A alma do Carimbó
quarta-feira, 26/08/09 – 20h05
Afirmar que o Carimbó corre nas
veias de Mestre Verequete e uma definição
com grande significado, que toma proporções
maiores, ainda, gigantescas até, se afirmarmos
que Mestre Verequete corre nas veias do Carimbó;
"sangue puro" que bombeia ritmo e emoção,
ao som de tambores dos quais ele é o rei. Na verdade,
Verequete é a própria alma do Carimbó,
esse ritmo que energiza e balança homens e mulheres,
irradiando a mais pura magia, contagiando a todos que
participam e vivem os encantos de uma verdadeira roda
de Carimbó. Mestre Verequete é um desses
predestinados a quem Deus legou a missão de encantar
o mundo.

Homem simples, despido de quaisquer vaidades,
Augusto Gomes Rodrigues, nascido em Quatipuru, município
de Bragança, fez do som dos tambores sua estrada
e nela tem percorrido carregando o sonho de cantar e encantar.
É a maior expressão do Carimbó-raiz,
ritmo que mantém vivas as heranças indígenas,
africanas e dos colonizadores da Amazônia. É
um símbolo e patrimônio de nossa cultura.
Poeta, compositor, negro, de origem pobre, nem sempre
teve o respeito que merece ou que lhe é devido.
Em sua humildade foi vítima de elementos inescrupulosos
que se valeram de suas criações sem que
isso rendesse ao menos um "obrigado". Em função
da descoberta do roubo de suas composições,
Verequete mergulhou em profunda decepção
por um período de dez anos. Nesse período,
a cultura paraense teve um duplo prejuízo: o mal
causado a Verequete e a contribuição à
evolução de nossos valores através
de suas canções, que parou no tempo enquanto
mestre Verequete esteve ausente. Um mal irreparável.
Mas, mestre Verequete é único
e suas composições precisam ter seu toque,
o timbre de sua voz incomparável e a magia que
só ele tem ao interpretar o que diz em uma de suas
canções: "Tenho versos na cabeça
como letras no jornal / tenho versos na cabeça
como areia no mar". E, esses versos, por mais que
tentem, ninguém conseguirá levar ou cantar
como mestre Verequete canta e os que tentaram deveriam
lavar-se na água desse mar para limpar a vergonha
da própria incompetência.
Mestre Verequete derrubou barreiras,
transpôs muros invisíveis com a força
de seu Carimbó e imprimiu sua marca na cultura
popular; divulgou o Pará e seu ritmo no Brasil
e no exterior e aos poucos, embora um pouco tarde, veio
sendo reconhecido por sua contribuição à
valorização de nossas tradições,
o Dia Municipal do Carimbó, comemorado em Belém,
é 26 de Agosto, dia do aniversário de Verequete
em reconhecimento à profunda e inseparável
ligação entre o mestre e a cultura de nossa
região.
Registre-se com profundo pesar que reconhecimento
verdadeiro, sem interesses que não à valorização
da cultura são poucos; muitos são exploração
do mito, do talento e da cultura própria. Esse
tipo de reconhecimento não vale nada.
Verequete é mais que isso. Verequete é a
alma do Carimbó.
Parabéns Verequete...!
Foto: Do disco "O Legítmo
Carimbó Vol III - Verequete e o Conjunto Uirapurú
- da gravadora CID (Companhia Indústria de Discos)
- acervo de Jorge Calderaro
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