O público e o privado,
o oficial e oficioso...
domingo, 23/12/07 - 21h00
Belém - Pará - Amazônia - Brasil
O Liberal de 20/12/2007 publicou matéria
no caderno Poder, que o governo do Pará e a diretoria
da Vale assinaram três protocolos de intenção
anunciando ações de pesquisa tecnológica
e formação de mão-de-obra local na
área de mineração. A parceria pretende
‘conter o desmatamento no Estado do Pará
a partir de 2008 e prevê a instalação
do Fórum Paraense de Competitividade’ para
viabilizar ações entre o governo e a iniciativa
privada. O diretor executivo de Assuntos Corporativos
e de Energia da Vale, Tito Martins, explicou que ‘a
mineradora vai aumentar a amplitude do sistema de mapeamento
de queimadas, dispondo dos softwares e hardwares da empresa
para a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), que
vai possibilitar ao governo prevenir focos de queimadas
nas áreas monitoradas em todo o Pará’.
Para quem não possui intimidade
com o assunto, a disponibilização do sistema
de monitoramento por satélite da Vale poderia significar
grande feito, caso o site da própria Secretaria
de Estado de Meio Ambiente do Pará já não
disponibilizasse informações sobre os focos
de queimadas e desmatamentos, por região e por
municípios, bem como mapas e gráficos com
quantitativos anuais e até diários. A Sema
foi o primeiro órgão do governo do Estado
a entrar na Internet e hoje, como provedora de informações,
ocupa local de destaque na rede mundial. Quem lê
a matéria publicada em ‘O Liberal’
sobre os protocolos onde a Vale se posiciona pode ter
a interpretação que o Estado é incompetente,
acéfalo, e que necessita da tutela da giga-mineradora
para cumprir suas obrigações.
É necessária muita cautela
nessa relação, até porque o público
e o privado possuem interesses convergentes, mas atribuições
e funções distintas, e até certo
ponto antagônicas, e essas linhas divisórias
devem ser mantidas para que as partes cumpram suas atribuições,
sem subserviência do Estado, nem extrapolar atribuições
do empreendedor. Podemos citar como exemplos recentes
de promiscuidades nesse tipo de relação
dois episódios envolvendo os licenciamentos ambientais
de projetos de exploração mineral pertencentes
a Vale, ambos no Pará, para avaliação
do leitor sobre a repentina postura dos novos paladinos
do meio ambiente do Estado, bem como, e principalmente,
sobre a legitimidade, a legalidade e a ética da
influência privada nas decisões envolvendo
interesses públicos.
O primeiro exemplo é o do Projeto
Bauxita de Paragominas, que apresenta irregularidades
já atestadas no parecer do próprio Ministério
Público do Estado do Pará (http://www.acordapara.com.br/casos/cvrd-para/imgs/parecer-ministerial.pdf),
da lavra do Excelentíssimo Promotor de Meio Ambiente,
Dr. Benedito Wilson Corrêa de Sá, a começar
pela licença prévia, em cujo processo, apesar
de cumpridos trâmites processuais do licenciamento
se confundiu o público ao privado. Dentre as obras
mencionadas, a construção e operação
de uma estrada e a implantação e operação
de uma linha de transmissão, apesar da possibilidade
das concessões, são obras tipicamente de
responsabilidade do poder público. Por outro lado,
obras claramente de domínio privado da Vale, são
a lavra, o beneficiamento e mineroduto, que deverão
estar sob o controle direto da empresa. Este entendimento
deriva do fato de que estas duas obras, sujeitas à
avaliação específica de impactos
ambientais, foram inseridas em um único EIA/RIMA,
que envolve a abertura da lavra mineral e a construção
da usina de beneficiamento.
Um outro EIA foi exigido para a implantação
do mineroduto, mas não há elementos que
permitam avaliar ou que justifiquem os motivos da dispensa
do EIA/RIMA para as obras públicas, ou a inclusão
das mesmas juntamente com as obras privadas da Vale. Já
ficariam aí questões do passado recente
relacionadas à liberação do licenciamento
prévio do empreendimento que necessitariam de esclarecimentos,
quem diria as irregularidades mais recentes praticadas
na licença de instalação das obras,
quando houve supressão e omissão de dados
técnicos relevantes do Plano de Recuperação
de Áreas Degradadas – PRAD original, e a
utilização indevida de chancela profissional
em planos modificados sem autorização expressa
dos autores visando à obtenção da
licença de instalação do Projeto
Bauxita, e ao mesmo tempo eximir-se de obrigações
legais com o Estado, e poder continuar agindo de forma
‘voluntária’ como faz até a
atualidade.
O segundo episódio do mesmo tipo
de promiscuidade a servir de alerta foi publicado no site
da Associação Brasileira do Ministério
Público de Meio Ambiente, em 10/10/2007, sobre
a construção da usina termelétrica
(UTE) da Vale em Barcarena: Além da empresa não
ter apresentado alternativas tecnológicas de fontes
de energia que se confrontem ao uso do carvão mineral;
a análise de todas as opções de tratamento
e destinação final de rejeitos; as informações
sobre a concessão necessária para o uso
de recursos hídricos, havendo também a necessidade
de revisão da lista de impactos sócio-ambientais
incluindo impactos sobre as contas públicas, comunidades
diretamente atingidas e o patrimônio arqueológico;
a Vale incluiu no estudo e relatório de impacto
ambiental o nome de pesquisadores ligados ao Museu, apresentando
a instituição como co-autora das pesquisas
da UTE. O fato foi questionado pelo MP à direção
do Emilio Goeldi, cuja resposta afirma que em momento
algum a instituição teve esse tipo de participação.
(http://www.abrampa.org.br/novidades_noticias_detalhe.asp?idNoticia=2534).
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