jornais,
vive e morre na crença de que souberam algo do
que se passou no mundo em seu tempo, ao passo que os relatos
que leram nos jornais são uma história tão
verdadeira quanto a de qualquer outro período do
mundo, só que os nomes de figuras da atualidade
a elas são apostos.” e ele disse mais “Acrescentarei
que o homem que não lê jornais está
mais bem informado que aquele que os lê, porquanto
o que nada sabe está mais próximo da verdade
que aquele cujo espírito está repleto de
falsidades e erros. Quem nada lê, mesmo assim tomará
conhecimento dos grandes fatos, e os detalhes são
todos falsos”.
Vale a pena lembrar que os portugueses daqui — leitores
assíduos do jornal e desprovidos de fé —,
não são como os portugueses de lá,
se fossem, não precisaria consertar o defeito da
primeira página. O escritor José Saramago,
disse “A maioria dos meus patrícios portugueses
são analfabetos, não sabem escrever um bilhete,
pois não!” os portugueses odiaram o escritor,
e o governo odiou o escritor mais que o povo. O governo
teve razão para tanto ódio, pesou nas costas
dele a culpa do analfabetismo. Bom! Já que estamos
no terreno das lembranças, não custa nada
lembrar que por estas bandas daqui, o paraense sabe ler
e escrever — também são leitores assíduos
do jornal e cheios de fé —, sabem como ninguém
colocar para fora a fé que eles têm dentro
do peito. Escancaram-na para o mundo. Exercem o direito
de ter fé de forma explícita para não
gerar dúvida. Dois milhões de paraenses
acompanham uma procissão como quem vai na bica
encher o pote d’água. É compreensível!
A causadora de tamanha fé foi encontrada em um
igarapé! Se os leitores do jornal com defeito na
primeira página eram estes portadores de tanta
fé, não precisava apagar o slogan, eles
acreditam em tudo, no que lêem e no que ouvem. Por
mais absurdo que sejam os escritos e as histórias.
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