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Jorge Calderaro

Jornalista, Escritor e Historiador
jc@acordapara.com.br
Belém - Pará - Amazônia - Brasil
 

E, o BBB chegou...

domingo, 15/01/02 - 09h00

A sensação de acompanhar um programa desse porte, com toda a tecnologia disponível, é de fundamental importância para percebermos a quantidade de informação que será “bombardeada”, não só pela emissora produtora, no caso a Globo, como as demais que incessantemente acompanharão de perto para gerar matérias dentro de seus programas, além dos usuários de informática que têm à sua disposição os vídeos - tapes oriundos do programa via Internet. Não que eu seja assíduo telespectador, mas, vez por outra, quando do interesse e da situação que se apresentam os acontecimentos, gosto de ver o desempenho dos candidatos, principalmente no lado cultural, não que me considere um intelectual, de forma nenhuma, mas para apreciar simplesmente a maneira de cada um" no ser, estar e falar, é muito interessante para somar à minha “desinformação”.

Sabemos, no entanto, que os meios de comunicação influenciam em muito os valores de pessoas menos afortunadas de cultura, crenças e comportamentos, e que, na maioria das vezes, a própria mídia televisiva submete-os a um processo de massificação que os torna como personagens, vividas na telinha, dando a falsa ilusão de que são livres para escolher o que querem ou o que pensam.

Para os mais caseiros, os solitários, o televisor é um complemento que pode trazer uma reconfortante sensação de companhia e intimidade com os participantes do nada mais, nada menos, e já famoso programa de televisão que chega à sua sexta versão, o Big Brother Brasil, e que tem desta vez uma paraense como participante, o que fará nossa população, com direito a torcida e algo mais, ficar definitivamente atenta a todos os movimentos da jovem que passará a figurar, dentro em breve, com uma estrela, ou, quem sabe, como uma celebridade.

É muito gratificante para nós termos uma representante genuinamente parauara, no caso, a psicóloga Thais Macedo, nesse grande “jogo”, pois, sabemos que sua presença por si só já se constitui um motivo de propaganda gratuita para o Estado do Pará, no que diz respeito, à nossa história, cultura e turismo, o que oportunamente nos enaltece profundamente, sabendo que tais informações serão levadas aos lugares mais longínquos do país e do mundo.

A comunicação de massa é na realidade capaz de interferir na vida subjetiva, nas relações sociais, e, na realidade, na vida dos telespectadores, pois, informa e diverte milhões de brasileiros que muitas vezes mudam de comportamento. Não há como negar que com o advento da televisão, a rapidez da informação através do tempo, entre novelas e programas de auditório, onde se questionam preconceitos e denunciam-se comportamentos pouco éticos, é uma influência que pode ser evidentemente positiva. Por outro lado, não podemos esquecer que, não raro, os personagens desse magnífico programa, sem dúvida, num futuro recente, desempenharão papéis de modelos para exibirem produtos dos mais diversos, que varia desde a higiene à bebida, podendo chegar até a moda, ou quem sabe, a cultura.

A pergunta que fica no ar é, se após o final de cada programa - Big Brother - seja qual for sua versão, os participantes serão livres e capazes de ter opiniões próprias sem que sejam guiados pelos meios de comunicação? Ou será somente uma ilusão de liberdade, passada ao telespectador para que acredite que são livres para escolher, já que ficam confinados a um sistema de valores que é imposto durante todo o tempo que permanecem na casa.

Ao escrever o livro, 1984, no qual apareceu pela primeira vez o onipresente Big Brother, George Orwell alertava para o perigo de estarmos caminhando para uma sociedade totalitarista. Nessa imensurável ficção, o Grande Irmão vigiava toda a sociedade através de câmeras e microfones, 24 horas por dia, cerceando ao máximo o exercício da liberdade individual de seus habitantes. Apesar de isso não estar muito claro para a maioria das pessoas, no fundo é o que está nos acontecendo atualmente através da perda de valores essenciais da vida em troca dos valores de consumo. Hoje, a realidade não é muito diferente, quando, em algumas cidades do Brasil, inclusive em Belém, somos observados por câmeras, muitas vezes, até indiscretas. Então, gradativamente, graças a essa massificação, não estamos perdendo a liberdade individual de pensar, sentir?

Mas foi na Holanda, no ano de 1999, que surgiu o programa Big Brother, reality show criado pela Endemol, uma das empresas de entretenimento da Europa, com o objetivo de levar o público a uma interação cada vez maior com seus participantes, tudo aparentemente inspirado no roteiro do livro de autoria de George Orwell. Como sabemos, o Big Brother é um jogo que mistura indivíduos de temperamento e nível sociocultural diferentes em um mesmo cenário, de preferência pessoas que possuam um belo rosto e um corpo esbelto, às vezes com vagas para alguns menos afortunados, financeira e intelectualmente, que deverão conviver numa casa durante dois meses, dia e noite, sob a vigilância de câmeras e microfones espalhados por todos os espaços em que se movimentam.

Denotamos que, como podemos então ter liberdade e autonomia quando estamos confinados a um sistema de valores e que nos é imposto? Vejamos, se nos vestimos da mesma maneira – a isso chamamos de moda – e se critica que não se veste como nós; se consumimos os mesmos produtos; buscamos status, dinheiro, conforto e fama; se, na verdade, pensamos e desejamos as mesmas coisas, onde estão as diferenças?

Jurandir Freire em seu livro, “Violência e Psicanálise”, afirma que em cada contexto histórico a sociedade forma um tipo psicológico ordinário, em resposta ao que ela necessita no momento. Nada mais do que a universalização de particularidades emocionais previamente definidas como normais. Tal processo acaba resultando numa violência simbólica, uma vez que se impõe à pessoa a realidade que ela deve adotar como referencial exclusivo para a sua orientação no mundo. É, portanto, através da intimidação ideológica que se alcança a adaptação das pessoas, a qual facilita o controle social.

Ao aceitar essa padronização o indivíduo enclausura a sua subjetividade dentro de si, passando a mostrar o que se espera ou o que se quer dele. Ou seja, ele começa a viver uma aparência e, quanto mais se ajusta a ela, menos compreende seus desejos, sentimentos e a sua própria existência; gradativamente, perde a consciência de quem realmente é. Assim, num mundo com tantas informações, ruídos e apelos, a vida vai descrevendo seu rumo vertiginosamente: ninguém mais tem tempo para nada, principalmente para tomar consciência sobre o que de fato está lhe acontecendo.

Modernamente o fantástico aparato tecnológico nos leva a crer que estamos mais próximos uns dos outros, porém, estamos cada vez mais enredados no individualismo, na superficialidade e na competição, que acaba por resultar na violência. Fugir desse processo, sem dúvida, não é tarefa das mais fáceis. Talvez o primeiro passo nesse sentido seja determinar que tipo de pessoa queremos ser, e que valores básicos desejamos para nortear a nossa vida?

Para encerrar, peço permissão aos leitores e parafraseando Jurandir Freire digo que “a última palavra sobre a validade deste propósito” será sem dúvida do leitor e do telespectador. Mas, como diz Bial “você já é de casa pode dar mais uma espiadinha”.

 

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