Tudo dominado?
nem tudo...
segunda-feira, 03/11/08 - 12h56
Com a Usina Termo Elétrica (UTE)
de Barcarena a Vale pretende gerar 600 megawatts (MW)
de energia por ano. A metade seria utilizada pela empresa
e o restante disponibilizado pelo sistema de distribuição
interligado da região Norte, com investimento total
estimado em US$ 800 milhões e emprego do combustível
carvão mineral que seria trazido ainda nem se sabe
bem de onde, se da Colômbia ou Moçambique,
para diversificar a matriz energética, em razão
da necessidade de garantir ‘segurança no
fornecimento de energia’.
Em que pesem as recomendações
no Parecer do Ministério Público do Estado
do Pará (MPE), assinado pelos Promotores Raimundo
de Jesus Coelho de Moraes e Nilton Gurjão das Chagas,
a licença prévia (LP) foi aprovada pelo
Conselho Estadual de Meio Ambiente (Coema), no último
dia 22 de outubro, por 11 votos a favor e 2 contrários,
sob protestos apenas dos representantes do MPE e da Federação
dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri).
O MPE votou pelo indeferimento da licença
prévia, com Parecer fundamentado em 44 páginas,
pois o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado pela
Vale à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema/Pa)
não apresentou fontes alternativas para se contrapor
ao carvão mineral (como o carvão vegetal,
por exemplo), bem como, não contemplou todas as
medidas sociais, ambientais e de segurança que
um projeto da complexidade da UTE de Barcarena exige restando
não comprovada a sua viabilidade ambiental’.
Haveria ainda a necessidade de revisão
da lista de impactos sócio-ambientais, incluindo
impactos sobre as contas públicas, as comunidades
diretamente atingidas e o patrimônio arqueológico.
Na reunião do Coema, anterior
à aprovação da LP, enquanto o MPE
requeria vistas do processo, os representantes da Ordem
dos Advogados do Brasil (OAB-PA) e da Federação
da Agricultura do Estado do Pará (Faepa) antecipavam
seus votos a favor da concessão da licença,
por entenderem que os aspectos socioambientais estivessem
‘dentro dos padrões exigidos na legislação
brasileira e até internacional’.
O Secretário de Meio Ambiente
do Estado, Walmir Ortega, afirmou estar absolutamente
seguro quanto à viabilidade ambiental do empreendimento,
pois ‘entre os critérios de padrões
adotados nas análises estão referências
de níveis de emissões atmosféricas
do Banco Mundial e do Conama’.
Uma das preocupações da
Sema e dos Conselheiros do Coema seria o destino das cinzas
resultantes da operação da usina, que aumentam
as chances de poluição do ar. Segundo divulgado
na imprensa, a Sema não teria aceitado a instalação
de um pátio de cinzas na planta do empreendimento,
como previa o projeto original da Vale, e, após
longas negociações ficou decidido que o
carvão e o gesso seriam aproveitados por uma fábrica
de cimento com filial no Estado.
De acordo com a Vale, a tecnologia limpa
seria um dos fortes diferenciais do projeto. A UTE utilizaria
alta tecnologia, com destaque para dois equipamentos:
o precipitador eletrostático e o dessulfurizador,
que reduzem as emissões com eficiência de
99,3% e 90%, respectivamente. Mas dizendo de outro modo,
o nível de contaminação real seria
na faixa de 0,7% a 10,0% do volume total de poluentes,
e isso não representaria pouca coisa.
O impacto radiológico resultante
da queima do carvão mineral para gerar energia
elétrica é velha preocupação
na Europa, e é séria a avaliação
feita no Reino Unido, pelo National Radiological Protection
Board (NRPB), considerando a liberação de
cinzas e radônio para a atmosfera, o descarte de
cinzas e o uso desse material como subproduto industrial
entre outros.
Os resultados indicam que as exposições
mais elevadas resultam exatamente do emprego das cinzas
na construção civil e a liberação
na atmosfera contamina a vegetação local.
Pesquisas demonstram que entre as indústrias
em que os problemas de exposição à
radiação podem ser mais significativos,
destacam-se as do ciclo de lavra e beneficiamento de minerais,
como o carvão mineral, que ao se formarem, incorporaram
urânio e tório em proporções
superiores à média da crosta terrestre.
A extração e o processamento
industrial, através de combustão, alteram
as condições físico-químicas
que esses materiais apresentam na natureza, o que pode
levar ao lançamento de parcelas significativas
dos isótopos radioativos no meio ambiente, os quais
reagem com outros elementos da natureza causando a radiação
artificial.
De acordo com o NRPB, o aumento da radioatividade
natural em resíduos sólidos da mineração,
efluentes líquidos e emissões gasosas, e
também em produtos e subprodutos que venham a ser
usados por outros setores industriais, a título
de tratamento de resíduos sólidos importantes,
como as cinzas na construção civil no caso
da fabricação de cimento, pode resultar
em maior exposição de trabalhadores e da
população em geral.
É surpreendente a opção
energética da Vale pelo carvão mineral.
Mais surpreendente é a aprovação
disso pelo Coema, especialmente em uma sociedade cada
vez mais consciente do seu próprio impacto negativo
sobre o meio ambiente e em um momento em que o próprio
poder público e muitas empresas disputam aprovação
promovendo-se como ambientalmente corretas, indo do simples
uso de embalagens com logos ecológicos à
publicidade de investimentos em novas tecnologias ou em
ações sociais.
É surpreendente a opção
pelo carvão mineral no momento em que o reflorestamento
de áreas degradadas é tema central de muitos
seminários em várias esferas, inclusive
na própria Fiepa, que também tem assento
no Coema, mas votou favoravelmente pela usina a carvão
mineral; e posteriormente é divulgado, no dito
seminário, que uma das soluções mais
práticas e eficientes para a produção
de energia renovável e sustentável seria
as chamadas 'Florestas Energéticas', plantadas
com espécies de rápido crescimento. Essa
prática visaria não só diminuir a
pressão sobre as florestas nativas para a produção
de energia, devido às nossas condições
favoráveis de clima e solo, sem mencionar o seqüestro
de carbono, que contribuiria na redução
do aquecimento global.
É surpreendente que o reflorestamento
seja considerado uma grande oportunidade de negócios,
dada importância que a questão ecológica
alcança em nível mundial. É surpreendente
que o apelo ambiental tenha surgido para se contrapor
às práticas culturalmente estabelecidas
de degradação, sendo perfeitamente possível,
ao mesmo tempo, recuperar áreas degradadas, gerar
emprego e renda, aumentar a circulação de
impostos e garantir o fornecimento de matéria-prima
renovável, melhorando a qualidade de vida das populações
e diminuindo as mazelas sociais nas áreas de influência
dos projetos.
É surpreendente que muitas organizações
continuem gastando bilhões de dólares, todos
os anos, para convencer que suas operações
têm um impacto mínimo no ambiente. Quem iria
comprar ou utilizar, por exemplo, o cimento potencialmente
radioativo, a ser produzido por uma empresa diferente
da Vale, com os milhões de metros cúbicos
de cinzas a serem produzidas na UTE de Barcarena? Haveria
um selo de ‘produto ecológico ou ambientalmente
correto da Amazônia’? Quem teria a responsabilidade
pelos eventuais impactos radioativos e demais danos do
uso desse produto na construção civil?
Não é mera coincidência
que, em plena crise global, com governos e mercados preocupados
com uma possível recessão mundial, cientistas
defendam que a busca por crescimento econômico esteja
matando o planeta e precise ser revista, e se for para
levarmos a sério as tentativas de salvar o planeta,
temos que remodelar nossa economia.
O grande problema na equação
do crescimento econômico está no fato de
que, enquanto a economia busca um crescimento infinito,
os recursos naturais da Terra são limitados. A
Terra não está conseguindo sustentar a economia
existente, muito menos uma que continue crescendo. O fato
de o nosso sistema econômico ser baseado na busca
do crescimento acima de tudo faz com que o mundo esteja
caminhando para um desastre ecológico e também
econômico, dadas às limitações
desses recursos. Para evitar este desastre precisamos
mudar nosso foco do crescimento quantitativo para um desenvolvimento
qualitativo e impor limites nas taxas de consumo dos recursos
naturais da Terra.
Um levantamento feito pela Comissão
Econômica Para a América Latina e Caribe
constatou que 72,9% das exportações realizadas
na América Latina, com exceção do
México, envolvem produtos primários, como
petróleo, minério de ferro etc. Com a queda
das commodities o efeito entre países como Venezuela,
Bolívia e Brasil, por exemplo, levaria estes países
a uma crise de grandes proporções.
Em função da profunda adaptação
aos especuladores financeiros, foi liquidada uma boa parte
da indústria nacional, transformando a economia
brasileira em muito mais dependente da exportação
de commodities, em particular do minério de ferro
extraído pela privatizada Vale do Rio Doce, ao
mesmo tempo em que se buscava sustentação
ao movimento geral da economia sobre o capital especulativo.
Agora, o país enfrenta a perspectiva da fuga de
capitais e queda nos preços de commodities, ameaçando
com a falência do Estado e a falta de capitais.
Apesar da divulgação, nos
jornais da semana passada, que a Vale pairava sobre a
crise internacional, com lucros bilionários no
último trimestre, e que os investimentos já
anunciados no Brasil, particularmente no Pará,
seriam mantidos, a empresa começa a anunciar medidas
visando adequação ao cenário global
de desaceleração, paralisando ou reduzindo
alguns de seus sistemas de produção em todo
o mundo, inclusive deixando de utilizar energia de geração
termoelétrica de custo elevado na Indonésia,
já admitindo que se encontre ‘no olho do
furacão’.
Pode ser que a UTE de Barcarena espere
além do programado para iniciar as operações,
e possivelmente, contribuir para o aquecimento global,
lançando abruptamente de volta na atmosfera tudo
que a natureza levou milhares de anos para absorver e
acumular no subsolo da Colômbia e Moçambique,
na forma de carvão mineral. Mas não haveria
demora naquilo que dependesse exclusivamente de conselheiros
do Coema do Pará. Seja como for, o meio ambiente
e as populações locais afetadas agradecem
à crise financeira internacional, pelo menos, por
enquanto, pois assim poderá haver tempo suficiente
para reestruturar o projeto em bases renováveis.
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