A cidade dos mortos vivos!
segunda-feira, 20/01/09 - 10h50
O índice de criminalidade crescente é
um dos maiores problemas dessa grande cidade. O número
de assaltos, furtos e roubos é assustador. Há registros
de estrupos e centenas de agressões. Suas ruas e suas avenidas
precisam constantemente de reparos, que nem sempre são
realizados. A iluminação precária é
outro absurdo. À noite dizem que é mal assombrada...
Trabalhadores e trabalhadoras circulam cuidando
das ‘eternas moradas’, construídas nos mais
diversos estilos, onde as mais bonitas indicam a classe social
de seus proprietários. Algumas delas são adornadas
com o mais puro mármore de carrara. Enfeitas por mangueiras
e muitas flores, à noite, a cidade exala um perfume envolvente,
um aroma enigmático. Possui uma população
fixa e outra flutuante que só a visita em determinadas
datas do ano. Ambulantes trabalham durante o dia, e ao cair da
noite retornam às suas casas fora da cidade.
Os verdadeiros habitantes da cidade dos mortos
vivos, não sorriem, não choram, não tem sentimos,
não sentem o vento bater em seus rostos, não sentem
o perfume das rosas... não sentem nada.
À noite, sombras se movimenta, e homens
e mulheres, homens e homens, mulheres e mulheres, fazem sexo sob
o mármore frio, fumam maconha em becos sombrios. Pela manhã,
a sujeira é retirada, as flores são regadas, as
paredes são caiadas; meninos e meninas apanham mangas ou
empinam papagaios em cima dos muros. A vida parece continuar...
Vendedores de pasteis, coxinhas, refrigerantes, água mineral,
sanduíche e outras guloseimas, circulam em busca de fregueses
e de alguns trocados que lhes garantam a alimentação
do dia. Uma tigela com açaí e peixe frito já
é o bastante.
‘Meninas’ em saias ou shortes minúsculos
perambulam oferecendo seus ‘serviços’ ou reúnem-se
em grupos para comentar suas últimas aventuras sexuais,
ou os fortíssimos babados da última festa do ‘Pop
Som’...
Na cidade dos mortos vivos, tem de tudo: choro,
lágrimas, ódio, paixão, silêncio, saudade
e paz; nessa cidade todos são iguais... Os sinos dobram;
o cortejo caminha silencioso. É a chegada de mais um habitante
no cemitério de Santa Isabel. Que sua alma descanse em
paz...
Texto extraído do livro Tracuá,
a ser lançado em breve.
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