E, o BBB chegou...
domingo, 15/01/02 - 09h00
A sensação de acompanhar um programa desse porte,
com toda a tecnologia disponível, é de fundamental
importância para percebermos a quantidade de informação
que será “bombardeada”, não só
pela emissora produtora, no caso a Globo, como as demais que
incessantemente acompanharão de perto para gerar matérias
dentro de seus programas, além dos usuários de
informática que têm à sua disposição
os vídeos - tapes oriundos do programa via Internet.
Não que eu seja assíduo telespectador, mas, vez
por outra, quando do interesse e da situação que
se apresentam os acontecimentos, gosto de ver o desempenho dos
candidatos, principalmente no lado cultural, não que
me considere um intelectual, de forma nenhuma, mas para apreciar
simplesmente a maneira de cada um" no ser, estar e falar,
é muito interessante para somar à minha “desinformação”.
Sabemos, no entanto, que os meios de comunicação
influenciam em muito os valores de pessoas menos afortunadas de
cultura, crenças e comportamentos, e que, na maioria das
vezes, a própria mídia televisiva submete-os a um
processo de massificação que os torna como personagens,
vividas na telinha, dando a falsa ilusão de que são
livres para escolher o que querem ou o que pensam.
Para os mais caseiros, os solitários,
o televisor é um complemento que pode trazer uma reconfortante
sensação de companhia e intimidade com os participantes
do nada mais, nada menos, e já famoso programa de televisão
que chega à sua sexta versão, o Big Brother Brasil,
e que tem desta vez uma paraense como participante, o que fará
nossa população, com direito a torcida e algo mais,
ficar definitivamente atenta a todos os movimentos da jovem que
passará a figurar, dentro em breve, com uma estrela, ou,
quem sabe, como uma celebridade.
É muito gratificante para nós termos
uma representante genuinamente parauara, no caso, a psicóloga
Thais Macedo, nesse grande “jogo”, pois, sabemos que
sua presença por si só já se constitui um
motivo de propaganda gratuita para o Estado do Pará, no
que diz respeito, à nossa história, cultura e turismo,
o que oportunamente nos enaltece profundamente, sabendo que tais
informações serão levadas aos lugares mais
longínquos do país e do mundo.
A comunicação de massa é
na realidade capaz de interferir na vida subjetiva, nas relações
sociais, e, na realidade, na vida dos telespectadores, pois, informa
e diverte milhões de brasileiros que muitas vezes mudam
de comportamento. Não há como negar que com o advento
da televisão, a rapidez da informação através
do tempo, entre novelas e programas de auditório, onde
se questionam preconceitos e denunciam-se comportamentos pouco
éticos, é uma influência que pode ser evidentemente
positiva. Por outro lado, não podemos esquecer que, não
raro, os personagens desse magnífico programa, sem dúvida,
num futuro recente, desempenharão papéis de modelos
para exibirem produtos dos mais diversos, que varia desde a higiene
à bebida, podendo chegar até a moda, ou quem sabe,
a cultura.
A pergunta que fica no ar é, se após
o final de cada programa - Big Brother - seja qual for sua versão,
os participantes serão livres e capazes de ter opiniões
próprias sem que sejam guiados pelos meios de comunicação?
Ou será somente uma ilusão de liberdade, passada
ao telespectador para que acredite que são livres para
escolher, já que ficam confinados a um sistema de valores
que é imposto durante todo o tempo que permanecem na casa.
Ao escrever o livro, 1984, no qual apareceu pela
primeira vez o onipresente Big Brother, George Orwell alertava
para o perigo de estarmos caminhando para uma sociedade totalitarista.
Nessa imensurável ficção, o Grande Irmão
vigiava toda a sociedade através de câmeras e microfones,
24 horas por dia, cerceando ao máximo o exercício
da liberdade individual de seus habitantes. Apesar de isso não
estar muito claro para a maioria das pessoas, no fundo é
o que está nos acontecendo atualmente através da
perda de valores essenciais da vida em troca dos valores de consumo.
Hoje, a realidade não é muito diferente, quando,
em algumas cidades do Brasil, inclusive em Belém, somos
observados por câmeras, muitas vezes, até indiscretas.
Então, gradativamente, graças a essa massificação,
não estamos perdendo a liberdade individual de pensar,
sentir?
Mas foi na Holanda, no ano de 1999, que surgiu
o programa Big Brother, reality show criado pela Endemol, uma
das empresas de entretenimento da Europa, com o objetivo de levar
o público a uma interação cada vez maior
com seus participantes, tudo aparentemente inspirado no roteiro
do livro de autoria de George Orwell. Como sabemos, o Big Brother
é um jogo que mistura indivíduos de temperamento
e nível sociocultural diferentes em um mesmo cenário,
de preferência pessoas que possuam um belo rosto e um corpo
esbelto, às vezes com vagas para alguns menos afortunados,
financeira e intelectualmente, que deverão conviver numa
casa durante dois meses, dia e noite, sob a vigilância de
câmeras e microfones espalhados por todos os espaços
em que se movimentam.
Denotamos que, como podemos então ter
liberdade e autonomia quando estamos confinados a um sistema de
valores e que nos é imposto? Vejamos, se nos vestimos da
mesma maneira – a isso chamamos de moda – e se critica
que não se veste como nós; se consumimos os mesmos
produtos; buscamos status, dinheiro, conforto e fama; se, na verdade,
pensamos e desejamos as mesmas coisas, onde estão as diferenças?
Jurandir Freire em seu livro, “Violência
e Psicanálise”, afirma que em cada contexto histórico
a sociedade forma um tipo psicológico ordinário,
em resposta ao que ela necessita no momento. Nada mais do que
a universalização de particularidades emocionais
previamente definidas como normais. Tal processo acaba resultando
numa violência simbólica, uma vez que se impõe
à pessoa a realidade que ela deve adotar como referencial
exclusivo para a sua orientação no mundo. É,
portanto, através da intimidação ideológica
que se alcança a adaptação das pessoas, a
qual facilita o controle social.
Ao aceitar essa padronização o
indivíduo enclausura a sua subjetividade dentro de si,
passando a mostrar o que se espera ou o que se quer dele. Ou seja,
ele começa a viver uma aparência e, quanto mais se
ajusta a ela, menos compreende seus desejos, sentimentos e a sua
própria existência; gradativamente, perde a consciência
de quem realmente é. Assim, num mundo com tantas informações,
ruídos e apelos, a vida vai descrevendo seu rumo vertiginosamente:
ninguém mais tem tempo para nada, principalmente para tomar
consciência sobre o que de fato está lhe acontecendo.
Modernamente o fantástico aparato tecnológico
nos leva a crer que estamos mais próximos uns dos outros,
porém, estamos cada vez mais enredados no individualismo,
na superficialidade e na competição, que acaba por
resultar na violência. Fugir desse processo, sem dúvida,
não é tarefa das mais fáceis. Talvez o primeiro
passo nesse sentido seja determinar que tipo de pessoa queremos
ser, e que valores básicos desejamos para nortear a nossa
vida?
Para encerrar, peço permissão
aos leitores e parafraseando Jurandir Freire digo que
“a última palavra sobre a validade deste
propósito” será sem dúvida
do leitor e do telespectador. Mas, como diz Bial “você
já é de casa pode dar mais uma espiadinha”.
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