Cratocentrismo
verde, Crematocentrismo amarelo, ou Cratocrematocentrismo
cada vez mais verde e amarelo?
quinta-feira, 10/12/09 - 18h10
A questão mais imediata do meio
ambiente é a falta de ética. Isto não
é de hoje, não é exclusividade de
certos projetos na Amazônia e na prática
não é para qualquer um...
Para não dizerem que só
ilustro como maus exemplos em meus artigos os projetos
da Vale do Rio Doce, trago para reflexão e análise
o exemplo bibliográfico oportuno, do final da década
de 90, bastante didático e representativo do “modus
operandi” habitual, citado por Vicente Rahn Medaglia
em Sinópse da Filosofia do Meio Ambiente.
Esses conceitos estão presentes
em se analisando um caso que ficou conhecido como mais
um crime ambiental: a Hidrelétrica de Barra Grande,
situada no Rio Pelotas, divisa com o estado de Santa Catarina.
Mais de 5.000ha de mata nativa foram sacrificados em nome
de geração de energia. Essa mata teria um
potencial de serviços ambientais, como captação
de CO2, regulação do clima, regulação
dos ciclos hidrológicos, etc., perdido para sempre.
Para a construção da Usina
Hidrelétrica de Barra Grande foi feito “como
manda a lei”, um Estudo de Impacto Ambiental. O
EIA foi elaborado por uma empresa, que, surpreendentemente,
mentiu sobre a composição vegetal da área
submersa pela barragem. No EIA foi dito que a área
comportava somente capoeiras e capoeirões, estágios
de sucessão ecológica que não são
protegidos por lei. Ocorre que, de fato, metade da área
era composta por vegetação primária,
ou seja, que nunca havia sido derrubada pelo homem ou
áreas em que se encontrava em estágio avançado
de regeneração. Como sabemos, essas duas
últimas formações são protegidas
por lei, mas o IBAMA, órgão responsável
por vistoriar o estudo e verificar se ele estava correto,
não apurou essas irregularidades.
O Ministério de Minas e Energia
comemorou mais essa mega-hidrelétrica como mais
uma obra que aceleraria o crescimento econômico
do país, mas não o desenvolvimento social.
De fato, a construção dessa hidrelétrica,
como todas as demais, só foi possibilitada pela
alegação, por parte do poder público,
de que ela era de “interesse público”.
Esse exemplo nos fornece elementos para
que tenhamos uma idéia superficial sobre de que
forma os conceitos filosóficos se aplicariam. Em
primeiro lugar, tentemos identificar a cadeia de ações
que aí está envolvida. Essa cadeia é
estabelecida simplesmente perguntando-se o porquê
de cada ação. Então, começando
pelo fato “foi construída uma usina hidrelétrica
que irá inundar uma grande floresta”. Por
quê? “Pois se considera que a energia elétrica
gerada é importante”. Por quê? “Pois
com energia elétrica a economia do país
pode crescer, e o crescimento econômico é
algo importante”. Por quê? “Pois crescendo
a economia, o país tem mais dinheiro, e ter dinheiro
é importante” Por quê? “Pois
dinheiro traz felicidade”. Em se chegando nesse
ponto, não cabe mais perguntar ‘Por quê?’.
Não faz sentido perguntar por que se quer ser feliz.
O que se pode perguntar é o que é e a quem
pertence a tal felicidade, já que é isso
que determina toda a escala de valores. Em se assumindo
que o dinheiro traz felicidade, fica então justificada
a ação da construção da barragem.
Passemos ao modelo de felicidade presente
na cadeia de justificativas apresentada. Em primeiro lugar,
cabe notar que é conseqüência direta
da construção da barragem a inundação
de 5.000ha de mata considerados como área prioritária
para conservação pelo próprio Ministério
do Meio Ambiente. Assim, seja qual a justificativa dada
ao empreendimento, ela deve contemplar esse fato.
Perguntemos quem é que ganha dinheiro
com esse empreendimento. Pode-se considerar que são
os trabalhadores da obra, mas o dinheiro que eles ganham
é pouco. Quem de fato ganha dinheiro às
claras são os acionistas, já que a barragem
é um empreendimento totalmente privado. Poder-se-ia
dizer que isso representa somente a contraparte da geração
de energia, que é considerada igualmente um bem
que contribui para a felicidade dos cidadãos que
teriam energia em suas casas. Mas isso tampouco é
o caso, já que a hidrelétrica foi construída
por grupos industriais de produtos eletro intensivos,
como alumínio (da Alcoa – Aluminium Company
of America – com metade das ações
do empreendimento), cimento e celulose (da Votorantin,
também acionista), entre outros grupos. Essa hidrelétrica
se coloca em um contexto de auto-geração,
ou seja, os produtos dessas fábricas necessitam
de muita energia e são muito rentáveis,
logo, é ótimo negócio construírem
suas próprias hidrelétricas.
Colocados esses pontos, a justificativa
ética da obra ficaria mais complicada, já
que, para tanto, o sistema de valores assumido deveria
considerar lícito sacrificar um bem público,
o meio ambiente, em nome de um bem privado, o lucro de
algumas megacorporações multinacionais.
Isso só seria factível se assumíssemos
que o correto é que quem pode mais, ou quem possui
mais poder, use todos os meios que considere cabíveis,
possíveis, impossíveis, imagináveis
e inimagináveis para perseguir seus interesses,
doa a quem doer. Como poderíamos denominar essa
posição? “Cratocentrismo” verde
(do grego krátos, “força”),
ou “Crematocentrismo” amarelo (do grego chrémata,
“dinheiro”), ou simplesmente “Cratocrematocentrismo”
cada vez mais verde e amarelo?
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