O desaplauso da Amazônia
segunda-feira, 01/09/08 - 16h45
Você voltou Amazônia?
— Voltei. Você me ouve e me deixa
lisonjeada com suas atenções demoradas. É
por isto que eu falo, falo, falo tanto que quase não consigo
parar. Mas por favor, não pense em reprimir essa falação.
Fale tudo que vier na sua copa! Você é
uma Amazônia adulta que carrega consigo a verossimilhança
de que o seu genetlíaco ocorreu há muito mais de
500 anos. E eu estou achando que desta vez você vai falar
das suas satisfações, pois o grande Estadista o
homem da caneta de ouro, sinalizou que compreendeu suas decepções.
Ele é o CARA! Imediatamente tomou medidas compensatórias
para ressarcir o povo pelo petróleo perdido para a Petrobras.
Ele procurou fazer o que ainda tem chance de executar com a caneta
dourada. E ele estava quase de mãos dadas com esta Amazônia
insatisfeita quando revelou a intenção a respeito
do petróleo do pré-sal. E nas entrelinhas ele deixou
perceber que parte da renda do pré-sal deve ser utilizada
para distribuição humanitária e justa para
o povo. E o projeto está caminhando para acontecer, já
existe comissão do pré-sal, já houve conversas
com governadores. E até alguns colunistas afirmaram categoricamente
que o Estadista se espelhou no ex-presidente Getúlio Vargas.
Não foi! Aquele nunca se preocupou em dividir nada com
o povo! Este deixou implícito que pretende realizar um
ato nobre e generoso. Foi através das suas palavras de
insatisfação Amazônia que o Estadista deparou-se
com a iluminada idéia do pré-sal e está se
cercando de decisões acertadas para não roubarem
novamente o petróleo do povo.
— Ah, sim eu percebi isto! Fiquei felicíssima
com as declarações do nosso Estadista! Assisti de
perto, não perdi uma das belíssimas e convincentes
palavras dele!
Ah! Ótimo! Então o que está
lhe incomodando? Você recebeu o recado que ele mandou para
você? Colocou uma campanha publicitária em todos
os canais de televisão informando que as forças
armadas do país estão sempre de prontidão
e que elas em conjunto praticam exercício mensalmente para
se manterem em forma com o intuito de defendê-la contra
tudo e contra todos!
— Sim! Eu recebi o recado e tenho certeza
que o resto do mundo também recebeu! Atualmente eu me sinto
com as raízes mais fincadas! Sou a Amazônia mais
feliz do mundo!
Então não precisamos continuar.
Paramos aqui. Você não tem nada para reclamar!
— Eu estou desapontada com o ministro do
meio ambiente ou eu deveria chamá-lo de: o xerife bobo
da República! Eu acredito que o Estadista delegou para
o valentão nomeado. Três missões. A primeira
foi fazê-lo sorrir bastante. Provocar-lhe frouxos de riso.
E esta ele cumpriu. Nunca antes na história desse país
um Presidente da República gargalhou tanto no dia da posse
do seu ministro por ele ter falado montanhas de besteiras antes
de assumir. A segunda incumbência recebida era uma tarefa
de certa complexidade. Liberações ambientais de
questões que estavam atravancando o PAC, a retomada da
construção de usinas nucleares, o plantio de transgênicos
e desapropriações inconvenientes nas quais os desapropriadores
— as empresas estatais — deixam de pagar as indenizações
devidas para os antigos moradores: pessoas paupérrimas
e desprotegidas que passarão a residir em favelas de pequenos
povoados dos interiores. Eles serão vistos como relegados
porque se negavam em concordar que tomassem suas propriedades
para construírem novas usinas hidrelétricas. Aliás,
este é um procedimento que eu condeno neste governo, quase
não dá para acreditar como o grande Estadista fica
de braços cruzados, vendo empresas que se beneficiaram
das terras dos pobres coitados e continuam se beneficiando ganhando
milhões de dólares. Ao mesmo tempo em que negam
ressarcimentos irrisórios para famílias inteiras
que se tornaram indigentes — no Maranhão e no Pará
— por causa de homens inescrupulosos que se acham acima
do bem e do mal. As licenças para que o PAC avançasse
foram concedidas com a maior das competências! Excelente
ministro! Com que tipo de argila ele foi moldado? O Oleiro que
o moldou é dos bons?
Não são do meu conhecimento as
respostas para as suas perguntas englobando a argila e o Oleiro.
E até agora os feitos do ministro não o desabonam,
tudo o que ele fez estava cumprindo ordem. E as coisas condenáveis
e detestáveis ficaram apenas subentendidas!
— O terceiro encargo que o ministro recebeu.
Ele não o levará a efeito simplesmente porque não
conhece o que é floresta! Uma dessas televisões
colocou no ar entrevista do homem da força em rede nacional.
Apareceu a imagem de um descampado tendo como seqüência
uma área imensa de capoeira grossa. O local onde filmaram
a reportagem deixou de ser floresta há pelo menos uns quinze
anos. Aquilo não é a parte da Amazônia que
deve ser defendida! Lutar por áreas que se apresentam ocupadas
por juquiras brabas é o mesmo que chorar por leite derramado
na areia! No entanto o ministro falou para o país inteiro,
com emoção forçada, quase chorando “Um
homem que faz uma coisa dessas com a floresta, merece morrer trabalhando
no campo com uma bola de ferro amarrada no pé, prisioneiro
para o resto da vida! Ele causou um prejuízo muito grande
para a Amazônia e para o planeta!” Alguém precisa
levar o ministro na Amazônia verdadeira, lá onde
eu estou, para que ele possa aprender o que é floresta
e que parte dela deve ser defendida! Eu fiquei com vergonha pelo
vexame que o entrevistado passou e decidi que ele não merece
o meu aplauso! O cargo de ministro obriga aprender que não
se devem associar os fenômenos que afetam a Amazônia,
como se eles também afetassem o planeta! Isto representa
um sentimento de baixa auto-estima. E os outros países
ficam acreditando que eu sou deles tanto quanto do Brasil! É
difícil detectar entre os estrangeiros e o ministro atacado
de xerofilia quem entre eles está errado! Quantas babaquices
se falam por aí em nome da minha defesa! Foram estas pequeninas
coisas que deslustraram o brilho da confiança que eu depositei
no grande xerófilo quando ele assumiu! Desculpe meu escritor
favorito, mas percebo em sua face uma expressão pouco definida!
Decepção é isto? Desaprovação?
Eu estou exagerando?
Digamos que seja um pouco de cada uma das coisas
que você viu! Sua vontade de aplaudir é arbitrária,
ouça a impulsividade que lhe fala de dentro para fora!
E você está certa! O homem é mesmo xerofílico,
ele destruiu 79 fornos de produzir carvão e arrasou a esperança
e sustentação de aproximadamente 320 caboclos analfabetos,
humildes e miseráveis que só sabem carvoejar. As
condições de vida dos desgraçados, que trabalham
no meio do nada onde não se planta nadica de nada, porque
a região é esquecida pelo governo que deveria investir
nela para existir emprego e produção de alimentos.
Não interessa quando quem vai persegui-los, chega de caminhonete
zerada, um excelente salário no final do mês, hospedagem
em hotel cinco estrelas, acompanhado de policiais armados e tratores
monstruosos, preparados para enfrentar corajosamente ou seria
covardemente! Homens magrelos, mortos de fome e revestidos do
medo e da fuligem do carvão! É muito fácil
exercer a função de ministro executando atos covardes
e injustos para aparentar que é atuante! Demolir fornos
que estarão construídos uma semana depois! Proibir
cortar árvores que serão cortadas na semana vindoura!
Aplicar multa de duzentos mil reais que nunca serão pagos!
Convidar a imprensa para presenciar a fiscalização
de lugares ermos aonde jamais o ministro retornará! Ameaçar
cadeia para fazendeiro que continuará solto! Este tipo
de procedimento está relacionado com a cultura do povo
brasileiro que trás entranhado na educação
dele, a desvalorização do que possui e a necessidade
de provar para os outros povos o que faz e o que deixa de fazer!
E esta bravata aconteceu no meio da caatinga, local deserto em
uma carvoaria no Piauí! No momento em que os magricelos
trabalhavam parecendo bichos fuliginosos ávidos de ganharem
por meio do suor de suas fadigas, a expectativa de estarem vivos
subempregados e alimentando a família deles no próximo
dia que eles pediram a Deus! Mas tudo o que eles viram, não
queriam ver: equipamentos agrícolas que não estavam
a serviço da agricultura; e uma figura magricela vestida
com roupas limpas exalando um extrato barato e deixando bem claro
que ele era o chefão e que não estava a serviço
de Deus! Com cara de leso e o peito cheio de arrogância,
ele ordenou a demolição para satisfação
dele, do cameraman e do repórter.
— Agora eu senti medo! Porventura estou
me lastimando com a pessoa errada! Nunca imaginei que você
apoiasse o desmatamento da caatinga, para transformá-la
em carvão! Eu sou definitivamente contra, não importa
se quem desmata precisa do carvão para alimentar os familiares
e ele próprio!
Não Amazônia, você não
entendeu corretamente os meus pareceres! Eu reafirmo categoricamente
que sou contra derrubadas que não são planejadas
e as que não forem suprir necessidades alimentícias
dos seus derrubadores. E condeno as que causam impactos ambientais!
Mas não devemos esquecer nem por um breve momento, que
a natureza está aí para ser utilizada inteligentemente
pelo homem! E os que se acharem mais homens, mais donos da terra,
mais ricos dos que os pobres que utilizam os recursos naturais.
E até mesmo com o direito de conservar o que não
é deles, proibir o que não deveria ser proibido,
então eles devem pagar para prover a subsistência
necessária dos que retiram o sustento da mãe natureza.
Eu desaprovo a utilização da força, da estrutura
do estado e as ações desprovidas de justiça
e honestidade para com o homem simples! Tirar de um nordestino
simplório a oportunidade de trabalhar com o único
serviço que ele sabe fazer! É uma maldade que não
tem tamanho! E se esse governo necessita manter as aparências
de um país cuidadoso ou até mesmo se ele pretende
engabelar a opinião internacional, quem terá que
pagar o preço é o governo que aparece exercendo
autoridade! E não o homem do campo possuidor de uma única
habilidade da qual ele tira o seu provimento! Sim claro! Somos
forçados admitir que os que carvoejam também são
agricultores, mas a expensas de quem eles vão agricultar,
se o sistema que os perseguem não lhes oferece uma única
chance! E se o solo em que ele habita é árido e
só produz árvores de pequeno porte da família
das rubiáceas que fornecem madeira apropriada para lenha
e carvão! Quem entre os ambientalistas de plantão
tem a franqueza de desfeitear os que carvoejavam afirmando que
eles deveriam morrer de fome, para que as insignificantes árvores
fossem preservadas! No caso destes 320 carvoeiros e de tantos
quantos aparecerem mais, o governo precisaria assumir a responsabilidade
para uma solução definitiva. O exibicionismo e o
fanfarronismo mostrado para o mundo foi só um paliativo!
Diante da monstruosidade explícita, o monstro que exibiu
robustez além da medida deveria revestir-se de conscientização
humanitarista; e imediatamente iniciaria o pagamento de um salário
mínimo, para cada um destes trabalhadores que ficou impedido
de trabalhar por culpa da necessidade do repressor abominável.
— Dito de maneira tão seca direcionada
no âmago da questão, eu sou outra Amazônia
obrigada a recuar no meu modo de pensar, até um pouco antes
da sua colocação. Espero que o grande Estadista
veja com os seus olhos benevolentes e pare de cometer a tortura
da fome em um povo fragilíssimo, que não tem ânimo
para dizer em que parte do corpo está lhe doendo: o estômago!
Neste acontecimento desagradável não houve crime
ambiental? Nem mesmo o fazendeiro cometeu crime?
O episódio supracitado não deixa
transparecer a existência de um fazendeiro! Existe o proprietário
das terras improdutivas que resiste na região em condições
quase idênticas com as dos carvoeiros. Em vez de ser ameaçado
de prisão e multado, ele deveria ser contemplado com um
projeto agrícola — fundamentado em amostras do solo
e apontando o que poderia ser produzido na propriedade —
fornecido pelo órgão competente do governo. E em
seguida a oportunidade da liberação de um financiamento
agrícola no valor estipulado no item financeiro do estudo!
As televisões anunciam insistentemente a quantia de 78
bilhões de reais para financiar a agricultura! O sacrifício
da autorização do investimento para o pobre homem,
oferecer emprego na comunidade dele e produzir alimentos não
deveria ser doloroso, se este dinheiro não fosse direcionado
todos os anos exclusivamente para as grandes empresas agropecuárias!
Para os pequenos sobra o direito de tomar conhecimento da oferta
do dinheiro, receber a recusa dos bancos, ficar sonhando em conseguir
algum dia e bolar um jeito de fazer com que a terra inútil
se torne sustentável! Geralmente o que ele consegue é
dívida, prejuízo, multa e conviver com o perigo
iminente de ir para a cadeia!
— Aparentemente você está
com a razão! Não posso afiançá-lo
no todo, pois eu não conheço aquele território
que possui suas características diferentes das minhas!
Mas, eu posso olhar para você e dizer que estou vendo um
ambientalista?
Não, por favor, não veja em minha
pessoa um desses Belarmino! Olhe com atenção e verá
um admoestador malhando em ferro frio!
|