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Ercília Pollice

Escritora, poeta, acadêmica da Academia de Letras de Bauru,
artista plástica e assessora de Arte de Ju Machado-Escritório de Arte

 

E amanhã quem serão?

quinta-feira, 27/11/08 - 14h25

 

“Roda mundo, roda gigante,roda moinho roda pião,

O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração...

...a gente cultiva , a mais linda roseira que há,

Mas eis que chega roda viva,

E, carrega a roseira pra lá...”

(Roda viva- Chico Buarque)

Não é a primeira vez, e tenho certeza nao será a última, que me lembrarei desses versos.

Esta vida é, deveras, cheia de surpresas. Vejo as notícias sobre os alagamentos e deslizamentos em Santa Catarina. Uma beleza de estado, cidades bem cuidadas, povo ordeiro e trabalhador. Dá gosto passear em Sta Catarina... Praias lindas e cuidadas, comida boa e de preços ótimos. Fartura! Povo acolhedor e tremendamente bem educado. São cidadãos de primeira linha. Parece que por lá, ainda não chegou o banditismo, as gangues, as chacinas e a falta de civilidade.

Não pode deixar de doer meu coração ao ver tantos desabrigados. Tanta perda, tanto material quanto humana. Gente que trabalhou toda uma vida para ter um lar para chamar de seu, de repente, num abrir e fechar de olhos, perdeu tudo.

Cenas que emocionam. Fatos que chocam. Coisas que jamais poderemos aceitar e entender assim, sem questionar.

Parece que no nosso mundo, atualmente, a natureza deixou de ser a mãe amorosa e virou a madrasta má. Ninguém consegue escapar. Lá na Ásia, o tsunami, aqui o terranami. Um mar sem ondas, mas nem por isso, menos assustador. Terra descendo e levando tudo. A montanha desabando... Crateras se abrindo no chão e engolindo casas, carros, gente e sonhos.

Chuvas assim, como o fogo, devastam por onde passam. Deixam tristeza e desolação.

Foi assim na Nicaragua, foi assim no Haiti, foi assim na Califórnia. Agora é em Santa Catarina, aqui no sul, bem pertinho de nós.

Não sei o que mais nos espera neste mundo de meu Deus. Parece aquela canção antiga; “pois é falaram tanto que desta vez a morena foi embora...” Eu diria, tanto fizemos, tanto maltratamos esta nossa Terra, esse lindo planeta azul, que agora ele se zangou de vez, como a morena da canção.

O que sei, apesar de me sentir sem saber nada, é que se a crise econômica foi gentil até agora conosco, fomos premiados com tragédias outras.

Comove-me ver pessoas simples, sem serem requisitadas se juntando, doando, ajudando seus irmãos do sul.

Agora, não posso deixar de perguntar:

- Onde está a fala presidencial à gente ordeira de Santa Catarina?

- Onde estão os deputados eleitos por lá?

Assisti vários noticiários e não vi por lá, nem governador, nem prefeito, nem deputado, nem Presidente da República com seus ministros.

Fui eu quem dormiu e perdeu a presença dessas autoridades, ou os pronunciamentos só são feitos quando a desgraça é no exterior e implica em lucros e ganhos políticos.

Bush, quase foi linchado pela imprensa, pelo seu descaso com New Orleans, por ocasião do Katrina. E aqui, heim? Ninguém mais tem voz pra criticar coisas erradas?

Onde está a ótica de nosso olhar? Desde quando as coisas passaram a valer mais do que as pessoas?

Começo a concluir que há algo podre no “Reino da Dinamarca”.

E o refrão não me sai da cabeça: a gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mais eis que chega roda viva e carrega o destino pra lá...

Repetindo John Donne ”Querem saber por quem os sinos dobram? Eles dobram por mim mesma. Hoje são eles, mas e amanhã, quem serão?

 
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