Paredes que falam
sábado, 27/09/08– 11h30
"O meu amado é semelhante
ao gamo, ou ao filho do veado: eis que está detrás
da nossa parede, olhando pelas janelas,
reluzindo pelas grades..."
Cânticos dos cânticos:2,9
Não sei bem o que Salomão pensava exatamente
ao proferir tais palavras, tão contundentes...
há muitas interpretações à
respeito, e cada uma apresenta seus argumentos.
Hoje, mesmo sabendo que estou a fugir de todas elas,
ouso pensar nestes quase versos a meu modo.
Ao longo dos anos a gente vai mudando...
Ao longo dos anos a gente vai se moldando...
E ainda ao longo dos anos vamos nos mudando, mudamos
de idade, mudamos de casa, de bairro, de cidade, e alguns
até de país.
Só não nos mudamos ainda de planeta...
nossa casa mais fixa por enquanto é aqui neste
mundinho, vasto mundo, pequeno mundo... mas o único
que temos...
Mudar desta vida para outra em outro mundo... nenhum
de nós aceita, mesmo que seja para o Paraíso...
Nossa Terra é nossa casa fixa, e desejamos que
essa certeza perdure muito.
Bem, voltando às mudanças e andanças,
acabei por fazê-las assiduamente nos últimos
anos, e comecei a perceber que onde pendurava meus quadros
, pendurava também uma parte de mim.
E as paredes que eram silenciosas e frias começavam
comigo um ritual de "flirt".
Primeiro uma troca de olhares, depois um sorriso de
cumplicidade e aos poucos alguns palavras balbuciadas,
que assim, meio, sem sentir acabaram se tornando verdadeiras
trocas de segredos e compartilhamento de sentimentos.
Elas começaram a ser as minhas paredes!
Ouviam meu canto. Ouviam meu choro. Ouviam meu riso.
Segredo-lhes coisas minhas e elas me ouvem sem ajuízar
-me as razões. Elas me aceitam!
Sabem ouvir e sabem silenciar quando é preciso.
São as minhas paredes e me trazem aquela sensação
boa de aconchego, de lar, de segurança. Passam
a ser as coisas da minha casa, e num sentido subjetivo,
se tornam a casa das minhas coisas!
Fazem parte de minha história e passo a amá-las
como a um amor último , as coisas velhas ficam
pra trás, como nos diz a Palavra de Deus, eis que
tudo se faz novo...
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