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Ercília Pollice

Escritora, poeta, acadêmica da Academia de Letras de Bauru,
artista plástica e assessora de Arte de Ju Machado-Escritório de Arte

 

Mistérios insondáveis de ser

quinta-feira, 23/07/09 - 16h45

Que mola oculta nos empurra e nos faz tão diferentes uns dos outros, embora tenhamos as mesmas ilusões, as mesmas necessidades, os mesmos anseios e geralmente aborrecimentos parecidos ou semelhantes em diversos aspectos? Embora estejamos todos no mesmo planeta, no mesmo continente, país, cidade ou mesma casa? Somos diferentes até daquele que repartimos a cama.

Engraçado, deveras engraçado, como as pessoas reagem de maneira tão diferente à vida.

Umas são nervosas, irriquietas, negativas e só vêem o aspecto ruim das coisas.

Outras, apesar dos embates, das desilusões, dos problemas todos, que as cercam, não perdem a esperança e o sonho.

Será que esse determinismo de lutar, seguir em frente mesmo que às custas de muita tribulação e cacetadas, vem da genética? Ou, virá da alma única em cada um de nós?

Os que crêem na trilogia ; corpo , alma e espírito, talvez assegurem que esse modo de ser e agir vem do espírito.

A verdade é que corpo, alma e espírito são faces de uma mesma moeda e são indivizíveis e únicos em sua existência. Não existem espíritos fora do corpo agindo sem nossa permissão, nem almas xeretando sem que nosso corpo as abrigue. Almas não fazem sexo, não gostam de bons vinhos, ou de doces saborosos. Espírito não engorda com chocolate.

Esta diferença que nos faz únicos, embora sejamos muitos dentro de nós mesmos, mas sozinhos se comparados com a humanidade , é o grande mistério da existência.

No entanto essa mesma diferença que nos atrapalha muitas vezes na convivência com nossos semelhantes, nos aproxima de alguns deles, pois percebemos que sentimos de modo igual e reagimos da mesma forma em face às emoções, aos problemas, ao sofrimento, às decisões, às alegrias, ao amor.

O homem, este desconhecido, a cada dia consegue nos surpreender a todos.

Há coisas ocultas e inexplicáveis neste mundo de meu Deus. A ciência se multiplica, a física quântica tenta nos dar as respostas que queremos, os espiritualistas têm as mais diversas explicações, e os religiosos de todos os matizes debatem e argumentam sob sua própria ótica, ou sob a ótica de seus livros sagrados.

Contudo, a verdade inconteste é que somos todos verdadeiros enigmas. Aos olhos simplistas pode ocorrer uma explicação igualmente simplista e restringidora. Aos olhos mais complexos as coisas podem tomar rumos inusitados e nos surpreender com teorias. Aos olhos românticos tudo se resume no amor.

Mas, o fato é que, como já disse o filósofo inglês de Stratford- Avon -há mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia.

Eu, cá com meus botões, continuo dando graças a Deus, ajoelhada em grãos de milho, por ter nascido com essa alegria interior, essa esperança que nunca morre, essa certeza de que um dia tudo vai dar certo, essa determinação de acreditar sempre e não deixar os sonhos morrerem jamais, haja o que houver,venha tudo isto de onde vier; genética, alma , espírito, etc. Obrigada, Senhor!

Tenho pena das pessoas azedas, mal humoradas, fatalistas, desesperançadas. Aquelas que nunca se sentem felizes, nem gratas, nem doces, nem compassivas, nem perdoadoras.

Dizem que a vida nos ensina a ser melhores com a maturidade e o sofrimento. Que quem nunca sofre, não fica forte nem aprende a lutar.

Uma coisa é inconteste, a vida é complicada para todos, muito embora pareça a muitos que a vida de alguns seja sempre céu de brigadeiro. Ledo engano! Somos todos sofredores por um tempo, ou por tempos, contudo cada um de nós reage de um jeito todo peculiar e único. Esta é a nossa mearca, o que nos diferncia uns dos outros.

Daí porque a experiência é um farol virado para trás, como bem o disse Pedro Nava, o escritor.

Cada dia é uma apresentação de teatro, com público e peças diferentes, Todo dia é dia de estréia, sem ensaio e sem repeteco. Todo dia a cortina abre e fecha e representamos nossos papéis, ora com veracidade, ora dissimulando. Algumas vezes de alma leve, outras nem tanto, ou até bem pesadas. Mas o espetáculo não pára pra gente descer.

Eis a vida, como ela é!

Vida, uma palavrinha tão curta, mas com tantos significantes e significados.

Vida boa ou vida ruim, ninguém quer perdê-la, nem mesmo aqueles que acreditam que a outra será melhor, sem trabalho, sossegada e feliz.

Este é mais um segredo, ou mistério que nos envolve; o amor por esta dura, insensata e louca vida.

Lembrei-me, de repente de uns versos que recebi certa vez:

Quantas vidas tivesse, tantas eu lhe daria, pois é minha magia, minha alegria, meu bem maior.

Lindos versos, mas nosso bem maior é a própria vida. Nada mais.

 
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