"A sua mão esquerda esteja
debaixo da minha cabeça, e a sua direita me abrace"
segunda-feira, 21/09/09 - 16h48
Cantares de Salomão: 8,3
Estamos ficando enfermos. Estamos ficando
estéreis como o deserto. Estamos ficando descuidados
de tudo, de todos e de nós mesmos. Estamos emburrecendo
na arte do amor.
O que acontece conosco? Por que homens
saudáveis e mulheres inteiras, belas ou não,
inteligentes ou não, preparadas ou não,
não importa - porque este não é o
ponto- estão todos escolhendo ficar cada qual em
sua casa, escondendo-se atrás de um computador,
ou de uma TV de última tecnologia (plasma, digital,blue
ray, som ‘surounding’, etc...), enclausurando-se,
em vez de estarem se visitando, se reunindo, indo aos
lindos e sofisticados cinemas que agora nossas cidades
possuem dentro de confortáveis e lindos e seguros
shoppings, a ver filmes em casa; solitários? Ficando
barrigudos (as) de tanto comer no sofá da sala
de TV, mal ajeitados candidatos a uma lordose, ou escoliose
ou uma ose qualquer.
Por que alguns preferem pedir comida
em casa a sair e tentar se relacionar com alguém,
ver pessoas? Esqueceram a coisa boa que é dividir
conversas e confidências a frente de uma xícara
de café?
Serão os tempos violentos? Serão
os tempos estressantes? Será a falta de confiança
e esperança? Todas essas perguntas podem ser respondidas
afirmativamente, e certamente todas terão motivos
reais de ser.
Contudo, ah! O contudo... Isto seria
justificável se então ,quando através
de sites de relacionamentos, homens e mulheres que se
escolhem, se aceitam e se procuram, partissem depois de
frases, sentenças, orações subordinadas,
coordenadas na sintaxe e na estética e algumas
vezes insubordinadas até, arranjassem um jeito
fácil aos dois , de se encontrarem.
Acontece algumas vezes. Conheço
monte de pessoas que já se encontraram com as paqueras
virtuais ou com seus simples amigos, e continuam se falando
ao longo dos anos. Os amigos, evidentemente, pois as paqueras
ou partiram no primeiro encontro pra ignorância
de um convite safado, ou a tal química que rolava
on-line, me fazendo lembrar a cantiga; "o anel que
tu me deste era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou...", virou nada e desandou
pra frustração.
O homem formado, médico, boa
figura, viajado, que vive em congressos, livros publicados
etc., não tem modos à mesa, acaba de comer
e palita todos os dentes, da arcada superior e inferior,
sem a mínima cerimônia, e, depois disso tudo,
ali na mesa do restaurante chic, teve o descaramento de
pedir todo lampeiro,” não vai me dar nenhum
beijo? “...Beijo? Tô fora! Vê se me
erra! Só apelando pro vocabulário da meninada!
Todavia, lá vem a conjunção
subordinativa de novo, isto nem sempre acontece. Ficam
os pares virtuais trocando confidências, contando
um ao outro sobre suas vidas, seus sonhos, desesperanças
e esperanças, ficando cúmplices, vezes sem
conta, em algumas outras, até íntimos, e
o tal do galã não diz nada sobre a seqüência
lógica que se espera quando, um homem uma mulher,
sentem-se atraídos um pelo outro.
É um sem fim de receber e enviar
mensagens, tags, cartões, e-mails, até que
a princesa fique até as tampas, e vire bruxa e
deixe o sapo em que virou seu príncipe, sozinho
a ver navios. Ela o deleta e toma doril... Ninguém
sabe, ninguém viu.
Bem, este é o mundo virtual.
E o mundo real. O que falar dele?
Homens não querem se envolver
de jeito algum. Os que estão bem na vida e com
a vida, ficam curtindo a companhia boa, ficam ciscando
entre várias, como gostam de dizer, “amigas“,
mas não se definem por nenhuma delas. Presenteiam,
alguns, claro, a maioria é pão- dura de
doer! Levam a jantar, passeiam, mandam flores, dão
bombons e nada. Relacionar-se, comprometer-se, tentar
uma aproximação que lhes encha a alma de
alegria e leveza o coração... Nem pensar.
São céticos! São duros! São
frios! Fazem cálculos como se estivesse fazendo
planilhas de perdas e ganhos.
São solitários com pinta
de quem não espera mais nada na vida. Seu viver
já está no lucro. Não tem mais ilusões
a respeito do amor. Em boa linguagem popular, penduraram
a chuteira.
São dignos de pena! Perdem o
melhor da vida em sua fase última, praticamente,
por não querer assumir um amor, e fingir que têm
muitos amores. Mas todos sabemos que quem tem todas(os)
, não tem nenhuma(um).parece que o sexo já
não lhes diz respeito. Amor, compromisso? Isso
já são favas contadas.
Aquele aconchego, aquele olhar cúmplice
de quem está junto na caminhada, aquele ombro gostoso
depois do amor, ah! Isto nem sabem mais que gosto teria,
se é que já sentiram algum dia.
Alguns vivem no passado, não
cansam de se lembrar dos bons tempos, da época
da juventude,das namoradas, do sucesso que faziam... Outros
num futuro incerto, quando Deus vai mandar-lhes a alma
gêmea, aquela, sabe? Aquela que não existe.
Pois almas não são feitas aos pares.
Há ainda os mal casados. Loucos
pra entrarem numa relação fantasiosa, cheia
de estremecimentos e sonhos. Mil expectativas de uma paixão
arrebatadora, claro, virtual! Porque deixar a casa, a
mulher, aquela que eles dizem ser bruxa horrorosa, que
não sabe ou nunca os fez feliz, nem pensar. Imagine,
dividir tudo o que ganhei nestes anos todos? Dizem eles.
Querem mesmo é fugir da realidade
por alguns minutos, principalmente aqueles em que no trabalho,
a “jararaca” não os pode ver nem vigiar.
Daí, dão asas à imaginação,
enviam versos, músicas românticas, cartões
apaixonados. Durma-se com um barulho destes... E, o pior
, há as que acreditam e se deixam levar nesta farsa
romântica, sofrendo às lágrimas, com
pena dos coitadinhos!
O que dizer dos mais jovens? Entre 42
e 49 eles estão loucos por uma mulher madura, resolvida,
independente, “sempre gostei de mulher madura, são
as melhores”, dizem eles. E, cá entre nós,
se morar sozinha no seu próprio apartamento, com
uma bela pensão, melhor ainda. Amor? Não!
Vontade de se arrumar na vida!
Que mundo é esse? Que pessoas nos tornamos? Esquecemos
o que seja cuidar, acarinhar, repartir, juntar-se, unir-se,
expor-se ao amor, enfrentar a vida a dois? Não
queremos mais correr riscos no amor? Conte pra mim, dá
pra viver sem correr riscos?
Como alguém pode achar melhor
ser só, do que tentar amar e ser amado? Eu, continuo
acreditando no amor. Sei que ele existe, já tomei
deste cálice. Foi bom! Fez bem à minha alma
que se fartou de mel. Fez bem ao meu corpo que sentiu-se
vivo. Fez bem ao meu coração, que nunca
ficou sem esperança e alegrias. Mas devo confessar,
infelizmente, não existe amor pairando por aí.
Ele precisa de corpos, de espíritos, enfim de pessoas
dispostas a fazê-lo existir. Então, de que
vale acreditar no amor, se não dá mais pra
crer no ser humano?
Eis uma equação de difícil
resolução. Pois amor, este do qual estou
falando, não amor “fileo”, não
amor “ágape”, mas amor “Eros”;
este, entre um homem e uma mulher. Só se faz a
dois que queiram apostar na sua essência perene.
Bota o Chico no CD..., “Eu bem que mostrei a ela.
O tempo passou na janela, só” Carolina (o)
“... Não viu!
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