Amazônia - Prevenir é Melhor que Remediar
segunda-feira, 05/06/06 - 10h48
É necessário começar a
análise dos acertos e desacertos do Código Florestal
pela história recente de nossas florestas. De maneira geral,
os processos de desmatamento e uso predatório dos recursos
florestais brasileiros se acentuaram a partir de 1965, data da
promulgação do Código. Temos hoje mais de
90% da Mata Atlântica desmatados. Mais de 90% da madeira
nativa que consumimos hoje, cerca de 30 milhões de m3,
é de origem não sustentável e contribui para
a degradação da Amazônia. Ao fixar limites
absolutos, trata ecossistemas da Mata Atlântica, Cerrado,
Caatinga, etc., como se fossem homogêneos e necessitassem
de níveis idênticos de proteção.
Boa parte do atual debate em torno do Código
Florestal, entretanto, está fora de foco. As atenções
estão centradas sobre o quanto podemos desmatar. De um
lado, os ruralistas defendem o desmatamento de percentuais de
até 50% na Amazônia. Parte dos agricultores, representados
pela CONTAG, defendem o direito de desmatar 65% em pequenas propriedades.
Precisamos desmatar para gerar desenvolvimento? As florestas representam
o atraso do país ou oportunidades para o seu desenvolvimento
sustentável?
O fundamental é compreender a importância
estratégica de nossas florestas para o futuro econômico
do Brasil e suas oportunidades para a melhoria da qualidade de
vida da nossa população. O Brasil possui uma posição
ímpar num mundo onde florestas são cada vez mais
escassas: comparando-se ao petróleo, o país tem
uma posição mais estratégica do que a Arábia
Saudita. Temos cerca de 3 hectares de florestas por habitante,
duas vezes superior à Indonésia, maior exportador
de madeiras tropicais do mundo. A Amazônia, que representa
65% do território nacional e possui 26% das reservas de
florestas tropicais do Planeta. Convém transformar essa
vantagem comparativa em cinzas e substituir as florestas por pastagens
de baixa produtividade, como já fizemos em 77% das áreas
desmatadas da Amazônia e na maior parte da Mata Atlântica.
Nossas florestas possuem enorme potencial para
produzir madeira, cipós, plantas medicinais, essências
aromáticas, frutos etc. Salvo alguns sistemas de manejo
de populações indígenas, extrativistas e
caboclas, nós nunca soubemos aproveitar esse potencial.
Temos uma indústria madeireira nômade, que acompanha
a fronteira do desmatamento. Há 30 anos estava no sul da
Bahia, há 10 no sul do Pará. Hoje, no norte do Mato
Grosso.
As florestas nativas, se manejadas de forma correta,
podem produzir mais do que a agropecuária. Existe ainda
o potencial de produzir, na mesma floresta, polpa de açaí,
plantas medicinais, essências aromáticas etc. Isso
ilustra o óbvio: a floresta em pé vale mais do que
no chão. As florestas devem ser vistas como espaços
estratégicos para o desenvolvimento sustentável
da Amazônia, do Brasil e da América Latina.
Convém notar que, além do potencial
de produção sustentável de madeira e outros
produtos, as florestas têm um papel importantíssimo
para a conservação da biodiversidade, regulação
do clima global e conservação dos recursos hídricos
local e regionalmente. Entretanto, devemos ir além do duelo
de números. O fundamental é rever nossos paradigmas
com relação às florestas e sua importância
no desenvolvimento da Nação. Se, por outro lado,
considerarmos as florestas um componente estratégico do
nosso futuro, desmatar um só palmo é demasiado.
O futuro e a sustentabilidade do Brasil dependem da recuperação
e conservação de nossas florestas. O relatório
aprovado pela comissão mista do Congresso aponta um futuro
trágico para elas. O futuro das florestas depende não
apenas de uma revisão apropriada do Código Florestal
mas, também, de políticas de crédito, assistência
técnica, infra-estrutura, educação, pesquisa
etc.; direcionadas para a produção florestal sustentável.
Enfim, depende da lógica, do bom senso e da vontade política. |