Lavagem Verde...
sexta-feira, 01/08/08 - 07h15
Belém - Pará - Amazônia
- Brasil
por Nelson Tembra
Em uma sociedade cada vez mais consciente
do seu próprio impacto negativo sobre o meio ambiente,
não é surpresa que muitas empresas ou corporações
disputem aprovação do consumidor promovendo-se
como ambientalmente corretas ou ‘verdes’.
Tais ‘promoções’ vão
do simples uso embalagens com logos ecológicos,
aos mais abrangentes, como a publicidade de investimentos
em novas tecnologias ou em ‘ações
sociais’. As organizações gastam bilhões
de dólares, todos os anos, em uma tentativa de
convencer os consumidores de que suas operações
têm um impacto mínimo no ambiente. Mas podemos
acreditar nas propagandas? Quanto desse ‘marketing
ecológico’ não passa de ‘‘lavagem
ambiental’?
O termo ‘greenwashing’ é
uma versão ambiental de ‘lavagem de dinheiro’
ou ‘branqueamento de capitais’ ou ‘whitewashing’
-- a tentativa de encobrir erros com indicações
falsas ou apresentação tendenciosa de informações.
Enquanto o termo ‘lavagem verde’ surgiu por
volta dos anos 90 a prática em si data desde meados
da década de 60, quando as corporações
já se esforçavam para melhorar a imagem
pública à luz do emergente movimento ambientalista
moderno. Agora, mais do que sempre, é grande o
interesse das mega-companhias venderem uma imagem ambientalmente
correta.
Mas, como com todas as formas de propaganda
e imaginação pública, inevitavelmente,
surgem questionamentos relativos à validez das
propagandas ambientais de certas companhias. As preocupações
dessas empresas com o meio ambiente seriam tão
genuínas quanto os anúncios milionários
fazem isto parecer?
Rogério Ruschel, editor da revista
eletrônica ‘Business do Bem’, sintetizou
muito bem ‘Os 6 pecados do greenwashing’,
tema sobre o qual existe vasta bibliografia disponível,
principalmente em Inglês. Greenwashing, em síntese,
é a apresentação inexistente ou inadequada
de benefícios ambientais ou socioambientais apresentados
por empresas, serviços ou produtos.
Recente estudo realizado com 1.758 promessas
encontradas nas embalagens de 1.018 produtos disponíveis
no mercado dos Estados Unidos revela os seis principais
pecados do ‘greenwashing’. São eles:
Os Malefícios esquecidos - O principal
pecado encontrado na pesquisa, presente em 56% dos produtos
pesquisados, se caracteriza pelo fato do produto destacar
apenas um benefício ambiental e ‘esquecer’
os malefícios. Exemplos: O produto é reciclável,
mas consome muita energia e água para ser produzido;
ou o produto é feito sem teste em animais, mas
sua decomposição natural pode prejudicar
a cadeia alimentar natural.
A Falta de Provas - Representando 26%
das promessas encontradas, é utilizado por produtos
que anunciam benefícios ambientais sem comprovação
científica ou certificação respeitável.
Nesta categoria são encontrados xampus não
testados em animais, produtos de papel com uso de material
reciclado, lâmpadas com maior eficiência energética
– todos sem comprovação dos argumentos
disponibilizados ao consumidor.
A Promessa Vaga - Entre as promessas
vagas encontradas em 11% dos produtos pesquisados estão
produtos ‘não-tóxicos’, e sabemos
que qualquer produto em excesso pode intoxicar uma pessoa;
produtos ‘livres de produtos químicos’,
o que é impossível, porque todos os insumos
de todos os produtos contêm elementos químicos
na composição; ‘100% natural’
(urânio, arsênico e outros venenos também
são ‘naturais’); ‘ambientalmente
produzido’, ‘verde’, ‘conscientemente
ecológico’, todas são promessas 100%
vagas. E estamos falando de embalagens – imagine
aqui no Brasil as promessas vagas que vimos diariamente
na propaganda milionária subliminar. Imagine aqui
na Amazônia.
A Irrelevância - O pecado encontrado
em 4% dos produtos pesquisados se caracteriza por destacar
um benefício que pode ser verdadeiro, mas não
é relevante. A mais irrelevante das promessas foi
a relacionada ao CFC, banido do mercado norte-americano
nos anos 70: inseticidas, lubrificantes, espumas de barba,
limpadores de janelas e desinfetantes, por exemplo, todos
livres de CFC. A promessa é irrelevante porque
se não fossem livres de CFC estes produtos não
teriam licença para estar à venda no mercado.
A Mentira - Encontrado em 1% dos produtos,
é simplesmente uma giga-mentira deslavada.
Os Dois Demônios - Encontrado em
1% dos produtos, são benefícios verdadeiros,
mas aplicados em produtos cuja categoria inteira tem sua
existência questionada, como cigarros, inseticidas
ou herbicidas orgânicos.
O Greenwashing brasileiro ou tupiniquim
- Este tipo de pesquisa de análise de promessas
de sustentabilidade socioambiental nas embalagens de produtos,
infelizmente, ainda não foi feito no Brasil. Na
verdade, sequer temos condições de avaliar
o greenwashing na propaganda comercial ou na cobertura
jornalística, segmentos momentaneamente sem metodologias
para fazê-lo. Muitos devem conhecer promessas publicitárias
‘vazias’ feitas por grandes anunciantes que
falam mais do que fazem, digamos assim, grandes clássicos
do greenwashing publicitário. Vou dar uma dica:
a palavra-chave é minério.. Não é
eticamente correta uma empresa investir até 3 vezes
mais, para comunicar determinado projeto socioambiental,
do que com o projeto socioambiental propriamente dito,
portanto, os critérios de conceituação
e definição de greenwashing devem ser urgentemente,
e cada vez mais, iniciativas do Estado, do Setor Produtivo
e da Sociedade.
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