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Nelson Tembra

Engenheiro Agrônomo
Agronomist Engineer
nelsontembra@click21.com.br

 

Instalação de termelétrica (1)

quinta-feira, 29/11/07 - 20h44

Belém - Pará - Amazônia - Brasil

Ao longo do último século, principalmente após a Revolução Industrial, os países começaram uma vertiginosa escalada de crescimento econômico, o que gerou o aumento da demanda energética, não só em função das necessidades das indústrias em expansão, mas também por causa do crescimento da população mundial. A conseqüência mais direta é o aumento da temperatura média do planeta em função da concentração de CO2, numa média de 0,4% anuais. Este aumento se deve principalmente à utilização crescente de combustíveis fósseis e à destruição das florestas tropicais.

Encerrou, 28 de Setembro de 2007, rodada de audiências públicas convocadas pelo Ministério Público do Pará, para discutir o projeto da Companhia Vale do Rio Doce que pretende instalar uma Usina Termo Elétrica – UTE alimentada por carvão mineral em Barcarena.

As reuniões servirão de base na análise da Secretaria de Meio Ambiente – SEMA, que definirá se a obra receberá licença prévia. A aprovação desse projeto deve passar por uma rigorosa análise quanto a eficiência dos sistemas de tratamento propostos dos efluentes sólidos, líquidos e gasosos que serão gerados, bem como, os quantitativos que serão lançados no meio ambiente.

A aprovação do projeto poderá representar uma importante contribuição para aceleração do processo de aquecimento global, na medida em que, através da queima de combustíveis fósseis, no caso o carvão mineral, devolverá abruptamente à atmosfera aquilo que a natureza levou milhões de anos para retirar e acumular no sub-solo, sem mencionar os sérios casos prováveis de perturbação à saúde humana.

A opção pelo carvão mineral, certamente, é a alternativa mais econômica. É mais imediato, mais fácil e barato para a empresa importar o carvão mineral da Austrália ou da China, do que investir em alternativas ecologicamente corretas em larga escala de forma permanente, porém mais onerosas, tendo que enfrentar a legislação ambiental brasileira. Qual a razão para não terem planejado um forte programa de reflorestamento permanente para produção de carvão vegetal nas áreas já degradadas do Pará? Isso seria mais vantajoso, pois geraria menos poluição e teria um impacto social e econômico infinitamente maior, através da geração de emprego e renda e da inserção econômica das áreas de antropismo. Além disso, as áreas de reflorestamento, durante a fase de desenvolvimento das espécies cultivadas, gerariam importantes quantidades de créditos de carbono, contribuindo para a redução do aquecimento global.

Queimar significa desencadear reações poderosas, muitas delas irreversíveis; significa basicamente oxidar o carbono e alguns outros elementos (inorgânicos e metálicos), consumindo o ar, portanto consumindo o oxigênio e o nitrogênio do ar. Queimar não é somente esquentar muito, mas esquentar rapidamente, mudar pressões e densidades dos materiais, modificarem combinações químicas e moleculares, mantendo-se, entretanto, a soma total de massa e energia constante, conforme os princípios da termodinâmica.

Os estudiosos das ciências naturais consideram a queima como uma reintrodução dos elementos, de seus íons e compostos nos ciclos bioquímicos prevalecentes, uma reintrodução de origem antropogênica. A queima lança no ar e deixam no chão, nos locais da queima e nas instalações onde se deu a queima, três tipos principais de substâncias e de compostos: 1) os hidrocarbonetos – CxHy -, inclusive os aromáticos e os policíclicos aromáticos (P.C.A.), os óxidos (CO, CO2) e os fotos oxidantes, como o peroxi-acetil-nitrato (P.A.N.); 2) os elementos inorgânicos, (Enxofre – S -, o Nitrogênio -N -, o Potássio – K -, o Flúor – F – dentre outros) mais os seus compostos oxidados (SO2, NO, NO2, p.ex.) ou combinados com hidrogênio (p.ex.HF. HNO3) ou com metais (nitratos, sulfatos); 3) pequenas proporções de metais pesados, ou de íons, sais e óxidos destes metais (p.ex. Al, As, Cu, Hg, Pb, Cd, Cr, Sb).

Estas substâncias e compostos provêm da queima dos numerosos materiais há muito tempo utilizados pelos homens: lenha, carvão vegetal, turfa; óleos e tortas obtidos das carnes e vísceras animais, das sementes e dos grãos; bagaços, palhas, cascas e fibras dos gêneros alimentícios beneficiados ou processados. Mas os atuais coquetéis poluentes provêm principalmente da queima de carvão de pedra (mineral), (antracita, hulha, linhita), dos óleos minerais e dos gases do subsolo, e provém da queima de qualquer um dos seus derivados, inclusive das sucatas e resíduos destes produtos (p.ex. queima dos restos de plásticos e borrachas).

O resultado imediato de cada queima é, portanto a produção de outros compostos, gases, misturas de gases, vapores, líquidos e partículas em suspensão, cinzas e borras. Mas o resultado acumulado de todas as queimas é uma enorme desproporção entre as quantidades e as concentrações hoje emitidas – e aquelas quantidades e concentrações estimadas para a nossa era geológica, até um ou poucos séculos atrás. Isto vale para o CO, para o CO2, para os CxHy (destacando-se o metano e o benzeno), vale para os SOx e NOx, para a grande maioria dos compostos inorgânicos e para alguns dos compostos foto-oxidantes; esta desproporção é um verdadeiro salto qualitativo inédito.

São necessárias precauções antes de aprovar tais licenças ambientais, pois a concepção do projeto se choca aos procedimentos preconizados por Rio ECO – 92, o Protocolo de Kyoto e Convenção Quadro sobre mudanças do Clima (UNFCCC), que são adotados por países mais desenvolvidos e até por alguns menos desenvolvidos que o Brasil, os quais refugam e proíbem o emprego de tal alternativa em seus territórios. Enquanto políticos de diversas partes do mundo chegaram, em fevereiro de 2007, a um novo acordo para amenizar as mudanças no clima do planeta, pois vários países concordaram que as nações em desenvolvimento têm de reduzir emissões de carbono, assim como os países ricos, a Vale pede licença para trilhar o caminho inverso na Amazônia, apesar de seu tão propagado compromisso com o meio ambiente.

Instalação de termelétrica (2)

Pesquisando na internet sobre radioatividade, encontrei um exemplo que abrange muitos setores industriais, em especial a siderurgia, que é a queima do carvão mineral que contém elementos radioativos como urânio e tório. Uma avaliação do impacto radiológico resultante da queima do carvão para gerar energia elétrica vem sendo realizada no Reino Unido, pelo National Radiological Protection Board (NRPB), considerando várias formas de exposição: liberação de cinzas e radônio para atmosfera, descarte de cinzas, uso desse material como subproduto industrial e outras. Resultados preliminares indicam que as exposições mais elevadas resultam do emprego das cinzas na construção civil e que a liberação na atmosfera contamina a vegetação local.

Entre as indústrias em que os problemas de exposição à radiação podem ser mais significativos destacam-se as do ciclo de lavra e beneficiamento de minerais. Isso porque alguns minerais, ao se formarem, incorporaram urânio e tório em proporções superiores à média da crosta terrestre. A extração e o processamento industrial alteram as condições físico-químicas que esses materiais apresentam na natureza, o que pode levar ao lançamento de parcelas significativas dos elementos radioativos no meio ambiente. O aumento da radioatividade natural em resíduos sólidos da mineração, efluentes líquidos e emissões gasosas, e também em produtos e subprodutos que venham a ser usados por outros setores industriais, como as cinzas na construção civil, pode resultar em maior exposição de trabalhadores e da população em geral.

Por determinação da Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN, o Instituto de Radioproteção e Dosimetria - IRD vem coordenando um programa de pesquisa bastante amplo para avaliar a extensão do problema no país, em especial no setor mineral, definir linhas de investigação prioritárias e propor estratégias de atuação em função dos resultados obtidos. Também é avaliada a exposição de operários nos locais de trabalho, incluindo determinação de elementos radioativos no organismo (em amostras de urina e fezes) e em aerossóis (partículas suspensas no ar), e do radônio acumulado nos locais de trabalho. Estuda-se ainda a viabilidade da alteração das rotas de processo e da recuperação econômica de resíduos, visando reduzir impactos ambientais.

Para estudar as implicações ambientais dessas atividades foi desenvolvida uma metodologia de trabalho que começa na análise detalhada do processo operacional da indústria. A seguir, a presença de elementos radioativos e não radioativos é identificada em amostras colhidas ao longo do circuito operacional.

Em função das exposições estimadas calculam se os riscos radiológicos à saúde humana. Em uma mineração de carvão investigada, o problema principal está no alto teor de urânio medido nas drenagens ácidas. A detecção de valores de radioatividade em torno de 100 becquerels por litro (Bq/l) nas águas resultantes dessas drenagens impede seu lançamento no ambiente sem qualquer tratamento, pois poderão expor a população a doses acima dos limites recomendados pela Comissão Internacional de Radioproteção (ICRP, sigla em Inglês).

Cabe destacar ainda dois trabalhos de pesquisadores do IRD sobre o emprego do fosfogesso, como material de construção e como fertilizante agrícola. O primeiro demonstrou que a inalação do isótopo 220 do radônio e de seus descendentes de vida curta emanados das paredes de um cômodo em cuja construção o fosfogesso tenha sido usado como componente da argamassa (e ainda com baixa ventilação e sem proteção - tinta - nas paredes) exporia um morador a até 80% do valor de dose total. O segundo estudo indicou que os valores de dose individual resultantes da ingestão de produtos cultivados com o fosfogesso como fertilizante não representam um aumento de risco que impeça esse uso, mesmo no caso de aplicações sucessivas durante 100 anos.

O aumento da radioatividade ambiental provocado por atividades humanas é um tema sujeito a intensa investigação. Para ampliar a discussão dessa questão no país, o IRD e a Sociedade Brasileira de Biociências Nucleares (SBBN) realizaram no Rio de Janeiro, no ano passado, o 2º Technological Enhanced Natural Radiation Symposium (Simpósio sobre Radiação Natural Tecnologicamente Intensificada). Foram abordados, no encontro, aspectos relacionados ao monitoramento desses materiais, às técnicas de medida, à avaliação das exposições de indivíduos do público e trabalhadores, à experiência dos setores industriais, à recuperação de áreas contaminadas e à legislação sobre o problema.

O ectoplasma do seqüestro de carbono

Em declaração à imprensa a diretora de Energia da Companhia Vale do Rio Doce, Vânia Somavilla, justificou, ou tentou justificar, a importância da usina térmica (UTE) a carvão mineral que a empresa programa implantar em Barcarena, em recente conversa com jornalistas na sede da empresa em Belém.

Em relação às emissões de dióxido de carbono, ela citou que somente em áreas protegidas considerando florestas nativas próprias e florestas produtivas, “a empresa possui um estoque já fixado de 677,5 milhões de toneladas de CO2, o que corresponde à emissão de 312 usinas térmicas iguais à de Barcarena” (onde estarão essas RCE’s?). Seria mais de 2,5 bilhões de árvores protegidas, o que equivale a 14 por cada brasileiro. “E mais 340 milhões serão plantados até 2010”.

A implantação de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL), que permite a uma empresa negociar créditos de carbono conforme as regras estipuladas no Protocolo de Kyoto, dependem do cumprimento de uma série de pré-requisitos até alcançar a certificação da ONU, as chamadas RCE’s (Reduções Certificadas de Emissões).

Para ser aprovado no Brasil, o projeto deve obedecer, entre outros, a cinco critérios fundamentais: distribuição de renda; sustentabilidade ambiental local; desenvolvimento das condições de trabalho e geração líquida de emprego; capacitação e desenvolvimento tecnológico; e integração regional em articulação com outros setores.

De acordo com Gustavo Mozzer, da Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), o processo todo acontece em sete etapas, sendo que as quatro primeiras fazem parte do registro do projeto e as outras três se referem à verificação de sua eficiência.

Passo 1
Elaboração do Documento de Concepção de Projeto (DCP) Neste primeiro momento, a empresa identifica onde está o seu potencial para contribuir com a redução de emissões e cria o projeto, estabelecendo metas, explicando a metodologia de execução e de monitoramento. Este documento deve incluir ainda a definição do período de obtenção de créditos, a justificativa para adicionalidade da atividade de projeto e o relatório de impactos ambientais.

Passo 2
Validação Uma Entidade Operacional Designada (EOD) avalia o DCP para verificar se ele corresponde aos requisitos internacionais que definem o MDL.

Passo 3
Aprovação pela Autoridade Nacional Designada (AND) Após a validação, AND do país onde será conduzido o MDL atesta que o projeto contribui para o desenvolvimento sustentável do país. A AND, no caso do Brasil, é a Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima (CIMGC).

Passo 4
Registro Somente a partir desta etapa o MDL passa a existir de verdade. O registro é aceitação formal de um projeto validado pelo Conselho Executivo da ONU, que analisa também a metodologia escolhida e a adicionalidade do projeto, entre outros aspectos.

Passo 5
Monitoramento Faz parte da rotina da empresa responsável pela execução do projeto. Trata-se do acompanhamento da aplicação da metodologia e alcance de objetivos traçados no DCP, dentro do período de obtenção de créditos. Deve gerar os dados necessários para calcular a redução das emissões de gases de "efeito estufa" previstos pelo MDL.

Passo 6
Avaliação Após o período estabelecido para que a empresa possa receber as RCE's, é contratada outra EOD para fazer uma nova auditoria acerca da eficiência do MDL, a fim de encaminhar o relatório de verificação para a ONU. A partir daí, o Conselho Executivo certifica que a atividade atingiu um determinado nível de redução de emissões de gases de "efeito estufa" durante um período de tempo específico.

Passo 7
Emissão dos Créditos A etapa final é quando o Conselho Executivo tem certeza de que, cumpridas todas as etapas, as reduções de emissões de gases de "efeito estufa" decorrentes das atividades de projeto são reais, mensuráveis e de longo prazo e, portanto, podem dar origem a Reduções Certificadas de Emissões (RCE's).

Ao consultar a relação de projetos credenciados pelo Conselho Executivo, não encontrei nenhum ligado à Vale do Rio Doce:

http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/55344.html

Projetos aprovados nos termos da Resolução nº. 1 - 163 projetos
Última atualização em: 05/10/2007
http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/47952.html

Projetos aprovados com ressalvas: 15 projetos
http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/9920.html

Projetos em revisão: 14 projetos
http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/9924.html

Projetos submetidos nos termos da Resolução N. º 01: 6 projetos
http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/9921.html

Projetos recebidos pela Secretaria Executiva da Comissão interministerial:
http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/42953.html

Status atual das atividades de projeto do MDL no Brasil e no mundo
http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/30318.html

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