O descobrimento
do pau-brasil
domingo, 03/05/09 – 10h05
Em 3 de maio comemora-se o dia da árvore
que dá nome ao país. Apesar do desmatamento
secular, projetos recentes persistem na luta pela sobrevivência
da espécie
Nas terras do país que ostenta
uma vasta pauta de exportações de matérias-primas,
um produto bem menos abundante, mas igualmente apreciado,
reclama socorro. E já há alguns séculos.
O pau-brasil foi, a rigor, o primeiro item vendido ao
exterior pelo Brasil - e não foi apenas o nome
que se subtraiu da árvore.
Espécie típica da Mata
Atlântica, com ocorrência do Rio Grande do
Norte a São Paulo, sua extração foi
favorecida pela localização das florestas
junto ao litoral. Rapidamente, ainda nos anos de 1500,
os colonizadores portugueses descobriram a vocação
do pau-brasil (ou ibirapitanga, em tupi-guarani) para
o tingimento de tecidos, pela presença de um corante
avermelhado chamado 'brasilina'. O comércio manteve-se
lucrativo até meados do século XIX, quando
foi progressivamente substituído por corantes sintéticos.
Mas, pouco antes, por volta de 1750,
um novo destino foi dado à madeira: a confecção
de arcos de violino. A atividade atravessou gerações
e chegou aos dias atuais: os músicos a consideram
matéria-prima única para esse instrumento
musical, conferindo-lhe altíssima flexibilidade.
A boa fama no ramo musical fez prosseguir,
ano após ano, a dilapidação da árvore
nas matas brasileiras. 'O pau-brasil tem um histórico
de exploração intenso, que ainda não
acabou', afirma José Humberto Chaves, coordenador-geral
de autorização do uso da flora e florestas
do Ibama - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis. Hoje, restam poucos
exemplares da espécie, principalmente no sul da
Bahia, onde já foram identificadas quase duas mil
árvores, e no norte do Espírito Santo.
Por isso, desde 1994, o pau-brasil consta
oficialmente da lista de plantas ameaçadas de extinção
no país. Em 2007, porém, o Brasil deu um
passo importante para a preservação da planta:
conseguiu incluí-la na Cites - Convenção
sobre o Comércio Internacional de Espécies
Ameaçadas, que estabelece critérios rigorosos
de comercialização. A partir de então,
passou a ser exigida a inspeção da madeira
em todas as transações internacionais. 'Apesar
de ser uma árvore exclusivamente brasileira, a
decisão nos ajuda a combater a venda ilegal', esclarece
o coordenador do Ibama.
Estímulo ao plantio
Curiosamente, a presença do pau-brasil
na Cites estimulou uma iniciativa pioneira dos próprios
usuários da flora. Atentas à crescente dificuldade
para a obtenção da madeira, empresas francesas,
alemãs e norte-americanas de instrumentos musicais
se interessaram em investir no cultivo da espécie.
Assim, procuraram a Ceplac - Comissão Executiva
do Plano da Lavoura Cacaueira para estabelecer um convênio.
A entidade, originariamente ligada ao cacau, conserva
exemplares de pau-brasil há cerca de 40 anos, em
uma área de mil hectares em Porto Seguro, na Bahia
- experiência reforçada na comemoração
dos 500 anos do Brasil, em 2000, quando o governo federal
encomendou à Ceplac o preparo e a distribuição
de 150 mil mudas da árvore no país.
O programa com os estrangeiros, inicialmente
com prazo de cinco anos, teve como objetivo financiar
pesquisas, propagar mudas e dar assistência técnica
aos agricultores, com um aporte de 600 mil reais. 'Grande
parte das mudas foi destinada ao plantio no sistema chamado
'cacau-cabruca', por meio do qual o fruto recebe o sombreamento
de árvores nativas da Mata Atlântica, caso
do pau-brasil', afirma Demósthenes Lordello de
Carvalho, gerente administrativo de pesquisas do setor
de recursos ambientais da Ceplac. O plantio é a
única forma de ter a liberação de
uso do pau-brasil, já que a Lei da Mata Atlântica,
aprovada em 2006, proíbe até mesmo o manejo
sustentado da planta, sem a possibilidade de extração
legal na floresta.
O sucesso foi tão grande, com
a plantação de 131 mil árvores, que
os pesquisadores já trabalham na segunda fase do
projeto. Agora, além do monitoramento do que já
foi cultivado, a Ceplac quer focar na adequação
ambiental da propriedade rural, com atenção
à reserva legal e à APP - Área de
Preservação Permanente. 'Agora, pretendemos
plantar 25 mil exemplares de pau-brasil, um número
menor que na primeira fase, porque a ideia é cuidar
bem do que já está no campo', diz Carvalho.
Pau-Brasil, esse desconhecido
Mas ainda há muito que conhecer
da planta. Segundo gerente da Ceplac, apenas recentemente
é que os pesquisadores descobriram que a árvore
rebrota e que ocorre sempre de forma agregada - ou seja,
ao encontrar um exemplar na mata, com certeza haverá
um outro bem próximo. Sabe-se que o pau-brasil
está apto para a colheita em um período
de 30 a 40 anos, portanto, um investimento de longo prazo.
A espécie pode atingir alturas elevadas - um exemplar
cultivado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro,
por exemplo, possui 25 metros de altura e 60 centímetros
de diâmetro.
O Ibama também realiza um levantamento
para identificar a extensão da procura por pau-brasil.
Dados de 2007 dão conta de que a demanda giraria
em torno de 200 metros cúbicos por ano. 'É
difícil saber com exatidão o tamanho do
mercado, porque grande parte das fábricas cadastradas
opera com estoques antigos da madeira, já que os
instrumentos musicais que fabricam não exigem grande
quantidade da matéria-prima', diz Chaves, do Ibama.
Há ainda um universo de ilegalidade que a entidade
tenta mapear. 'Infelizmente, é muito fácil
burlar a lei: é possível levar uma dezena
de arcos de violino numa mala sem despertar suspeitas,
já que o material não faz muito volume',
explica. |