Terra de
Direitos, de quem?
sábado, 11/04/09 - 18h25
Os jornais deste sábado, 25,
trazem a notícia: ‘Eclusa 2 de Tucuruí
está tomada por manifestantes’. Os ‘invasores’
pertencem a vários movimentos e têm extensa
pauta de negociação buscando solução
para impactos ambientais.
A reportagem informa que o Movimento
dos Atingidos por Barragens adotou nova postura nos últimos
dois anos, unindo forças nas reivindicações
com o MST, FETRAF e outros movimentos. A extensa pauta
une bandeiras de todos os grupos envolvidos na ocupação.
Dentre as queixas dos movimentos sociais
na área de influência do lago de Tucuruí
estão os impactos sofridos devido às atividades
de extração madeireira, carvão vegetal
e exploração de latifúndios, ou seja,
os impactos secundários da colonização
espontânea resultantes da construção.
As lideranças questionam a morosidade
no pagamento de indenizações de famílias
atingidas pela construção das eclusas e
indefinição da prefeitura do município
sobre o terreno para construção de 300 casas
populares e uma feira na área onde será
formado o lago das eclusas.
Este tipo de manifestação
tende a se perpetuar e ser agravada enquanto o governo
não zelar pela correta e eficiente aplicação
das regras relativas ao licenciamento ambiental desses
empreendimentos altamente impactantes, especialmente quanto
aos aspectos sociais e econômicos.
Não estamos ‘requentando’
a matéria. O problema e as suas causas é
que têm sido recorrentes, têm acontecido sem
parar, se repetindo sucessivas vezes em situações
distintas, atravessando a própria história
do Brasil e os governos de diferentes colorações
partidárias ao longo do tempo e sempre envolvendo
mega-projetos infra-estruturais e de exploração
dos recursos naturais, sejam eles renováveis ou
não.
É através dos instrumentos
de controle, ou projetos ambientais, segundo a legislação,
que devem ser previstas e definidas todas as medidas e
ações. E não somente as de compensação,
mas também as de mitigação de impactos
negativos e de incremento dos impactos positivos, definindo-se
principalmente as de natureza socioeconômica e ambiental.
No Pará, o que tem acontecido
é que nem o COEMA, que tem ampla representação
da sociedade civil, e nem a própria população,
nas audiências públicas que antecedem à
conclusão dos estudos, têm tirado proveito
dessas disposições da lei.
Depois, sejam brancos ou índios,
quando buscam compensações, o que buscam
na verdade são direitos inexistentes, pois fora
dos parâmetros que expressamente condicionam o licenciamento
ambiental, toda e qualquer ação da empresa
é considerada “voluntária” e
“de livre iniciativa”. O estado acaba ficando
sem os instrumentos legais de cobrança, quando
poderia vincular a renovação e expedição
de licenças ao cumprimento de justas compensações.
A democracia participativa deveria garantir
seu espaço e estimular a democracia formal a ampliar
a influência da sociedade civil nas decisões
de governo. Essa dinâmica deveria alterar o próprio
significado de “governar”. Surgiria uma nova
perspectiva de tomada de decisão em que os atores
“não-governamentais” passariam a dividir
responsabilidades com os gestores públicos, tomando
parte efetiva no espaço público.
Quem empreende esforços na difícil
tarefa de consolidar a democracia participativa depara-se
com o desafio de conciliar a eficácia das decisões
com a ética democrática. Para tanto, deveria
contar-se com a vontade política dos governantes
de ceder parte do poder e seria esperada dos agentes desses
espaços de participação a capacidade
de aperfeiçoar ao máximo. O desafio seria
tanto o de conquistar o espaço de participação
efetiva, como o de consolidar os modelos de co-gestão
participativa e sustentável, quando esses espaços
públicos fossem apropriados pela população.
O exercício da democracia participativa exige,
porém, esforços coletivos constantes de
todos, sociedade e governo.
Além de mais complexas, as decisões
participativas exigem muito mais trabalho em reuniões,
negociações e organização
de processos do que as decisões centralizadas e
sem participação. Logo, seria importante
que não se desperdiçasse o tempo e a energia
dos participantes nessas reuniões.
Os problemas se refletem na postura de
cada indivíduo nas audiências públicas.
Daí costuma surgir obstáculos para o êxito
da reunião em função da atuação
dos participantes. Diferentes pontos de vista, interesses
e objetivos podem entrar em choque e agravar a situação
se as questões inerentes ao processo não
forem esclarecidas ou negociadas. Diferenças de
formação, de experiência prévia
e de papel institucional de cada participante estabelecem
essa desigualdade. A herança de uma cultura política
clientelista, personalista e autoritarista compromete
a qualidade e a ética da participação.
Tudo isso acaba alimentando alguns “jogos
de poder” que podem ter nenhuma, pouca ou muita
relevância para o processo decisório. O problema
fica mais sério quando esses jogos se sobrepõem
aos objetivos, não só de cada encontro ou
audiência pública, mas do processo participativo
em geral. Com o passar do tempo, o participante de boa
fé começa a ficar descrente do processo
e logo acaba se retirando, frustrado pela sensação
de exclusão e por estar em um espaço em
que reina apenas a disputa do poder. A falta de ética
e de eficácia traz o de esvaziamento do processo,
tanto em quantidade como em qualidade.
É algo que exige esforço
de abertura em relação ao outro, capacidade
de negociação, tolerância, paciência,
agilidade e disciplina, entre outros requisitos. Os grandes
perigos de uma reunião participativa são
os mecanismos autoritários, típicos de uma
cultura política antidemocrática, reproduzidos
em maior ou menor escala pelos participantes, por hábito
ou intencionalmente. É importante saber identificar
esses mecanismos e agir para que os participantes os compreendam
e para que o grupo possa substituí-los por alternativas
democráticas, contrárias da indiferença,
da cena oculta, da disputa retórica, da desfocalização,
da generalização de discurso, da teoria
da conspiração ou síndrome da perseguição.
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