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Ercília Pollice

Escritora, poeta, acadêmica da Academia de Letras de Bauru,
artista plástica e assessora de Arte de Ju Machado-Escritório de Arte

 

A Paixão

quinta-feira, 02/06/11 - 17h44

A loucura é como uma mulher apaixonada.(Bíblia Sagrada)

Dizem os experts que a paixão pode durar de 3 meses, as mais curtas, até 3 anos, as mais avassaladoras.Depois disso, ou acaba , ou vira amor pra valer.

Engraçado ver um sentimento. assim tão abstrato e complexo, ser mensurado com tanta segurança.

Eu, tanto por experiência própria , quanto alheia,observadora que sou, tenho cá comigo que nestas coisas de amor, tudo é incerto.

Veja minha amiga Valentina, ela não sabe assegurar se realmente as coisas acontecem de uma maneira insólita com ela,ou vê tudo mais lindo e cor de rosa do que é.Seu olhar pidão de lagoa enluarada, ou de pôça deixada pela maré, vê tudo mais lindo e perfeito do que realmente é.Ama a vida esta mulher, consequentemente a vida a ama.Com esse olhar verde, mas enxergando tudo cor de rosa,Valentina tem o coração debulhado pra paixão.Já disse alguém que a conhece bem, que ela não ama os homens, ela ama o amor.

Talvez por isso, os homens passam pela sua vida, mas o amor dentro dela permanence o mesmo.Sempre pronto a ser derramado.Sempre aberto a se derreter diante de palavras sensíveis, de um olhar prescrutador, de mãos que afagam, de lábios sequiosos de beijos.

Nada a faz desistir.Nada a demove.Nada a tira de seu eixo.Acredita no amor,e ser tomada por uma paixão, é o que a faz inteira.

Na verdade, pra Valentina,a vida só é vivida, quando envolvida na vida de outra vida.

Sua memória emocional é de coisas boas.Sempre foi amada. Neste ponto, eu a compreendo bem, Valentina.Somos semelhantes!

A paixão a meu ver é meio irracional. Pura emoção, desejo, frio na barriga…sentimento mais físico que outro qualquer.

Seja como for, a paixão, assim como a saudade dói. Tira a fome, tira o sono, tira o sossego…

Mas é bom! Ah! Como é bom este estado maluco que nos toma por inteiro.

Amor sem paixão é planície. Amor com paixão é correnteza louca, levando o rio a bater nas margens, algumas vezes destruindo –a, carregando consigo o que estiver na frente.Há que se escolher Se é que a vida nos dá esse direito de escolha; que tipo de amor queremos.

Valentina é como rio de planalto, de repente despenca feito queda d’água na serra.Aquele fiozinho despencando lá de cima, parece que vai furar a rocha, mas, que nada…ao cair , forma uma límpida e fresca piscina natural, onde se pode boiar tranquilamente.

Sabe que há horas que esta mulher me assusta? Se assusta a mim que a conheço bem, imagine aos homens...São tantas Valentinas numa só que deixa qualquer um fora de órbita.

Sempre foi assim.Mas, agora, quando a maturidade a faz mais plena, ela me espanta com suas tiradas, seu jogo de cintura,suas deduções, seu jeito de driblar as aporrinhações.

O que admiro nesta mulher é sua garra em ser feliz.Nada a demove.Não deu como queria?Dane-se! Bola pra frente. A vida é muito curta pra se perder tempo chorando o leite derramado, diz pra si mesma.

Virar a página, subir cada degrau sem olhar pra baixo pra não ter vertigens, convenhamos, não é fácil. Todavia, ela consegue. Sua lucidez, se estudada, daria tese de doutorado.

Sagaz, percebe o olho do furacão antes que levante o vento.

Quisera ser assim.Quantos quereriam ser metade disso.Mas ninguém é igual. Somos todos seres unos.E é isto que nos torna tão singulares, tão diferentes dos nossos iguais.E não é só uma questão de herança genética, só DNA, nào. É algo mais profundo.É como a essência de nós mesmas.

Valentina tem essa essência de mulher.o arquétipo ancestral que permeia algumas mulheres privilegiadas.Aquelas que segundo Clarissa Pikola Estés correm com os lobos…esta analogia, só será entendida por quem leu este livro.Desculpem-me.

Como disse o poetinha, a mulher tem de ter qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudades…Há que ser como a mulher que canta Ivan Lins: …”quero sua risada mais gostosa, esse seu jeito de achar, que a vida pode ser maravilhosa, sem vergonha de saber como se goza…Ou a mulher de J. Steimbeck ( Vinhas da Ira):” Mulheres são como rio.Atravessam corredeiras, enfrentam redemoinhos,passam por correntezas, seguem em frente!”

Äh ! Valentina !Se todas fossem iguais a você. Por isso mesmo, você é um sonho! Uma quimera! Só emoção!

Você , Valentina , é ficção?

 

 
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