Dedo sujo sem Catapulta!
quarta-feira, 19/08/09 – 12h35
De cócoras e envergonhada, a sociedade brasileira vem
presenciando através dos órgãos
de comunicação, as cenas de espantoso
pugilato que tem como ringue o Senado Federal. Recentemente,
a troca de farpas entre os senadores Tasso Jereissati,
do PSDB do Ceará e Renam Calheiros, do PMDB de
Alagoas, não terminou em tragédia, por
que o dedo sujo do cacique cearense, não acionou
o gatilho da catapulta. Fato raríssimo entre
contendo rés políticos nordestinos!
É de se imaginar que um espetáculo ridículo
dessa natureza, jamais poderia ocorrer no recinto de
uma Instituição, cuja história
vinha figurando, até bem pouco tempo, no ápice
do respeito nacional. Agrava, além das cenas
mostradas ao vivo, os escândalos envolvendo nepotismo,
corrupção, atos secretos, gastos com passagens
aéreas para o exterior, uso de telefones celulares
por familiares de senadores, nomeação
de empregadas domésticas como assessor parlamentar,
construção de castelo com dinheiro da
verba indenizatória, daí o Presidente
José Sarney sentenciar em frase singular "que
todos os senadores são iguais".
A generalidade na prática desses atos condenáveis,
é um grave aviso aos navegantes, todos eles,
à luz de normas constitucionais e legais, importam
na quebra do decoro parlamentar, punível com
a perda do mandato. A ser verdade que todos os senadores
são iguais, quem poderá atirar a primeira
pedra?
Cabe-me ressaltar minha chegada à Brasília
para assumir o mandato de deputado federal, no período
de 1975 a 1991. Convivi com homens públicos ilustres
dos portes de Ulysses Guimarães, Bonifácio
de Andrada (Zezinho), Arthur Virgilio, Roberto Freire,
Alencar Furtado, Freitas Nobre, Djalma Marinho, Álvaro
Dias, Afonso Arinos de Melo Franco, Odacyr Klein, Cantídio
Sampaio, Roberto Campos, Luiz lnácio Lula da
Silva, Israel Dias Novais, Gerson Camata, Nelson Jobim,
Nelson Marchezan, Siqueira Campos e os Senadores Tancredo
Neves, Nelson Carneiro, Pedro Simon, Paulo Brossard,
Jarbas Passarinho, Edward Catete Pinheiro, José
Sarney, Petrônio Portela e muitos outros. Consulte-se
os Anais do Congresso Nacional e neles encontrarão
referências enobrecedoras a respeito dessa pleiade
de parlamentares brasileiros que dignificaram o exerci
cio de seus mandatos sob o pálio da ética
e da moral,
Causa-nos profundo constrangimento, e porque não
dizer indignação, a mídia divulgar
diariamente, com manchetes estrepitosas, os escândalos
envolvendo antigos adversários e companheiros
de bancada e de partido, no fedorento lamaçal
da corrupção generalizada que colocou
rés ao chão o prestígio e a credibilidade
do Senado da República. A crise de dignidade
é conseqüência da caducidade precoce
das nossas Instituições Políticas,
que já emitem sinais de cansaço e, em
estado agônico, balbuciam os clamores finais à
beira da falência.
Sinceramente, jamais se poderia imaginar que o Senador
José Sarney, donatário de patrimônio
incalculável e de larga experiência no
longo Itinerário da vida pública, como
adiante mostraremos, se tornasse alvo de acusações
desabonadoras da sua conduta e, pior ainda, humilhado
e insultado na Cátedra da Presidência do
Senado, onde a Constituição Federal e
o Regimento Interno da Casa hoje são letras mortas.
Trata-se, sem dúvidas, de fatos deploráveis,
senão inéditos na história republicana,
que comprometem o respeito à ética e a
moral, tornando vulnerável qualquer esforço
no sentido de preservar incólume a imagem da
democracia representativa cultuada no Brasil.
Ora, o ‘Curriculum’ do Político
maranhense, vinha registrando, até pouco tempo,
um passado de lutas de causar inveja aos amigos e adversários,
eis que dotado de carisma, nasceu predestinado a galgar
posições relevantes como governador, três
vezes senador da Republica, presidente do Partido Democrático
Social, presidente da República e do Senado Federal,
além de Membro da Academia Brasileira de Letras,
Na verdade, foi um campeão na linha de conquistas
políticas que poucos alcançaram na Pátria
de Santa Cruz. Mas, tudo in dica que faltou gás
nas lamparinas do seu juízo e ao invés
de retornar ao aconchego da família para carpir
o ocaso da velhice, preferiu deixar-se seduzir pela
vaidade de novas aventuras, sonhando com mais dinheiro
e poder.
A consequência lhe foi fatal. O autor de "Marimbondos
de Fogo" não só caiu no vácuo
do ridículo, como arrastou às sarjetas
uma Instituição que Rui Barbosa, ao seu
tempo, havia colocado no ápice da grandeza nacional.
É curioso observar que no elenco dos acusadores,
figuram alguns senadores bafejados por mordomias e cargos
importantes quando Sarney era Presidente da República.
Bela oportunidade para Sarney lembrar o poeta Augusto
dos Anjos: “A mão que afaga é a
mesma que apedreja”. Coisas comuns na política!
É de causar espanto a briga de campanário
no plenário do Senado. À medida que aflora
uma denúncia, o autor também é
denuncia do. Como de se esperar, a podridão desaguará
na Comissão de Ética e nesta, o comando
pertence ao PMDB. Sarney tornou-se peemedebista de carteirinha
assinada. Conta com o apoio de Lula. Assim, jamais será
julgada procedente qualquer denúncia contra ele
por quebra do decoro parlamentar ou improbidade administrativa,
tendo em vista contar, para tanto, com o apoio do presidente
e relator da Comissão de Ética, que certamente
opinarão pelo indeferimento. De tal decisão
a Oposição poderá recorrer para
a deliberação plenária. Pior à
emenda do que o soneto. A rejeição será
mantida por que, as minorias não operam como
maiorias...!
Observa-se, à luz dos fatos em evidencia, que
o foco mediano está concentrado nos ilícitos
do Poder Legislativo, enquanto os praticados pelo Executivo,
que são tão graves como àqueles
parecem desapercebidos da vigilância crítica
e por isso permanecem desafiando o inaceitável
silêncio da nação.
Refiro-me à usurpação de prerrogativas
do Congresso Nacional pelo Presidente da República.
Na medida em que ele edita as Medidas Provisórias
convertidas em normas jurídicas, assume a condição
de legislador e executor, ao mesmo tempo. Graças
a esse procedimento que ocorre desde o início
do governo, agravado pelo descumprimento de exigências
do Art. 62 da Carta Fundamental, que trata da “urgência
e emergência" - mais de quatrocentas leis
deriva das de Medidas Provisórias se acham catalogadas
no Vade-Mécum-Juri do brasileiro, algumas com
a eiva de inconstitucionalidade originária. É
óbvio que a intromissão indevida no princípio
constitucional da separação dos Poderes,
além de importar no crime de responsabilidade,
punível com a perda do mandato do agente político,
não contribuí para consolidar o Estado
de Direito Democrático e, muito menos, ao bom
desempenho da governabilidade.
Na verdade, constata-se que a forca ditatorial com
que vem agindo o Chefe do Poder Executivo, além
de depreciar o papel inerente às prerrogativas
indelegáveis do Parlamento Nacional, implicam,
também, numa atitude afrontosa ao sistema de
governo presidencialista jamais visto ha história
dos povos civilizados.
Não é sem razão os péssimos
conceitos que se repetem nas páginas dos jornais
e canais de televisão, verberando a inoperância
dos representantes da Nação e dos Estados
nas duas Câmaras, do Congresso Nacional, sobretudo
por que a figura do legislador parece extinta nas últimas
legislaturas.
Em passado não muito recente, as críticas
incidiam contra a produção de excesso
de leis e hoje, ao contrário, por clamorosa escassez.
A sociedade organizada é a grande vítima
do descaso parlamentar. Os problemas sociais que enquadram
a saúde, educação, habitação,
saneamento básico, meio-ambiente, entre outros,
ficam restritos aos debates tribunícios, servindo
de pasto demagógico para saciar interesses político-eleitoreiros.
A impaciência sem limites, já começou
a aguçar a opinião pública e se
espalha pelo Brasil afora. Sarney é a bola da
vez. Mas, tudo indica que outras ‘genys’
virão a ser alvos de apedrejamentos, bastando
que exiba na gola do paletó o ‘boton’
identificador de membro do Senado e da Câmara
dos deputados.
Antes que seja tarde demais, providências imediatas
e inadiáveis precisam ser adotadas com a finalidade
especifica de por cobro ao descalabro político,
administrativo, ético e moral que desabou sobre
o Senado da República. Esperar que as eleições
gerais, de 2010, expurgue os corruptos e formadores
de quadrilhas das tocas blindadas em que se encontram,
é pura utopia! De outro lado os partidos políticos,
desfalcados desses vermes abjetos, tornam-se aos corpos
sem almas. Então, restaria a alternativa de uma
operação-limpeza, com o engajamento do
Ministério Público e do Poder Judiciário,
iniciada com o julgamento de ex - e atuais ministros
de estado; ex - e atuais governadores; ex - e atuais
senadores; ex - e atuais deputados federais e estaduais;
ex - e atuais prefeitos municipais; ex - e atuais vereadores
que já se encontram indiciados como autores de
crimes de corrupção, improbidade administrativa,
lavagem de dinheiro enviado para os paraísos
fiscais, formação de quadrilha e delito
de responsabilidade. Dados estatísticos revelam
que tanto nos Executivos federal, estaduais e municipais,
bem como, nos Legislativos dos três níveis
de governo, são incontáveis os processos
a que respondem tais titulares de mandatos eletivos.
Uma varredura com o propósito de condenar os
culpados e absolver inocentes, entrará nas páginas
da história como o mais precioso dos serviços
prestados às causas do Estado de Direito Democrático
e ao resgate dos princípios éticos e morais
que a insensatez solapou das Instituições
políticas em nosso País.
Inspira-nos à sugestão, o dito por Martin
Luther King consubstanciado nas seguintes palavras:
“O que preocupa não é o grito dos
violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem caráter,
dos sem ética. O que preocupa é o silencio
dos bons...!”.