Azedaram o Açaí
segunda-feira, 17/09/07 - 15h49
O começo e o fim da picada...
Conta a lenda: “O cacique de uma
numerosa tribo indígena, em uma época em
que os alimentos eram escassos, tomou a cruel decisão
de que toda criança que nascesse a partir daquela
data seria sacrificada; uma vez que não haveria
alimentos para todos.
Iaça, filha do cacique deu à
luz a um lindo menino e mesmo sendo neto do cruel cacique,
não foi poupado. A índia chorava todos os
dias com saudades de seu filhinho, até que em uma
noite de lua cheia, o choro de uma criança a atraiu
ao pé de uma esbelta palmeira; lá, seu filho
a esperava de braços abertos. Radiante de alegria,
Iaça correu para abraçá-lo, mas quando
o fez, a criança desapareceu misteriosamente. No
dia seguinte a índia foi encontrada morta ao tronco
da palmeira. Seu rosto trazia um suave sorriso de felicidade
e seus olhos negros fitavam a palmeira carregada de frutinhos
escuros.
O cacique mandou que apanhassem os frutos
e percebeu que dele poderia se extrair um suco violáceo
que passou a ser o principal alimento da tribo. Este achado
fez com que o cacique suspendesse os sacrifícios
e as crianças voltaram a nascer livremente; a alimentação
não era mais um problema para aquela tribo. Em
agradecimento a Tupã e em homenagem a sua filha,
o cacique deu nome de Açaí aos frutinhos
encontrados na palmeira, que é justamente o Iaça,
invertido.
O açaí nasceu para salvar
vidas e assim tem sido por séculos; transformou-se
em um dos principais alimentos de nosso povo, no Pará
e em toda a Amazônia, faz parte de nossa cultura,
na verdade é um patrimônio cultural, social
e econômico. Seu sabor ultrapassou fronteiras, conquistou
o mundo com seu valor nutritivo e energético. No
entanto, irresponsavelmente foi colocado como vilão
em uma suposta proliferação da Doença
de Chagas relacionada ao consumo do açaí
de forma artesanal.
O Pará é o maior produtor
de açaí do país (95% do total), consequentemente
o maior produtor mundial e seguramente o maior consumidor.
O que está causando uma pororoca de incertezas
é justamente a transformação do açaí,
num passe de mágica, de ‘líquido precioso’,
‘pão dos pobres’, e outras denominações,
em um vilão assassino responsável por dezenas
ou centenas de mortes de paraenses, segundo as recentes
notícias publicadas na imprensa local e nacional.
O fato que causa estranheza é que com uma leitura
mais apurada, percebe-se mensagens sublimadas em meio
a divulgação da tal contaminação
do açaí, pelo protozoário Trypanossoma
Cruzi, transmitido pelo ‘barbeiro’, conduzindo
ao consumo de açaí industrializado, pasteurizado
que não oferece riscos à saúde humana.
Ora, se não oferece riscos, a grande preocupação
deve ser: levar informações sobre a maneira
correta de manipulação artesanal orientando
pequenos produtores, amassadores e consumidores.
Da forma como tal processo está
sendo conduzido só quem sairá ganhando com
essa estranha história serão os grandes
grupos econômicos locais, nacionais e internacionais,
que parecem ter introduzido o “Corrupynossoma Cruz
Credo” entre as formas de contaminação
de nossa combalida economia. As informações
chegam a causar pânico entre os consumidores. Um
jornal local informa que a Saúde(?) afirma “Que
o suco do açaí faz uma vítima de
enfermidade a cada quatro dias, na Amazônia”.
O que dá uma média de 7,5 ao mês,
90 ao ano. O mais grave é a informação
de que para cada caso notificado se tenha pelo menos vinte
casos “silenciosos”, daí, conclui-se
que exista algo de muito estranho sobrevoando nossos açaizais,
além do ‘barbeiro’: Nossas autoridades
competentes voando feito ‘baratas tontas’
sem saber o que fazer e se sabem, por que não fazem?
As informações são
desencontradas. Se assim fosse, já teríamos
enfrentado uma calamidade pública, levando-se em
consideração que o açaí é
consumido há séculos na Amazônia;
será que nossas comunidades ribeirinhas não
teriam sido dizimadas?
A questão é gravíssima
e requer pronunciamentos oficias sobre a real situação.
Ações urgentes de conscientização
da população e principalmente orientações
técnicas aos pequenos produtores e aos milhares
de batedores de açaí que ganham o sustento
de suas famílias com essa atividade e que estão
seriamente ameaçados diante dessa mal fadada e
mal contada história .
E, se a história for verdadeira
é necessário e urgente que se tomem providências
quanto ao manejo correto, técnicas e processos
de higienização e comercialização
do açaí, mas, é fundamental que estejamos
atentos à manipulação da grande mídia,
que mesmo sem querer, pode estar causando um grande mal
ao Pará, aos paraenses e a Amazônia.
Em reunião com o presidente da
Comissão do Meio Ambiente da OAB-PA, membros da
ONG- Amazônia Nossa Terra, Luiz Alho e Jorge Calderaro,
levantaram e debateram amplamente a forma como a questão
da proliferação do mal de chagas relacionada
ao consumo do açaí esta sendo noticiada
em nível regional e nacional. Discutiu-se também
sobre a quem interessa a ‘campanha’, sem base
científica, contrária ao consumo interno
do produto. Tal ‘campanha’ pode estar sendo
utilizada para atender interesses puramente econômicos
que buscam forçar a redução de preço
e exterminar a cadeia produtiva do açaí,
principalmente pequenos produtores e amassadores do produto.
Que história é essa?
Onde está o começo e o fim da picada?
É como diz minha netinha Malú.
Égua! Não pode, não pode, não
pode!
Acorda Pará!
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