Anjo Rebelde
segunda-feira, 16/06/08 – 16h00
“Mais
olhos ninguém teve do que Bené para ver
o sofrer e comunicar a dor e o gozo milagroso de ser amazônida.
A vil tristeza dessa nossa gente despossuída de
si mesma para ser engajada e gastada na produção
venal do que não come, do que não usa. Como
Bené é ‘romancista, não há
nunca o risco de afundarmos para sempre na dor sem remédio
do drama total. Vez por outra ele salta brincalhão
e pândego, para os banhos de igarapés ou
de águas fundas; as fodas meninas em emblemas de
mulher desenhados no barro mole dos barrancos; ou enlanguesce
de gozo amoroso no erotismo quente que resgata o amazônida
cativo. Para tanto, Bené ‘se encarna’
em Miguel, Malazarte-macunaíma dos barrancos, no
seu ofício de emprenhador festejado das mulheres
de todas as raças invasoras. Nelas quer pôr,
se emprenha e põe sua semente cabocla, num miraculoso
ritual compensatório de quem foi possuído
pelos machos de todas elas e não possui ninguém.
Ainda não’.
Com rara felicidade estas palavras de
Darcy Ribeiro, escritas há 27 anos no prefácio
de ‘A Terceira Margem’, exprimem o enredo
desta novela de Benedicto Monteiro, autor do Pará
que o mundo inteiro respeita e lê, e que hoje deixa
a Amazônia vazia de seu saber... ‘Por mundos
de águas e seduções da Amazônia’...
‘Não é para me gabar, mas no momento
em que eu plantava um filho, vinha na minha boca um gosto
de pura festa. Gosto quente e verde de flor e sangue,
e uma ânsia feliz de afogamento’.
O livro de Benedicto Monteiro é
tudo isso; festa para os sentidos, prosa sedutora que
agarra o leitor da primeira à última página,
prenhe de densidade e erotismo de tirar o fôlego.
(Da orelha do livro ‘Como se faz um Guerrilheiro’).
E,
sem fôlego fica toda a Amazônia, sem o ‘ar’
de um de seus mais ilustres filhos, sem fôlego,
ficamos nós, seus humildes e anônimos amigos,
aquele pequeno grupo que se reunia na casa do jornalista
e escritor Jorge Calderaro, a nos banquetear com tua sabedoria,
lucidez, humildade, mansidão, garra e força
do velho ‘guerrilheiro’ aonde bebíamos
todas as gotas possíveis de tua experiência
e de teu imensurável amor pela Amazônia.
Tu nos fizeste discípulos e ‘na lei ou na
marra’, procuramos honrar o teu legado em nossos
livros, textos jornalísticos e em nosso dia-a-dia.
Recentemente, eu e o amigo Jorge Calderaro,
nos agarramos a chance de te homenagear através
de um samba enredo que concorreu com outros, para levar
teu nome à avenida como tema de uma escola de samba
de Belém:
Bem dito seja Benedicto, Homem da Amazônia.
Nessa jornada tivemos como companheiros
os interpretes, Ney Fera, Ney Simplicidade e Silvinho
da Beija-Flor e Délio do Cavaco. Pra ti MESTRE,
nossa eterna homenagem. Homenagem que te prestamos em
vida. Nosso samba não foi para a avenida, mas,
em diversas ocasiões, manifestaste entre sorrisos
e lágrimas, abraços gestos e palavras carinhosas,
a tua aprovação por nossa humilde ‘obra
prima...’, de ti, Mestre, fica o exemplo e a lembrança
do amigo querido de quem um dia fui leitor, fã,
depois amigo, e companheiro em empunhar a bandeira da
defesa da democracia e da Amazônia... “Bené
– Abençoado fruto da floresta, anjo rebelde
regado de amor e paixão, homem da Amazônia...
(...)
Bem Dito seja o Benedicto, história
viva do Pará, a Amazônia te consagra neste
mar de poesias nos dá asas pra voar.
Tua lembrança estará sempre
viva entre nós, nas acarizadas, no piracuí,
nas taças de vinho, em nosso samba, textos e livros.
Tua cadeira estará vazia..., mas, tu mais do que
ninguém, sabe que estarás sempre conosco.
Teu autógrafo mais precioso está gravado
em nossos corações.
“Viajar nessa magia
Eu e todas as Marias
Nas águas de todos os Rios...”.
Sua benção Mestre Benedicto Monteiro.
|