Na Amazônia,
desmatamento e pobreza não são casualidades,
nem fatalidades...
sábado, 17/01/09 - 11h30
Ao aproximar-se a realização
do Forum Social Mundial em Belém, basta conferir
as tonelagens métricas e as cifras envolvidas na
exploração mineral em uma das maiores províncias
minerais do planeta, e analisar a síntese do geógrafo
Aziz Ab´Saber sobre a região de Carajás,
que abrange o Sudeste do Pará, o Oeste Maranhense
e o Norte de Tocantins, para concluir que a pobreza e
o desmatamento na Amazônia, particularmente no Estado
do Pará, não são fatalidades nem
casualidades.
"Para se compreender o que se passa
com a região de Carajás é necessário
observar a ótica dos empresários siderúrgicos
e acompanhar o seu clássico raciocínio de
viabilidade econômica e técnica de projetos
mínero-metalúrgicos em regiões de
baixo padrão de desenvolvimento social. Tudo é
computável no balanço das viabilidades,
menos os custos ambientais ou os impactos sociais negativos",
afirma o cientista no artigo "Gênese de uma
nova região siderúrgica: acentos e distorções
de origem na faixa Carajás/São Luís",
elaborado em 1987, por solicitação da estatal
Companhia Vale do Rio Doce.
O alerta do aquecimento global, principalmente
após os relatórios do Painel Intergovernamental
de Mudanças Climáticas (IPCC), mostram a
importância de se compreender com mais exatidão
o que acontece em áreas especiais da Amazônia.
É necessário modificar
o quadro em que uma região rica em biodiversidade
e conhecimento de populações tradicionais
da Floresta Amazônica, contendo gigantescas reservas
minerais e repletas de assentamentos da reforma agrária
apresentam níveis de pobreza e índices de
desmatamento tão elevados. Quais serão as
propostas governamentais e da sociedade civil para a região?
Como garantir melhores condições de vida
aos habitantes e aos que continuam migrando para a região,
atraídos pela esperança de melhores condições
de vida?
Desde o início da jornada nacional
de lutas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST), milhares de famílias ligadas à organização
passaram a ocupar, já por algumas vezes, a Estrada
de Ferro Carajás – EFC, na região
de Parauapebas, Estado do Pará. De acordo com lideranças
do MST, o modelo econômico praticado na região
está fundado na "exploração
até o limite do intolerável da nossa biodiversidade
e do nosso povo" e a Vale "é uma das
principais responsáveis por esse modelo".
Oito municípios da região
sobrevivem dos royalties da exploração mineral.
Dos últimos eventos minerais descobertos, 70% estão
no Pará. Todos esses eventos culminam na Vale.
Discutir mineração hoje é discutir
o modelo Vale do Rio Doce. Há muitas glebas de
reforma agrária no Sul e Sudeste do Pará,
mas o modelo se encontra em crise.
O paradigma da pequena propriedade foi
mantido para os assentados. O Estado não oferece
e nem propõe incentivos, especialmente crédito
e assistência técnica para um modelo mais
adaptado à realidade do bioma amazônico,
de forma satisfatória. E o pior: nos documentos
públicos divulgados, quando das ocupações
realizadas, o MST critica a falta de investimentos da
Vale na infra-estrutura social da região, posto
que a companhia não paga tributos para exportar
por determinação da Lei Kandir. Um dos pontos
centrais da pauta dos camponeses é o aumento de
2% da alíquota da Contribuição Financeira
pela Exploração Mineral (CFEM), cobrados
sobre o faturamento líquido, para até 6%.
Além disso, por outro lado, de
acordo com as convenções nacionais vigentes,
quanto maior a utilização dos recursos naturais,
maior será o crescimento do Produto Interno Bruto
(PIB). Mas não são levadas em conta as perdas
de ativos não-produzidos, ou não-renováveis,
decorrentes da exaustão. Em suma, o modelo atualmente
adotado pelos Sistemas de Contas Nacionais dá ênfase
à determinação do nível corrente
da atividade, mas não apresenta soluções
satisfatórias para conter a exaustão ou
contínua degradação dos recursos
naturais ao longo do tempo.
Um exemplo claro da “despreocupação”
com as perdas de recursos naturais é o que ocorre
no tratamento dispensado à extração
de recursos minerais. A estimativa do valor adicionado
para essa atividade é obtida pela diferença
entre o valor bruto da produção e o consumo
intermediário, que leva em consideração
despesas com insumos e operações industriais
e outras despesas correntes como impostos, taxas, royalties
e outras compensações que não envolvem
o pagamento das rendas primárias.
O valor adicionado é distribuído
entre remunerações a empregados e excedente
operacional. Ou seja, o excedente da extração
mineral equivale à diferença, na ‘boca
da mina’, do valor de venda do minério menos
os custos correntes de extração; porém,
a extração de minério implica na
diminuição do estoque de ativos não
produzidos ou de estoques ambientais. Por fim, o valor
monetário dessas perdas acaba embutido na receita
do minerador, mas não deveria fazer parte da sua
renda. Lamentavelmente, nenhum esforço é
feito para retirar do excedente o valor econômico
das perdas, o que contabilmente equivale ao absurdo de
considerar inalterados os estoques das reservas minerais
mesmo após a extração.
O MST exige um programa social de caráter
emergencial, em parceria da Vale com os governos federal,
estadual e municipal para a construção de
moradias populares, postos de saúde, hospitais
regionais e de um amplo programa de educação
para a erradicação do analfabetismo e garantia
de acesso à universidade publica gratuita e de
qualidade.
Pede ainda a instalação
de unidades produtivas e programas que garantam a geração
de mais empregos, renda e diversificação
da economia no campo e na cidade; a construção
de escolas técnicas profissionalizantes que os
atenda nas áreas da agricultura, da indústria
e do comércio; o repasse sistemático de
recursos dos acordos estabelecidos entre a Vale e as comunidades
indígenas impactadas; e a definição
de uma agenda para discussão dos projetos minerais
da companhia com os movimentos sociais.
A lista de reivindicações,
conforme divulga a companhia em notas públicas,
"não guarda qualquer relação
com a Vale" e cabe aos governos estadual e federal
a condução do processo de negociação
com os sem-terra. "A Vale reafirma seu repúdio
a este tipo de prática criminosa, que vem sendo
repetidamente usada pelos integrantes do MST, que novamente
põem risco a segurança de nossos empregados,
a livre circulação do trem de passageiros,
bem como o abastecimento de combustível para os
municípios do Sudeste do Pará, que têm
na EFC sua principal rota de transporte", adiciona
o comunicado empresarial, que lamenta a "surpreendente"
interrupção por parte do MST das conversações
com autoridades federais e estaduais.
Outro exemplo: em outubro de 2006, as
minas de Carajás foram ocupadas pelos índios
Xicrin, das aldeias Catete e Djudjekô, depois que
a Vale impôs um novo acordo de compensação
financeira aos povos locais. A ineficiência do modelo
de gestão dos recursos fora utilizada pela empresa
para propor a redução do repasse anual de
cerca de R$ 9 milhões, equivalente ao recurso extraído
em apenas algumas horas de atividade das minas de Carajás,
destinada diretamente aos índios, que vinha sendo
realizado desde 1989.
Decisões da Justiça do
Pará e ações protocoladas pelo Ministério
Público Federal (MPF) e pela Fundação
Nacional do Índio (FUNAI) determinaram o pagamento
aos indígenas e a realização de um
diagnóstico etno-ambiental da comunidade para posterior
implantação de um conselho institucional
de gestão com participação dos Xikrin.
A última das decisões, assinada pelo juiz
federal de Marabá, Carlos Haddad, designou a empresa
a assumir os investimentos de R$ 1,34 milhão de
projetos apresentados pela FUNAI para custear a infra-estrutura
de uma nova aldeia Xikrin, incluindo posto de saúde,
sistema de abastecimento de água e uma pista de
pouso.
A Vale recorreu do despacho sob a justificativa
de que o "Convênio/Termos de Compromissos entre
a Companhia e os índios foram validamente rescindidos
em 31 de outubro de 2006, diante da ocupação
dos índios das instalações da companhia
em Carajás, e que a empresa não poderia
ser obrigada a "assumir responsabilidades primárias
do poder público". A Vale apresentou até
uma denúncia, no mínimo curiosa, contra
o governo brasileiro na Comissão Interamericana
de Direitos Humanos da Organização dos Estados
Americanos (OEA) pela “ausência de políticas
indigenistas”.
Enquanto isso, os números divulgados
nos balanços da Vale mostram aumentos de dezenas
de milhões de dólares nos gastos com publicidade
e propaganda, para demonstrar que são ambientalmente
corretos. Os lucros líquidos da empresa são
de bilhões de dólares, praticamente o dobro
do que compõem todo o Produto Interno Bruto do
Pará, 13ª economia do País na divisão
por estados.
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