Basta olhar
e refletir no espelho...
domingo, 03/05/09 – 17h50
Após repercussão na mídia
do vazamento de resíduos tóxicos das bacias
de rejeitos da Alunorte, ocorrido no último 27
de abril, no Rio Murucupi, no município de Barcarena,
Estado do Pará, já seria de se esperar o
início imediato da campanha publicitária
que foi noticiada na edição deste domingo
(03 de maio), naquele periódico paraense que traz
implícito no nome o sentido de livre de fanatismo
ou de intolerância, de mente aberta e moderadamente
progressista, generoso e relativo ao liberalismo.
De acordo com a notícia, uma nova
série de fascículos, a terceira do gênero,
com patrocínio da Vale do Rio Doce, é lógico,
em papel especial, apresentará ‘novidades’
e nos mergulhará em ‘desafios da Amazônia’,
pondo a região em debate e ‘ajudando a entender
os entraves ao desenvolvimento’, prometendo aos
leitores amplo conhecimento sobre mais diversos temas
em uma das regiões mais cobiçadas do planeta,
e bota cobiçada nisso...
Para quem ficou com gosto de ‘quero
mais’ depois do último fascículo da
segunda série, que tratou do futuro da Amazônia
frente ao efeito estufa, já fica o indicativo do
que será a nova edição, considerando
que a Vale insiste em trilhar caminho inverso ao dos países
desenvolvidos, ao requerer licença ambiental para
implantar uma usina termelétrica movida a carvão
mineral em Barcarena, mostrando a contradição
entre o discurso e a prática, posto que o carvão
mineral seja reconhecido como altamente poluente e a sua
combustão contribui para elevar o aquecimento global,
dentre outros danos ambientais à saúde humana.
A nova série de ‘Amazônia’
também pretende ‘desmistificar’ o discurso
de que estudiosos que vivem na região não
conhecem ou não sabem falar de sua terra, e que
a coleção ‘é uma prova de que
temos intelectuais competentes, que produziram e produzem
muito conhecimento acerca da realidade amazônica’.
Pergunto quem disse ou pensou o contrário? Só
se foram eles próprios! Dispomos sim, de importantes
Instituições de Ensino e Pesquisa e nem
é preciso declinar os nomes.
Sinceramente, não sei se choramos
de felicidade ou rimos de tristeza, centrados nos povos
da Amazônia, vítimas freqüentes de esquecimento
e discriminação, graves conflitos, de violência
e sangue, e nos problemas da ocupação da
terra e da exploração dos recursos naturais,
onde, muitas vezes, ou quase sempre impera a lei da selva,
a lei do mais forte, devido ausência ou ineficiência
do Estado e suas Instituições.
Devemos questionar esta visão
elitista, que olha a Amazônia como um saco de onde
só se retira riquezas e onde ações
bem intencionadas e até românticas podem
servir para ocultar uma verdadeira tentativa de sabotagem
das reais perspectivas de progresso de uma sociedade.
Considerada, pela base da Igreja e Movimentos
Sociais um dos principais vetores de desmatamento da Amazônia
e co-responsável por crimes como o trabalho escravo
e prostituição infantil, a Vale segue patrocinando
divulgações ‘especializadas’,
milimétricamente encomendadas. O mais grave, segundo
os movimentos, a Companhia Vale do Rio Doce seria uma
das principais responsáveis pela destruição
ambiental e por conflitos com as populações
tradicionais da Amazônia.
A Vale viabilizou a construção
de uma série de siderúrgicas que utilizam
(ou utilizavam) o carvão vegetal para a produção
do ferro-gusa. Segundo o cálculo de ambientalistas
e de outros estudiosos, foram praticamente 300 mil hectares
de floresta primária que, a cada ano, foram destruídos
para a produção de carvão. Algumas
dessas siderúrgicas, na região de Marabá
(Pa), já foram flagradas e multadas pela fiscalização
do Ministério do Trabalho por manter centenas de
trabalhadores como escravos em suas carvoarias, inclusive
crianças, apenas para citar um exemplo entre muitos.
Como é possível uma empresa
como esta chamar a atenção para a defesa
e a preservação do meio ambiente e para
a valorização das comunidades e povos tradicionais
da Amazônia? E a legitimidade para pautar um debate
sobre os grandes problemas da região e suas origens?
Quais os entraves para o desenvolvimento amazônico
e as estratégias de crescimento? Basta olhar e
refletir no espelho...
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