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A Amazônia em foco
quarta-feira,
27-04-05
A ocupação da Amazônia
é, há muito tempo, objeto de amplas discussões,
debates e até mesmo disputas acirradas que envolvem, não
apenas aventureiros, que aqui buscam a apropriação
de áreas produtivas, mas poderosos grupos internacionais.
Ao iniciar minha participação, neste importante
e já vitorioso site, mantido, com promissor crescimento,
pelo confrade Jorge Calderaro, trago à opinião pública
uma inquietação e, na sua esteira, um ponto para
reflexão: onde estão as vozes tão agressivas,
em determinadas ocasiões, que, de forma inequívoca,
se mantêm à margem das iniciativas, agora ainda mais
fortalecidas por conta do avanço da tecnologia, que objetivam
efetivar uma presença que já não é
novidade para alguns, mas que ainda inquieta os cidadãos,
principalmente aqueles que detêm informações
estratégicas no setor da segurança nacional: a possível
internacionalização amazônica. Os comandos
militares são, entre outros, exemplos desse clima de preocupação
que reina nos círculos do poder.
Em recentes declarações, em Brasília, o secretário
de Política e Estratégia e Assuntos Internacionais
do Ministério da Defesa, almirante Miguel Ângelo
Davena, e o secretário–geral do Ministério
das Relações Exteriores, embaixador Samuel Pinheiro
Guimarães, enfatizaram a necessidade de investimentos brasileiros
na defesa da Amazônia. Por sua vez, o senador Jefferson
Peres, do Amazonas, requereu a realização de uma
reunião sobre o tema “A internacionalização
da Amazônia: Risco Real ou Temor Infundado”. Sobre
essa questão, aliás, o almirante Davena diz que
o desenvolvimento econômico nas áreas de fronteira
deverá ocorrer de forma gradual e sistemática, destacando
que a Amazônia Legal representa cerca de 60% do território
brasileiro, sendo que a região abriga um terço das
florestas do planeta e uma bacia hidrográfica que, com
seus recursos hídricos, representa um quinto da disponibilidade
de água doce do mundo.
Finalmente, o embaixador reforça a tese da cobiça
de países estrangeiros em relação à
Amazônia citando declarações atribuídas
ao ex-comissário da União Européia, Palcal
Lamy, no sentido de que não se deve pensar em propriedade
da região amazônica, mas em “gestão
coletiva”. Outro ponto que reforça essa visível
cobiça internacional são comentários que
dão conta da existência de um livro norte-americano,
no qual o mapa brasileiro aparece totalmente desvirtuado. Inclusive,
segundo informações de bastidores, esse mapa estaria
circulando na Internet apontando a Amazônia como “área
de preservação internacional”. Por essa e
outras razões, há uma corrente que pensa como o
senador Valdir Raupp, de Rondônia, segundo o qual “os
brasileiros devem proteger a região e promover o desenvolvimento
sustentável. Inclusive, o senador defende a introdução,
no Protocolo de Kyoto, de compensações pela preservação
de florestas”. Por esse motivo faço coro a essa corrente
e pergunto a você, amigo internauta: o que está sendo
feito de concreto para evitar que tal possibilidade se materialize?
FLORESTAS PÚBLICAS – Ainda repercute
de forma significativa, em círculos mais bem informados
que acompanham fatos ligados à preservação
e defesa da região amazônica, a audiência pública
realizada no auditório Albano Franco, da Federação
das Indústrias do Estado do Pará. O evento que objetiva
discutir o Projeto de Lei 4776/05, encaminhado em fevereiro pelo
Poder Executivo e que prevê a disponibilização
de até 13 milhões de hectares de florestas na Amazônia
para concessão de uso sustentável nos próximos
dez anos e, ainda, a criação do Sistema Florestal
Brasileiro, um órgão federal para fiscalizar a gestão
das florestas, seguindo o modelo das agências reguladoras
brasileiras, acontece a algum tempo pelo Brasil. Sobre essa questão,
tive a oportunidade de ouvir as opiniões do jurista Adherbal
Meira Matos, da senadora petista Ana Júlia Carepa, dos
deputados federais Asdrúbal Bentes, Zé Geraldo,
assim como colhi informações junto a também
deputada federal Ann Pontes e pude constatar que, de modo geral,
há um consenso com relação à importância
e necessidade dessa discussão. Inclusive, de forma conflituosa,
há quem pense, como é o caso do jurista Adherbal
Meira Matos que seja tal iniciativa inconstitucional e redundante,
pois em sua opinião ele acha que o PL 4776/05 “colide
com o PAS (Plano da Amazônia Sustentável), principalmente
no que concerne à gestão em si e com relação
à soberania. Há, em primeiro lugar, um desrespeito,
inclusive, a áreas de fronteiras, que são áreas
estratégicas. E 40% do território nacional ficariam
sob a uma ocupação onerosa na Amazônia, onde
perderíamos o controle, a coordenação e a
fiscalização”.
Não resta dúvida que se trata de uma questão
polêmica e que merece, sem sombra de dúvida, maior
atenção por parte de toda a sociedade brasileira,
especialmente, volto a ressaltar, da amazônida.
DIA DO ÍNDIO –
Nada mais interessante do que iniciar um trabalho como este numa
data bem significativa para os brasileiros, em especial os amazônidas
que lutam pelos direitos das minorias excluídas do sistema,
entre os quais se destacam os índios. No dia consagrado
aos silvícolas, quero abordar um tema que, a meu ver, tem
muitos pontos ainda sujeitos a questionamentos sócio-culturais
e, também, econômicos, visto haver fortes correntes
sociais na defensiva quanto a medidas que se avizinham no território
brasileiro, com destaque para as florestas públicas localizadas
na Amazônia. Mais uma vez, recorro a um questionamento que,
há algum tempo, serve de elemento principal para debates
a respeito da atual vida dos primeiros habitantes da terra “descoberta”
pelo navegante português Pedro Álvares Cabral, em
22 de abril de 1500. Será que a maior parte da sociedade
brasileira não está sendo, realmente, omissa com
relação a essa situação de aculturamento,
degradação e abandono no qual vivem os remanescentes
da primeira civilização nacional?
A levar em conta a denúncia do presidente do Instituto
Americano das Culturas Indígenas no Brasil, Davi de Oliveira,
que, participando de audiência pública na Comissão
de Direitos Humanos e Legislação participativa no
Senado, classificou como “omissa” a participação
da Funai e culpando, diretamente, o atual presidente da Fundação
Nacional do Índio, Mércio Pereira Gomes, pela degradação
de direitos e “até pela morte de indígenas
por desnutrição”, reflito (como muita gente,
aliás) que a situação realmente é
incômoda, visto que, conforme informações
do senador Juvêncio Fonseca, do Mato Grosso do Sul, um relatório
elaborado pela Anistia Internacional, divulgado em Londres, critica
a violação dos direitos dos índios brasileiros.
Entre outras sugestões, o documento recomenda a criação
de um Conselho Superior de Política Indigenista e a elaboração
de um novo Estatuto do Índio, que eliminaria empecilhos
burocráticos e legais na demarcação de terras
indígenas. Ora, se segundo estimativas da própria
Funai, cerca de 190 mil índios vivem fora de suas terras
e, impelidos para as áreas urbanas ali vivem na condição
de ignorados, tanto por parte do governo, assim como por organizações
não governamentais, não seria esse o momento propício
para tentar fazer algo concreto para minimizar esse problema social
e buscar formas de reintegrá-los à sociedade de
forma mais digna e justa?
Do que adianta, como aconteceu por ocasião do Dia do Índio,
homenagear 24 líderes indígenas mais antigos do
país, que após assistirem ao filme “Viagem
pela Amazônia com o Marechal Rondon”, almoçaram
e degustaram comidas típicas indígenas e depois
se avistarem com o presidente da Câmara dos Deputados, Severino
Cavalcanti se, em áreas distantes, a população
indígena padece de desnutrição e perde, a
cada dia, seus valores morais e culturais?
Segundo pesquisadores do Laboratório de Linguagem da Universidade
Federal do Pará, das cerca de duas mil línguas indígenas
existentes quando da chegada dos colonizadores portugueses ao
Brasil, atualmente restam apenas 180. Só para exemplificar,
as línguas Parkatejê e Anambé estão
em alto risco de extinção.
A morte de crianças indígenas por desnutrição,
em Mato Grosso, serve de exemplo para esse estágio de miséria
e esquecimento no qual vivem à míngua os poucos
remanescentes que permanecem em suas terras. Segundo levantamento
da Pastoral Indigenista, realizado em 96 em Manaus, cerca de oito
mil e quinhentos índios viviam na capital amazonense. Hoje,
segundo a coordenação das Organizações
Indígenas da Amazônia Brasileira (Ciab), esse número
pode chegar a 20 mil silvícolas.
Mas, segundo informações de manauaras ligados à
questão indígena muitos desses desaldeados estão
se mobilizando para fortalecer sua identidade étnica e
defender seus direitos, a exemplo da Associação
de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMARN), surgida
em 1987 e que, atualmente, estão perto de uma centena de
membros procedentes das etnias Tikuna, Tukano e Sateré-Mawé,
que além de outras atividades sobrevivem da venda de artesanato.
P E R I S C Ó
P I O
Audiência pública, realizada no Auditório
João Batista, da Assembléia Legislativa, para tratar
da criação de uma política de recursos hídricos
para o Pará, que envolva não apenas ações
técnicas voltadas à utilização da
água, como também uma política de educação
ambiental capaz de assegurar o uso racional desse recurso movimentou
muitos segmentos locais. A audiência contou com a participação
de representantes da Companhia de Saneamento do Estado do Pará
(Cosanpa), da Companhia de Pesquisa e Recursos Hídricos
(CPRH), ambientalistas, Agência Brasileira das Águas,
Conselho Estadual de Recursos Hídricos, universidades Federal
(UFPA) e Estadual (Uepa), Universidade da Amazônia (UNAMA),
entre outros. @@@ O Brasil possui 13% de toda
água doce do planeta, mas desperdiça, anualmente,
46% do que consome. São 5,8 bilhões de metros cúbicos
que se perdem pelos ralos, o que seria suficiente para abastecer
a França, Suíça, a Bélgica e o norte
da Itália. Em toda a Europa, o desperdício de água
chega a 10%. Esses dados fazem parte de uma pesquisa concluída
em 2002 pela Coordenação de Pós-Graduação
e Pesquisa em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ). @@@ A mesma pesquisa mostra
que o desperdício causa prejuízos à economia
e à saúde pública, elevando os gastos do
Governo nesses setores. Segundo a UFRJ, 60% das pessoas internadas
nos hospitais públicos são vítimas das chamadas
doenças de veiculação hídrica. @@@
Esses e outros dados mostram que “é grande a responsabilidade
do Brasil no trato dessa riqueza ambiental”, conforme ressalta
o deputado Arnaldo Jordy, ao observar que quase 80% da disponibilidade
da água doce brasileira se concentram nas regiões
hidrográficas do Amazonas, do Tocantins e das bacias costeiras
do Amapá. @@@ A Comissão de Direitos
Humanos da Câmara dos Deputados realizou seminário
para discutir a situação de saúde e nutrição
das comunidades indígenas e as demarcações
e titulações de terra. Participaram líderes
de povos indígenas, a coordenadora da 6ª Câmara
da Procuradoria Geral da República (responsável
pelas comunidades indígenas), Déborah Macedo Duprat;
o presidente da Fundação Nacional de Saúde
(Funasa), Valdi Camarcio Bezerra; e o vice-presidente do Conselho
Indigenista Missionário (Cimi), Saulo Feitosa. @@@
Até a próxima quinzena.
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