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Ercília Pollice

Escritora, poeta, acadêmica da Academia de Letras de Bauru,
artista plástica e assessora de Arte de Ju Machado-Escritório de Arte

 

Olhar para quem? Correr pra onde?

quinta-feira, 28/01/09 - 09h15

"Quero trazer à memória, o que me pode dar esperança".
Lamentações 3.21

Como encontrar um ponto de apoio firme quando tudo a nossa frente parece, literalmente, desmoronar?

Não estou falando de coisas subjetivas, embora, no rastro das coisas concretas as outras venham de roldão, pois nesse nosso mundo, nada acontece isoladamente. Há sempre o famoso “efeito borboleta”.

A modernidade nos conecta com o mundo, com o universo, até. No conforto do nosso sofá, através da Tv, todas as tragédias humanas nos atingem, todas as calamidades da natureza, que, de repente, nos parecem insandecidas, nos amedrontam.

Como num filme de terror, perplexos, vemos, a um só tempo, avalanches de neve soterrar tudo o que encontram pela frente, borrascas, mortes pelo frio intenso no Hemisfério Norte e, num virar de página do âncora do Jornal, assistimos, boquiabertos, no Hemisfério Sul, os rios ultrapassando seu limite sustentável, invadindo casas, cidades, derrubando árvores, postes, pontes, matando animais e pessoas. Roubando-lhes o sossego, a casa, o pouco que têm e, o pior, a dignidade e a esperança no futuro.

Daí, eu aqui do meu canto, supostamente seguro, lembro–me de palavras gravadas na memória: "SE, num tempo de paz estás confiado, o que farás na enchente do Jordão?".

Chego a duas conclusões:

1- O nosso Jordão já chegou.

2- Para que alguém nos deixasse estas palavras em tom de advertência é porque a humanidade, em diferentes épocas, diferentes contextos geográficos ou culturais, já sofreu os efeitos da ação da natureza.

No entanto, isto não nos exime da culpa de termos apressado, ou desencadeado, catástrofes que poderiam ter sido evitadas.

Nem vou chover no molhado argumentando, por razões óbvias; nem posso mais ouvir falar em chover, muito menos no molhado, como também, não aguento mais ouvir explicações sobre o porquê dos fatos, sem que solução alguma seja tomada.

No entanto, sabe-se, por estatísticas (dados concretos) e pela História, que nunca o cerco foi tão apertado e tão flagrante.

Terremotos na China, na Califórnia, até no Ceará. Tsunamis na Indonésia, Chuvas arrasadoras no Peru, katrina nos EEUU, tirando New Orleans do mapa. E agora além dos tornados que acontecem no sul do Brasil, temos a Serra do Mar encharcada de tanta chuva, deslizando sua parte de terra pelas encostas, matando pessoas soterradas em suas casas, ou não. Estradas abrindo-se ao meio, engolindo carros, como um buraco negro engole o universo que gravita em sua volta.

Por mais que a Terra tenha um ciclo que caminha numa dinâmica própria, universal, que nada pode deter, sabe-se que o homem, com sua ganância, seu imediatismo e seu desamor ao seu semelhante, seja ele sua descendência ou não, apressou e desencadeou um processo que possuía seu próprio ritmo. Seu próprio passo.

Agora, estamos todos num mesmo barco. Na mesma enchente do Jordão. Nas mesmas frigidíssimas geleiras dos Polos. E, o pior, estamos à deriva...

Capitães? Como dar-lhes crédito?

Segurança? Ninguém está seguro mais.

Por isso, proponho-me a trazer à memória apenas aquilo que me traz esperança.

E, minha esperança está em Deus. Porque sei que haja o que houver, aconteça o que acontecer. Ele jamais me deixará.

Minha fortaleza, meu castelo forte. Nele, só Nele, tenho descanso.

E você? Descansa em quê?

Ipses literis!

 
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