UHE de Belo
Monte revolta indígenas do Pará e Mato Grosso
domingo, 24/01/10 - 13h48
O megaprojeto do governo é “empurrado
goela abaixo” e poderá mudar o modo de vida
de povos indígenas da Amazônia. Mas ninguém
se importa em consultá-los. Para piorar as coisas,
o Ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, aquele
que em época de eleições promove,
facilita ou viabiliza a exportação da pobreza
do Maranhão para o Estado do Pará nos trens
da Vale do Rio Doce, ofendeu os grupos com declarações
no mínimo racistas. Lobão afirmou “que
vê ‘forças demoníacas’
que impedem a construção da hidrelétrica”.
Acho que ele anda lendo os artigos do economista paraense
Armando Soares, semanalmente publicados em espaço
nobre de “O Liberal”.
No dia 28 de outubro de 2009, um encontro
histórico reuniu quinze povos indígenas
no Mato Grosso. Diversos representantes do governo foram
convidados para explicar o projeto e se retratar das declarações
ofensivas. Mas ninguém do governo apareceu. Por
isso a voz dos índios teve que ser levada para
ser ouvida em Brasília.
O projeto de Belo Monte está na
pauta do governo há mais de trinta anos. É
hoje a maior obra do Programa de Aceleração
do Crescimento – PAC, e é uma obra que o
governo quer fazer de qualquer jeito, e está “atropelando”
o processo, dizendo que já está discutindo
isso há muito tempo e o projeto sofreu uma revisão
pelos “Estudos de Impactos Ambientais” que
foram apresentados recentemente, porém a sociedade
ainda não teve tempo de analisar, muito menos os
povos indígenas.
Belo Monte irá desviar 80% do
volume de água do Rio Xingu. Se construída,
esta será a terceira maior hidrelétrica
do Planeta. Vinte mil pessoas serão desalojadas,
enquanto outras cem mil serão atraídas para
a região de Altamira, no Pará, causando
impactos que aparentemente ainda não foram analisados
pelo governo.
Nem o custo da obra é consenso,
os valores oscilam entre 17 e 30 bilhões de reais.
O que é consenso entre o painel de especialistas
de diversas instituições de ensino e pesquisa
é que essa obra deve ser abandonada, por ser um
equivoco de sérias conseqüências ambientais
e sociais.
De acordo com Amiloti Kayapó,
“a FUNAI e o Ministro Edison Lobão não
nos consultou para construir a barragem”. “Então,
por isso, estamos fazendo essa manifestação
contra a construção da barragem”.
“O que nós queremos? Que a mata, as florestas,
a terra, os animais continuem vivos para servir nossa
alimentação”.
“Nós temos filhos, netos,
crianças e adultos e vivemos na floresta, nossa
terra”, diz Iredjo Kayapó, “precisamos
da floresta para nos alimentar. Por isso, eu, como mulher,
estou lutando junto com os homens para impedir a construção
da barragem de Belo Monte”. Pablo Kamayura diz:
“Aqui no Parque Indígena do Xingu têm
quinze Povos, todos estão aqui representados para
fazer essa manifestação”.
Uma coisa bastante curiosa desse encontro
é que ele foi convocado e organizado pelos próprios
indígenas e quem centralizou essa organização
foi o Cacique Raoni, figura histórica na luta de
Belo Monte que, em 1989, junto com Sting, rodou o mundo
depois de um grande encontro que houve em Altamira e que
foi o marco do ambientalismo brasileiro pré-Eco
92.
Os indígenas querem mostrar para
as pessoas, para todo o mundo e todos os que não
entendem bem os seus costumes, as maneiras como eles vivem,
como eles dependem do rio, da floresta e da terra para
sobreviver. Na terra eles cultivam a mandioca, na floresta
eles caçam e no rio eles pescam os peixes que alimentam
suas famílias.
Cacique Raoni diz que não quer
a construção da barragem. Por quê?
“Porque eu quero que o rio continue com vida igual
a nós. Eu quero que os peixes, os animais e os
outros seres vivos continuem vivendo em paz. Por isso
eu não aceito a barragem”.
Outra questão apontada pelo painel
de especialistas é que, historicamente, as populações
da Amazônia não são os alvos prioritários
dos projetos hidrelétricos brasileiros. A energia
gerada por Belo Monte interessa principalmente à
indústria eletro-intensiva, como a de alumínio,
que consome muita energia, tem tarifas subsidiadas e emprega
poucas pessoas. É como exportar energia elétrica
subsidiada na forma de alumínio à custa
da destruição dos ecossistemas naturais
que garantem a sobrevivência dos povos tradicionais.
Aliás, o Estado do Pará, se não for
o único é um dos poucos no mundo a exportar
energia elétrica subsidiada na forma de minérios
e quem paga a conta é o pobre consumidor residencial.
Não é à toa que
quatro grandes grupos que atuam no Pará já
manifestaram o interesse de participar do leilão
de Belo Monte: a “cada vez mais verde e amarela”
Vale do Rio Doce, a Votorantin, a Alcoa e a empresa química
Braskem que estão de olho nos 20% da energia destinada
aos autoprodutores para montar pelo menos uma usina de
alumínio no Pará, cujo percentual equivale
a 1,1 mil quilowatt/ano garantidos pelo governo como forma
de “internalizar a energia gerada”; enquanto
isso, a recatada e austera governadora Ana Júlia
Carepa não esconde seu descontentamento com a "demora"
do IBAMA em conceder a licença ambiental para Belo
Monte.
O problema a ser causado no local onde
moram nossos parentes será a diminuição
do volume da água onde eles buscam a alimentação,
e com isso, a diminuição na reprodução
dos peixes. Se Belo Monte for mesmo construída,
muitas coisas vão ficar diferentes. Os peixes vão
desaparecer e os índios não agüentam
comer arroz, feijão, pão e refrigerante
todo dia. Morrendo o Rio Xingu, os índios morrem
junto.
A reunião de 284 lideranças
indígenas de mais de 15 etnias teve alguns desdobramentos.
Um deles foi elaboração de uma carta para
as autoridades que foram convidadas e não compareceram
ao encontro que ocorreu em outubro de 2009.
E essa carta teve um conteúdo
bastante agressivo no sentido de que eles querem ser ouvidos,
que não aceitam ser chamados de “demônios”
como disse o Ministro Lobão, que existem “forças
demoníacas” impedindo a construção
desses empreendimentos. Isso é um absurdo! Os povos
indígenas estão exercendo o legítimo
direito de ser informados e opinar sobre empreendimentos
que podem afetar – e muito - o habitat em que eles
vivem. A carta foi encaminhada por uma comissão
de cinco pessoas, na tentativa de entregar em mãos
ao Presidente Lula e ao Presidente da Fundação
Nacional do Índio, para que os povos fossem ouvidos
e o empreendimento não fosse construído.
Então, os índios perguntam:
“Por que Lula está acabando com a nossa terra”?
“Os primeiros habitantes dessa terra somos nós.
Por que ele não veio primeiro consultar a gente
para pedir, ou para informar que ele está acabando
com a nossa terra?” Nossa comunidade cresce se alimentando
dos recursos naturais do rio, que é o peixe. Por
que eles não vêm primeiro dizer pra nós
que eles, do governo, estão acabando com o nosso
rio, diminuindo nossa terra e acabando com a água
de onde a gente se alimenta? Por que Lula, como homem,
não chegou à nossa frente para falar que
vai acabar com nossa terra e nossa água? Respondo
aos índios: acho que Lula e Lobão devem
lembrar muito bem do episódio ocorrido em uma reunião
do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, no dia 20 de maio
de 2008, sobre a construção da barragem
em Altamira, quando o representante da Eletrobras foi
ferido no braço por um índio com um terçado...
“Quem tem ‘cobre’ tem medo”...
Os índios foram a Brasília
para ser ouvidos como gente, não como animais,
porém, mais uma vez, foram solenemente ignorados
de verde e amarelo e se depender dos defensores do empreendimento,
eles ficarão cada vez mais verdes e amarelos, só
que amarelos de vermes e verdes de fome, pois ninguém
do governo apareceu para dar explicações
ou “fumar o cachimbo da paz”.
Os povos indígenas têm boas
razões para dizer “não” a esta
obra na Bacia do Rio Xingu. Eles demonstram percepções
que, muitas vezes, os cientistas não alcançam
sobre a natureza.
Finalmente, aos que pensam que tudo isso
não passa de “bobagem”, termina com
uma pergunta analógica: o que você faria
se alguém fosse até a sua casa, onde você
vive com sua família, e lhe dissesse: “escuta
aqui seu abestado, desocupa imediatamente a tua casa,
pois vou inundá-la com alguns milhões de
litros d’água”...
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