Amazônia a maior riqueza do mundo
quinta-feira, 29/05/08 - 10h15
Não devemos deixar privatizarem nossas florestas.
Disse uma vez Victor Hugo, "Primeiro foi necessário
civilizar o homem em relação ao próprio
homem. Agora é necessário civilizar o homem em
relação à natureza e aos animais".
Partindo dessa premissa se faz necessário começar
a analisar os acertos e desacertos do Código Florestal
pela história recente de nossas florestas. De maneira
geral, os processos de desmatamento e uso predatório
dos recursos florestais brasileiros se acentuaram a partir de
1965, data da promulgação do Código. Temos
hoje mais de 90% da Mata Atlântica desmatados. Mais de
90% da madeira nativa que consumimos hoje, cerca de 30 milhões
de m3, é de origem não sustentável e contribui
para a degradação da Amazônia. Ao fixar
limites absolutos, trata ecossistemas da Mata Atlântica,
Cerrado, Caatinga, etc., como se fossem homogêneos e necessitassem
de níveis idênticos de proteção.
Boa parte do atual debate em torno do Código Florestal,
entretanto, está fora de foco. As atenções
estão centradas sobre o quanto podemos desmatar. De um
lado, os ruralistas defendem o desmatamento de percentuais de
até 50% na Amazônia. Parte dos agricultores, representados
por entidades defendem o direito de desmatar 65% em pequenas
propriedades. Precisamos desmatar para gerar desenvolvimento?
As florestas representam o atraso do país ou oportunidades
para o seu desenvolvimento sustentável?
Só para recordar, a Coroa portuguesa, em dado momento
histórico de dificuldade financeira, resolveu arrendar
a “colônia” a homens de negócios, que
arriscariam capital próprio na colonização
e exploração. O acordo era um monopólio
de comércio e colonização e compreendia
como principais compromissos dos arrendatários o envio
de seis navios, anualmente; a exploração, o desbravamento
e o cultivo anual de uma nova região de 300 léguas;
a construção de fortalezas e o compromisso de
guarnecê-las durante o prazo do contrato. Finalmente,
o melhor da “história”, a destinação
à Coroa, no segundo ano do arrendamento, da sexta parte
das rendas auferidas com os produtos da terra, e, no terceiro
e último ano do contrato, a quarta parte.
Logo após o estrago ambiental ocasionado pela
exaustão do pau-brasil, veio, na esteira dos
interesses, a exploração de outras espécies
de madeiras exportáveis, o plantio e exploração
da cana-de-açúcar, a exploração
indiscriminada e predadora de recursos minerais, a cafeicultura,
a construção de ferrovias, etc., enfim,
um longo e lucrativo reinado em terras brasileiras.
O Brasil foi colocado no mapa do comércio planetário,
porém, junto com os dividendos que logo emigravam
- e até hoje continuam a emigrar - para o exterior,
seguiu-se à devastação das florestas,
a escravização indígena em larga
escala, os desatinos do monopólio e a monocultura,
a infâmia inominável do tráfico
negreiro, a vertigem do lucro fácil, o latifúndio,
a pirâmide social exclusivista e a ganância
desenfreada – vícios que o Brasil, em vez
de eliminar, incorporou aquela época, até
os dias atuais, em pleno século XXI.
O fundamental é compreender a importância
estratégica de nossas florestas para o futuro
econômico do Brasil e suas oportunidades para
a melhoria da qualidade de vida da nossa população.
O Brasil possui uma posição ímpar
num mundo onde florestas são cada vez mais escassas:
comparando-se ao petróleo, o país tem
uma posição mais estratégica do
que a Arábia Saudita. Temos cerca de 3 hectares
de florestas por habitante, duas vezes superior à
Indonésia, maior exportador de madeiras tropicais
do mundo. A Amazônia, que representa 65% do território
nacional e possui 26% das reservas de florestas tropicais
do Planeta. Convém transformar essa vantagem
comparativa em cinzas e substituir as florestas por
pastagens de baixa produtividade, como já fizemos
em 77% das áreas desmatadas da Amazônia
e na maior parte da Mata Atlântica?
Transformar a pressão de desmatamento em solução
não será tão difícil, a
Floresta Amazônica possui enorme potencial para
produzir madeira, cipós, plantas medicinais,
essências aromáticas, frutos etc, salvo
alguns sistemas de manejo de populações
indígenas, extrativistas e caboclas, nunca soubemos
aproveitar esse potencial. Temos uma indústria
madeireira nômade, que acompanha a fronteira do
desmatamento. Há 30 anos estava no sul da Bahia,
há 10 no sul do Pará. Hoje, ao norte do
Mato Grosso e retornando novamente ao Pará, considerado
atualmente o segundo estado em devastação.
As florestas nativas, se manejadas de forma correta, podem
produzir mais do que a agropecuária. Existe ainda o potencial
de produzir, na mesma floresta, polpa de açaí,
plantas medicinais, essências aromáticas etc. Isso
ilustra o óbvio: a floresta em pé vale mais do
que no chão, tudo em forma de vida. As florestas devem
ser vistas como espaços estratégicos para o desenvolvimento
sustentável da Amazônia, do Brasil e da América
Latina. Então, o grande desafio é fazer com que
a proteção da Floresta Amazônica seja um
negócio rentável para a União, o que devemos
fazer é que o desenvolvimento aconteça aliado
à conservação da natureza.
Convém notar que, além do potencial de
produção sustentável de madeira
e outros produtos, as florestas têm um papel importantíssimo
para a conservação da biodiversidade,
regulação do clima global e conservação
dos recursos hídricos local e regional, bradados
internacionalmente. Entretanto, devemos ir além
do duelo de números.
O fundamental é rever nossos paradigmas com relação
às florestas e sua importância no desenvolvimento
da Nação. Se, por outro lado, considerarmos as
florestas um componente estratégico do nosso futuro,
desmatar um só palmo é demasiado. O futuro e a
sustentabilidade do Brasil dependem da recuperação
e conservação de nossas florestas. O relatório
aprovado pela comissão mista do Congresso aponta um futuro
trágico para elas. O futuro das florestas depende não
apenas de uma revisão apropriada do Código Florestal,
mas, também, de políticas de crédito, assistência
técnica, infra-estrutura, educação, pesquisa
etc.; direcionadas para a produção florestal sustentável.
Ademais, não podemos deixar que um grupo de poucos,
mas muito poucos empresários, se beneficiem de tais produtos
e matérias primas somente para ostentarem a luxuria,
sem, no entanto, corroborar com um mínimo possível
para o engrandecimento de nosso Estado. E, sem nenhum sentimento
de culpa, deixar como herança às atrocidades perpetradas
contra a natureza para nossa geração futura. A
natureza que sempre foi muita pródiga nesta extensa faixa
do território paraense começa a dar sinal de exaustão,
devido à exploração predatória dos
recursos naturais ao longo do tempo.
Pelo desinteresse com que as nossas autoridades tratam
a Amazônia, é mais quem a quer! Todos sabem
- e não é de hoje, que existem países
de “olho gordo” na maior reserva de biodiversidade
do planeta. É mais quem quer a Amazônia,
pois como observamos a todo o momento na mídia,
o interesse de outras nações pela Amazônia
é grande, e não podemos perder nossa soberania
sobre esse santuário ecológico que só
a nós pertence, pois está encravado em
nosso território. Nossa região é
a mais rica do planeta onde encontramos a maior diversidade
seja na fauna, flora ou simplesmente em terra onde se
encontra as maiores jazidas de minério do mundo.
Para o Brasil, essa riqueza parece não representar
nada diante da devastação impressionante
que a floresta vem sofrendo há anos seguidos,
sem que, no entanto, as autoridades constituídas
tomem pulso contra esse vergonhoso empreendimento. O
governo, infelizmente tem provado não ser capaz
de preservar a Amazônia como deveria, a fim de
evitar que o pior de todos os predadores - o próprio
homem - destrua de vez esse verdadeiro santuário.
Ninguém respeita mais as nossas leis ambientais!
A cada agressão que a Amazônia sofre, é
menos vida - não somente no Brasil, mas no resto
do mundo também, pois abala o ecossistema como
um todo.
Seria importante que a maioria dos brasileiros em especial
os amazonidas pudessem ter acesso ‘ipsi literis’
ao discurso feito pelo Chefe Seattle (Duwamish) ao Presidente
Franklin Pierce em 1854, após o Governo Americano ter
dado a entender que desejava adquirir o Território da
Tribo. Só para citação alguns trechos do
texto.
“...O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava
comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também
de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de
sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa
amizade. Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos
que se não o fizermos, o homem branco virá com
armas e tomará nossa terra.
(...)
O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as
criaturas respiram em comum - os animais, as árvores,
o homem. O homem branco parece não perceber o ar que
respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é
insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa
terra, terás de te lembrar que o ar é precioso
para nós, que o ar reparte seu espírito com toda
a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô
o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último
suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la
reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio
homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a
fragrância das flores campestres.
(...)
De uma coisa sabemos. A terra não pertence, ao homem:
é o homem que pertence a terra, disso temos certeza.
Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que
une uma família. Tudo está relacionado entre si.
Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não
foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente
um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio
fará.
(...)
Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite,
sufocado em teus próprios desejos.
Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos.
Proteje-a como nós a protegíamos. "Nunca
esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse":
E com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração
- conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos.
De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta
terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode
evitar o nosso destino comum”.
Então, como observamos, não resta dúvida
quanto ao conhecimento do Chefe Seattle. Prevenir é a
melhor solução, pois quando o assunto é
Amazônia, devemos ter toda cautela, pois se faz urgente
e necessária a criação de uma política
que venha ao encontro não somente do interesse da Nação,
do Estado ou de cada Município, mas que tenha em seu
bojo uma realidade de minimizar os problemas sofridos por todos
os cidadãos em especial ao povo ribeirinho no que diz
respeito à preservação do meio-ambiente,
e que isso realmente ultrapasse as fronteiras do papel ou da
mídia e que venha de verdade a ser executado, já
que vivemos e necessitamos do solo onde moramos. Não
podemos esquecer que a verdadeira razão de manter o meio
ambiente ecologicamente equilibrado é o próprio
homem, o ser humano.
Devemos sim, estar preocupados com o futuro da região,
principalmente no que diz respeito ao interior da floresta.
O Governo precisa na realidade alocar recursos humanos e financeiros
para atividades básicas, que vão desde a fiscalização
à limitação da floresta e projetos de pesquisa
e exploração racional. Já que as poucas
famílias que habitam a região mantêm-se
atentas contra o invasor, mas sem voz nem vez, e pouco, muito
pouco mesmo podem fazer, pois só possuem direito a voto
em urnas nas eleições.
O silêncio das matas e rios denuncia os invasores com
os ruídos dos motores dos empurradores (pequenas embarcações
com grande propulsão) que empurram jangadas com centenas
de metros cúbicos de toras de madeiras nobres da região,
ou quem sabe mesmo aquele barulho estarrecedor das motos-serras
demolindo parte de nossas florestas sem que, no entanto, o barulho
chegue aos ouvidos das autoridades mais próximas na ocasião
da agressão à nossa flora.
É mais quem quer a Amazônia!
Conforme se pode verificar e refletir, a história do
meio ambiente na Terra Brasilis já é imensamente
triste, e na Amazônia poderá ficar pior.
Enfim, depende da lógica, do bom senso e da vontade
política. Por que não olhar com profissionalismo
toda a situação como ela realmente se
apresenta. A gradativa mudança de temperatura
que ocorre no Pará, ou quem sabe a escassez das
águas fluviais, como já ocorreu anos anteriores.
Seremos o próximo deserto do mundo? O temor é
muito grande. A ameaça aflige a todos. A realidade
está cada vez mais próxima. Até
que os governos e a sociedade reconheçam que
no vasto e rico universo amazônico, como em qualquer
outro ponto do planeta, a natureza é o elemento
mais importante. Resta preservar a Amazônia, ela
sempre continuará sendo necessária e primordial
ao ser humano, ou teremos que perecer sem oxigênio,
pois já foi provado cientificamente que regiões
áridas já abrigaram uma rica vegetação
e biodiversidade no passado?
Então Viva o Brasil, o Pará e a Amazônia!
“O pulmão do mundo”.